domingo, 20 de março de 2011
A Tomada de consciência e o memorícidio III
A partir desta altura, tudo se joga entre meados de Outubro e finais de Dezembro de 1799. A primeira tarefa dos cônsules consiste no restabelecimento da paz religiosa: é a famosa proclamação de 7 Nivoso, ano VIII (288 de Dezembro de 1799), cujo conteúdo marca uma ruptura em relação à política do Directório. Depois de ter condenado a acção «dos traidores vendeanos ao Inglês [...], homens a quem o governo não deve nem consideração nem declaração de princípios» , os cônsules dirigem-se aos «cidadãos caros à pátria, que foram seduzidos pelos artifícios deles e a quem são devidas as Luzes e a verdade». Recordam em poucas palavras os abusos arbitrários dos governos precedentes: «Foram promulgadas e executadas leis injustas, actos arbitrários alarmaram a segurança dos cidadãos e a liberdade de consciência; por todo o lado, inscrições arriscadas sobre listas de emigrados afectaram cidadãos que nunca tinham abandonado nem a sua pátria nem sequer os seus lares; finalmente, foram violados grandes princípios de ordem social.»
Segundo o texto, não apenas o governo actual não continuou esta política, mas, pelo contrário, denuncia-a; melhor ainda: «trabalha sem descanso, preparando a reforma das más leis e uma combinação mais acertada das contribuições públicas. Cada dia é, e será, marcado por actos de justiça [...]. O governo perdoará e reconhecerá o arrependimento.» Recusa, amnistia, sem dúvida, mas também, e sobretudo, liberdade total do culto católico. «Os cônsules declaram ainda que a liberdade dos cultos é garantida pela Constituição, que nenhum magistrado pode desrespeitar; que nenhum homem pode dizer a outro homem: tu exercerás um só culto, tu não o exercerás senão um dia.» Esta frase, impressa em caracteres especiais, é decisiva: ela diminui ou suprime reivindicações religiosas. Já no tratado de la jaunaye celebrado entre os vendeanos e a República, em 17 de Fevereiro de 1795, por uma habilidade dos representantes Morisson e Gaudin, tinha proclamado a liberdade do culto, mas esta depressa fora posta novamente em questão.
Esta proclamação, muito acertada no seu enunciado, faz coincidir, pela primeira vez, a legitimidade do clero refractário com uma certa legalidade. Reconhece-lhe, com efeito, e confere-lhe mesmo um papel de intermediário que lhe tinha sido recusado até então: «Todos conhecerão um só sentimento: o amor da pátria. Os ministros de um Deus de paz serão os primeiros motores da reconciliação e da concórdia: que vão a esses templos, que eles mesmos reabriram, oferecer com os seus concidadãos o sacrifício que expiará os crimes da guerra e o sangue vertido.» A palavra «sacrifício» não foi escolhida por acaso: é uma definição católica fundamental e não um deísmo ou mesmo um cristianismo de tipo protestante ou modernista. Bonaparte, mediterrânico, está muito a par da sensibilidade católica. O clero não se enganou. A proclamação é seguida de todos os decretos que anulam as restrições e vexames anteriores. Proclamam o direito de chamar para as funções públicas os ci-devant nobres ou parentes de emigrados considerados dignos de confiança. O juramento constitucional é substituído por uma promessa de respeitar a Constituição consular que não interfere no âmbito do espiritual. Esta declaração é considerada pelos vendeanos como uma vitória. Justifica de maneira clamorosa o seu combate.
Em 18808, o imperador, convidado pelo seu amigo o barão Dupin, prefeito de Deux-Sèvres e marido da viúva de Danton quando do seu regresso de Espanha, atravessa a Vendeia. Estupefacto perante o estado de desolação geral, vai ainda mais longe e decide estimular a reconstrução pela concessão de indemnizações às populações sinistradas. É publicado imediatamente um decreto, em 8 de Agosto, para a Vendeia, seguido de dois outros em 1811, para Deux-Sèvres e o Loire-Inferior: entre outros benefícios, os vendeanos, são isentos de contribuições durante 15 anos e são concedidos prémios. Luís XVIII e Carlos X, apesar dos discursos oficiais, que partem do princípio de que o «rei não sabe de nada, o rei esqueceu tudo? a fim de não excitar as paixões, prosseguem nesta política e amplificam-na: pensões, indemnizações, doações, honras, trabalho, são distribuídos espontaneamente ou em deferimento de solicitações. Os sobreviventes, estimulados pelas autoridades, começam também a contar os acontecimentos tal como os viveram. Escritores, jornalistas dão igualmente o seu testemunho. Em 1819, o próprio Victor Hugo consagra à Vendeia uma das mais belas odes, intitulada «Vendée». Com o reinado de Luís-Felipe começa a revisão da história e o trabalho de manipulação da memória em nome do superior interesse da nação e dos princípios «fundadores» da revolução, como bem o explicou o grande historiador do século XIX, Hippolyte Taine, na introdução da sua obra Les Origines de La France Comtemporaine, publicado em 1884: «Este volume tal como os precedentes», afirma ele, «é escrito apenas para os amadores de zoologia moral, para os naturalistas do espírito, para os investigadores de verdades, de textos e de provas, para eles somente e não para o público que, sobre a revolução, tem o seu parti pris, a sua opinião feita. Esta opinião começou a formar-se em 1825-1830, após a retirada ou a morte das testemunhas oculares: desaparecidas estas, pôde-se persuadir o bom público de que os crocodilos eram filantropos, de que vários de entre eles eram dotados de génio, de que eles nunca tinham comido senãos os culpados e que, se por vezes, os comeram em excesso, foi por ignorãncia, sem o desejarem ou por dedicação, sacrifício deles próprios ao bem comum.»
Fonte: O Livro Negro da revolução Francesa DIR. Renaud Escande
domingo, 13 de março de 2011
A Tomada de consciência e o memorícidio II
O general Turreau, que segue os acontecimentos da prisão, compreendeu esta evolução e, ainda depois do 13 Vindemiário, exige ser julgado: sabe que nao só não arrisca nada como, mais ainda, pode recuperar a sua honra. Absolvido, não tem sequer um olhar de compaixão para com Chapelain, o depurado republicano da Vendeia, apupado pelo público por ter denunciado os horrores cometidos. Desesperado, enojado com a situação, este último, tentará mesmo acabar com os seus dias, pois está ciente de que a Nação fez uma opção definitiva: os argumentos suceder-se-ão, lógicos, cruéis, injustos, desonestos. A unidade nacional, consciente e inconsciente, cristalizou-se contra os vendeanos: nada mais poderá tornar a pôr essa escolha em questão e ai daquele que ouse relembrar a realidade dos acontecimentos!
Sós, os generais vendeanos, por causa da sua envergadura, do respeito que suscitavam, do seu conhecimento exacto dos acontecimentos, teriam podido, eventualmente, quebrar esta lógica nascente. Infelizmente, todos estavam mortos: Cathelineau, Bonchamps, Lescure, mortos por balas anónimas, d'Elbée, Charette, Stofflet, fuzilados; o príncipe de Talmont, guilhotinado, etc.
Resta o problema da memória, ou, mais exactamente, das memórias, porque se impõe fazer a distinção entre a memória nacional e a memória local.
Bonaparte é o primeiro agente da memória nacional. Quando toma o poder em 1799, uma das suas primeira preocupações é o restabelecimento da paz na Vendeia. Além da evidente finalidade política, o general tem também um reflexo humanitário. Está, e di-lo-á repetidamente, escandalizado pelo que tinha sido feito: «Ah! Eis aí a guerra civil e o seu pavoroso cortejo: eis os seus resultados inevitáveis; os seus frutos garantidos! Se alguns chefes fizeram fortuna e se livraram de responsabilidades , a poeira da população é sempre calcada aos pés; nenhum dos males lhe escapa!» Aliás, ele tinha-se recusado deslocar-se à Vendeia no quadro da repressão. Os Vendeanos não se enganam quando no 15 Brumário, ano VIII, gritam a plenos pulmões: «Viva o rei, viva Bonaparte!»
O sectarismo do Directório e as perseguições que se lhe seguiam resultaram, por conseguinte, numa formidável extensão da guerra no Oeste, em 1799. Numerosos contemporâneos assinalaram as graves consequências que daí podiam advir, tal como foi apresentado em dois relatórios anónimos (assinados X) de 23 e 26 de Ventoso, ano VI, expedidos de Nantes para o ministro. O primeiro texto assinala o ressurgir das críticas contra o regime, mesmo por parte de pessoas aparentemente alinhadas com a República: as paixões animam-se; os agentes são vítimas de ameaças; os descontentes elevam a voz. Os culpados, segundo as testemunhas, são indiscutivelmente os padres que «se agitam e abusam mais do que nunca da sua pérfida influência para doutrinar os fracos no momento das festas da Páscoa que se aproximam.» Realizam-se todas as noites, um pouco por todo o lado, reuniões populares para a recitação do terço: «Os habitantes são convocados para os locais, indicados por toque de corneta.» O segundo relatório menciona «manobras subversivas» e queixa-se ainda de padres que «pregam a rebelião» e anunciam o fim próximo do governo. A administração, face a estes acontecimentos, adopta, numa primeira fase, uma atitude com nuances, depois alinha-se francamente com os vendeanos. Proíbe que se toque músicas patrióticas no início dos espectáculos e reage vivamente, em Setembro de 1798, à decisão do Directório de proceder a um novo recrutamento de homens. Esta reacção leva ao fracasso da lei designada por Lei Jourdan. O Directório, furioso, decide então sancionar os pretensos culpados e faz reocupar militarmente a região, o que dá lugar à multiplicação das manifestações de cólera, tanto mais violentas quanto o clero é de novo perseguido e a prática religiosa proibida.
Fonte: O Livro Negro da revolução Francesa DIR. Renaud Escande
sábado, 5 de março de 2011
A Tomada de consciência e o memorícidio I
Continuação
Vai ser necessário aguardar a queda de Robespierre para que a opinião pública local, nacional e internacional tome consciência da «enormidade do acto» cometido na Vendeia. À estupefacção geral, segue-se muito em breve a cólera. Exigem-se culpados e aplicação de penas: os testemunhos afluem, publicam-se escritos, revelam-se documentos. O processo Carrier só se compreende neste contexto: o homem é visto simultaneamente como «um grande criminoso contra os direitos fundamentais dos homens» e o bode expiatório que deve pagar por todos os outros. Uma vez este desaparecido, espera-se que o esquecimento faça tábua rasa deste crime que mancha, sabemo-lo já, de maneira indelével, a Revolução. o seu processo é de uma modernidade espantosa e, no fundo, muito próximo do de Nuremberga. São formuladas cinco grandes questões: Quem é culpado? Quem é responsável? Como deve ser sancionado este crime contra a humanidade? Como registar na memória este crime de Estado? Como classificá-lo? Esta última questão está a ser objecto de longos debates em razão da especificidade primordial desta política de aniquilamento e de extermínio. À falta de uma palavra que o defina, Gracchus Babeuf vai recorrer a um neologismo: o populicídio. De facto, o horror é de tal ordem que as consequências políticas se impõem a todos: para além dos homens, é o regime político que é condenado. Inicia-se então uma corrida contra o relógio, estando em jogo a própria sobrevivência da Revolução e dos revolucionários.
Tudo se joga entre o processo Carrier de Dezembro de 1794 e o de Turreau em Dezembro de 1795. O contexto era o da reconciliação e do esquecimento: os vendeanos, pelos tratados de la Jaunaye (17 de Fevereiro de 1795) e de Saint-Florent-le-Vieil (de Maio de 1795) e os chouans da bretanha, pelo de la Mabilais (20 de Abril de 1795) prestam-se ao jogo tanto mais facilmente quanto lhes prometem secretamente a restituição do delfim rei Luís XVII, para o qual construíram uma casa em Belleville, e a restauração da monarquia que surge como o único sistema capaz de garantir a liberdade e a segurança geral. Além disso, esta paraece inevitável e as eleições legislativas estão próximas: os republicanos encontram-se divididos, a miséria do país é real, a opinião pública sente-se ultrajada.
Os convencionais, desesperados e amedrontados, decidem forçar o destino: uma carta escrita por sete deles (Tallien, Treillard, SIeyès, Doulcet, Rabaut, Marec, Camvacérès) e expedida a Guezno, o representante do povo, explica a estratégia a reter: «É impossível, caro colega, que a República se possa manter, se a Vendeia não for for inteiramente subjugada. Não podemos por nós próprios acreditar na nossa segurança senão quando os bandidos que infestam o Oeste desde há dois anos forem colocados em posição de não nos poderem prejudicar e contrariar os nossos projectos, quer dizer, quando foram exterminados. Já representa um sacrifício demasiado vergonhoso termos sido reduzidos a tratar da paz com rebeldes, ou melhor, com celerados cuja grande maioria mereceu o cadafalso. Convence-te de que eles nos destruirão se não os destruirmos nós primeiro. Eles não puseram mais boa fé do que nós no tratado assinado, que não lhes deve inspirar nenhuma confiança nas promessas do governo. As duas partes transigiram, sabendo bem que se enganavam. É por causa da impossibilidade em que nos encontramos de esperar que possamos abusar durante mais tempo dos vendeanos, impossibilidade igualmente demonstrada a todos os membros dos três comités, que será necessário procurar os meios de prevenir homens dotados de tanta audácia e actividade como nós. É necessário não adormecer, pois o vento ainda não agita os ramos mais fortes, mas está muito perto de soprar com violência. Aproxima-se o momento em que, segundo o artigo II do tratado secreto, é preciso apresentar-lhes uma espécie de monarquia, e mostrar-lhes essa criança pela qual eles se batem. Seria demasiado perigoso dar uma tal passo; perder-nos-ia para sempre. Os comités apenas encontraram um meio dos bandidos reside no fanatismo que os seus chefes lhes inspiram; importa prendê-los e dissolver assim de um só golpe esta associação monárquica que acabará connosco se não nos apressarmos em evitá-lo. Mas é necessário não perdermos de vista, caro colega, que a opinião cada dia se torna para nós ainda mais necessária do que a força; é preciso tudo sacrificar para colocar a opinião do nosso lado. É necessário fazer supor que os chefes insurrectos quiseram romper o tratado, tornarem-se príncipes dos departamentos que ocupam; que estes chefes têm relações secretas com os Ingleses; que querem oferecer-lhes a costa, pilhar a cidade de Nantes e embarcarem com o fruto das suas rapinas. Faz interceptar correios portadores de cartas deste género, clama contra perfídia e usa sobretudo, neste primeiro momento, de uma grande aparência de moderação a fim que o povo veja claramente que a boa fé e a justiça estão do nosso lado. Repetimos-to, caro colega, a Vendeia destruirá a Convenção, se a Convenção não destruir a Vendeia. Se puderes ter na mão os onze chefes, o rebanho dispersar-se-á. Concerta-te no local com os administradores de Ille-et-Vilaine. Comunica a presente carta imediatamente após a sua recepção aos quatro representantes do bairro. É necessário aproveitar a surpresa e o desânimo que deve causar a falta dos chefes para operar o desarmamento dos vendeanos e do chouans. É preciso que eles se submetam ao regime geral da República ou então que pereçam; nada de meios-termos; nada de meias medidas, elas estragam tudo quando se trata de revolução. É imperativo, se for necessário, empregar o ferro e o fogo, mas tornando os vendeanos culpados aos olhes da nação pelo mal que nós lhe fazemos. Aproveita, caro colega, nós to repetimos, as primeiras aparências que se apresentaram para dar o grande golpe, porque os acontecimentos pressionam de todos os lados [...].»
Por um acaso inaudito, esta carta caiu nas mãos dos chouans em Châteaugiron, em 10 de Junho, quer dizer, dois meses depois da intercepção de um comboio de veneno nos arredores de Ancenis, na quinta de Volfrèse, pelo visconde de Scepeaux: é a estupefacção e a cólera. Em 22 de Junho, por uma proclamação solene aos habitantes do Poitou, de Anjou, do Maine, da Bretanha, da Normandia e de todas as províncias de França, os principais chefes bretões e vendeanos protestam contra o uso de tais métodos e gritam traição. É tarde de mais: os convencionais tinham já trabalhado em profundidade: o desembarque de Quiberon, em 27 de Junho, o golpe de Estado de 13 de Vindemiário (5 de Outubro) farão o resto: a opinião pública nacional passará a considerar para todo sempre os vendeanos e os chouans como homens perjuros.
Fonte: O Livro Negro da revolução Francesa DIR. Renaud Escande
quarta-feira, 2 de março de 2011
Algumas frases do livro Jesus de Nazaré Vol II
O genoma humano ajuda a perceber a “grandiosa matemática da criação” mas não diz tudo sobre toda a “linguagem de Deus”, escreve o Papa Bento XVI no segundo tomo da sua obra Jesus de Nazaré, que será posta à venda no próximo dia 11, num excerto a que o Público teve acesso. “A verdade funcional acerca do homem tornou-se visível; mas a verdade sobre ele mesmo – o que é, donde vem, para que existe, que é o bem ou o mal – esta verdade, infelizmente, não pode ser lida do mesmo modo.”
A afirmação faz parte de Jesus de Nazaré – Da Entrada em Jerusalém até à Ressurreição. O primeiro volume da obra foi publicado por Joseph Ratzinger/Bento XVI no final de 2007. Este segundo tomo será apresentado no próximo dia 10, quinta-feira, no Vaticano, e está destinado a ser mais um "best-seller" – basta pensar que o último livro do Papa, a entrevista Luz do Mundo, conduzida pelo jornalista Peter Seewald – ultrapassou já em muito os 600 mil exemplares.
Nesta primeira fase, o livro será editado em sete línguas: alemão, italiano, inglês, espanhol, francês, português e polaco. O Vaticano libertou esta manhã três excertos da obra, que estão a ser publicados por vários meios de comunicação em todo o mundo – entre os quais o PÚBLICO.
Nos excertos agora divulgados, Joseph Ratzinger fala sobre a traição de Judas, o episódio que levou à prisão de Jesus, sobre a polémica da datação da Última Ceia de Cristo e sobre o interrogatório a que o governador romano, Pôncio Pilatos, submeteu Jesus antes de este ser condenado à morte.
É neste último capítulo que Ratzinger fala do genoma, a propósito da redenção do mundo trazida por Jesus. No mesmo capítulo, ele descarta a ideia de que tenham sido os judeus como povo a acusar Jesus – uma tese que levou ao ódio de séculos em relação aos seguidores do judaísmo. “O referido termo [os judeus] tem um significado específico e rigorosamente limitado: designa a aristocracia do templo”, escreve o teólogo alemão, que se tornou Papa em 2005, sucedendo a João Paulo II.
A propósito da pergunta “Que é a verdade?”, que Pilatos faz a Jesus, o Papa fala da questão da verdade nos estados contemporâneos: “A mesma pergunta é colocada também pela moderna doutrina do Estado: pode a política assumir a verdade como categoria para a sua estrutura? Ou deve deixar a verdade, enquanto dimensão inacessível, á subjectividade e, pelo contrário, esforçar-se por conseguir estabelecer a paz e a justiça com instrumentos disponíveis no âmbito do poder?”
Sem responder de forma assertiva à pergunta, Bento XVI deixa entender aquilo que tem defendido em outras ocasiões: os Estados não podem eximir-se do critério moral na regulação social. Quando conclui, no texto, que Pilatos preferiu a manutenção da paz social à justiça – ou seja, segurar eventuais revoltas condenando Jesus –, o Papa acrescenta: “O facto de, em última análise, a paz não poder ser estabelecida contra a verdade haveria de manifestar-se mais tarde.”
Tal como no volume precedente, o Papa entende que esta sua obra sobre Jesus não pretende ser mais uma biografia, género que já considera bem tratado por diversos exegetas bíblicos. Nem sequer quer fazer uma “cristologia”, um tratado teológico acerca de Cristo, defendia o Papa já a propósito do seu primeiro livro. O que Ratzinger/Bento XVI propõe é, antes, uma reflexão – que não deixa de ser feita por um dos mais importantes teólogos contemporâneos – sobre “a figura e a mensagem de Jesus”.
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segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011
O genocídio Vendeano (1793-1794) parte IV
Foram cometidas as piores atrocidades, relatadas pelos próprios revolucionários: em Ponts-de-Cé cortem a pele dos vendeanos para fazerem com ela fundilhos para calças de montar destinadas aos oficiais superiores. Em Angers, cortam as cabeças para as dissecar; em Herbiers, lançam as mulheres e as crianças, pertençam elas ao lado dos brancos ou ao dos azuis, para dentro de fornos; em Clisson, fazem derreter os corpos para lhes aproveitar a gordura para os hospitais e as carroças, etc.
Todo e qualquer sentimento magnânimo é proibido, como proclama Carrier: «Que não venham falar de humanidade em relação a estes ferozes vendeanos; serão todos exterminados; as medidas adoptadas garantem-nos um rápido regresso à tranquilidade nesta região; mas é preciso não deixar um único rebelde pois o seu arrependimento nunca será sincero.»
Lequinio exige que não se façam mais prisioneiros: «Se me é permitido dizê-lo», clama ela na Convenção, «desejaria que se adoptassem as mesmas medidas em todos exércitos; nesse caso, com os nossos inimigos usando de reciprocidade, seria impossível que doravante tivéssemos cobardes.» Se, por infelicidade, um militar republicano viesse a ser libertado, devia-se a si mesmo a obrigação de reparar essa «nódoa» e lançar a sua vingança sobre a população. Os 5000 azuis libertados por Bonchamps, agonizante, em 18 de Outubro de 1793, ao massacrarem as populações no seu caminho de regresso a Nantes, não cumpriram mais do que o seu dever de republicanos segundo a formulação oficial.
O genocídio foi acompanhado pela ruína da região: «Trata-se, para o ministro Barère, de varrer com o canhão o solo da Vendeia e de o purificar pelo fogo.» Se este genocídio, apesar das intenções e da programação , não foi levado até ao fim, deveu-se unicamente «à insuficiência dos meios.» Turreau refere-se a isto, aliás desesperado, «porque é para ele detestável ver que suspeitam do seu zelo e da sua opinião». De mais a mais, diz-se mal secundado.
Impõe-se fazer um balanço: a Vendeia militar, no conjunto de uma população estimada em 815 000 pessoas, perdeu, pelo menos, 117 000 membros, dos quais uma grande parte em resultado do sistema de despovoamento denunciado na época por Gracchus Bafeub, pai do comunismo, que aliás fala de populicídio. Seja como for, pelo menos 10 300 casass em Deux-Sèvres e de um terço da Vendeia. Seja como for, pelo menos 10 300 casas em 53 273, recenseadas unicamente nos departamentos do Loire-Inferior, de Deux-Sèvres e de um terço da Vendeia, foram destruídas. Certas zonas, por razões diversas, foram mais atingidas do que outras. foi assim que Bressuire perdeu 80 por cento das suas habitações; Cholet 40 por cento da sua população, etc.
Fonte: O Livro Negro da revolução Francesa DIR. Renaud Escande
quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011
O genocídio Vendeano (1793-1794) parte III
Nota: O Cristianismo foi a base no qual a civilização Europeia e Ocidental nasceu, no entanto hoje a Europa continua o seu percurso de auto-destruição, com algumas excepções..
Durante muito tempo, acreditou-se que estes afogamentos se limitavam unicamente à cidade de Nantes (23 pelo menos estão aí recenseados, um dos quais de pelo menos 1200 pessoas). De facto, não foi assim e encontramo-los um pouco por todo o lado: em Angers, Ponts-de-Cé, Pellerin, etc.
Conforme os casos, estes afogamentos são individuais, por casal ou em conjunto. Os afogamentos por casal, designados por «casamentos republicanos», divertiram e marcaram particularmente os organizadores e as testemunhas por motivos do seu carácter: trata-se de unir nus (o vestuário é confiscado e vendido pelos carrascos) em posições obscenas um homem e uma freira, etc., antes de os lançar à agua. Para os afogamentos em conjunto, o procedimento é mais longo: amontoam «o carregamento humano»numa galeota munida de escotilhas: uma vez ao largo, partem as pranchas em bocados a golpes de machado; a água esguicha por todos os lados e em poucos instantes o barco vai ao fundo e os prisioneiros morrem afogados: se assim não acontece, os sobreviventes são imediatamente passados a sabre, aí advindo a expressão de «sabrade» inventada por Grandmaison. A fim de dissimular os gritos, «os afogadores fingem cantar em altas vozes». Wailly, testemunha de um desses afogamentos, relata de maneira muito precisa o que viu : «Duas barcaças, carregadas de indivíduos, pararam num local denominado La prairie aux Ducs. Aí, eu e os meus camaradas presenciámos a carnificina mais horrível que alguma vez possa ser vista; mais de 800 indivíduos de todas as idades e de todos os sexos foram desumanamente afogados e cortados em bocados. Ouço Fourquet e os seus ajudantes repreender alguns de entre eles por não saberem dar golpes de sabre e mostravam-lhes com o seu exemplo como se devia proceder. As barcaças não iam ao fundo suficientemente depressa; disparavam tiros de espingarda sobre os que estavam por cima. Os gritos horríveis dessas desgraçadas vítimas ainda animavam mais os seus carrascos. Observei que todos os indivíduos que afogaram nessa noite foram previamente despojados, nus como a palma da mão. Em vão as mulheres imploravam que lhes deixassem as camisas; tudo lhes foi recusado e pereceram. As suas roupas, as suas jóias, os seus assignats constituíram a presa destes antropófagos e o que custa a acreditar é que aqueles que os tinham assim despojado vendiam na manhã do dia seguinte estes despojos a quem mais oferecesse.» São numerosos os testemunhos desta natureza, de que faz eco o advogado Tronson-Ducoudray, por ocasião do processo Carrier. Para além das meras alegações, compreende-se o que o homem viu e ouviu: «Vedes estas mulheres, estas desgraçadas mães precipitadas nas ondas com os seus filhos. A infância, a amável infância [--] tornada objecto da raiva mais inacreditável. Um crime, que os furores da guerra mal tornam credível, foi cometido em Nantes, armada para a pátria. Crianças de dez, de cinco, de dois anos, crianças de peito são massacradas ou afogadas. Vejo estes desgraçados estendendo os braços inocentes para os seus carrascos, sorrindo ao colo de quem lhes pega e de que um braço feroz os arranca. Vejo-os debaterem-se ante os gritos das suas mães que chamam ainda por eles [..]. Vejo o rio trazer para as margens uma mulher segurando ainda ao peito o filho morto, uma rapariga abraçada a sua mãe [..]. Passo pela praça em que se encontra o instrumento de suplício. Vejo um jovem de 13 anos sobre o cadafalso; diz ao executor esta expressão lancinante: "Vais-me fazer doer muito?" Está amarrado à prancha cuja proporção indica a estes bárbaros que a justiça não amarra ali crianças. O seu corpo mal chega à linha correspondente à direcção do cutelo.. Em outros lados [..] são homens, mulheres ou crianças que fuzilam ou despedaçam a golpes de sabre e de baionetes..»
Os convencionais, com uma preocupação de economia (uma embarcação afundada custa 200 libras) tentaram a asfixia a partir de barcos hermeticamente fechados. Este meio, entretanto, deixou de ser utilizado em resultado de uma queixa à municipalidade: «O estertor dos moribundos incomoda os moradores...»
Segue-se, logicamente, a terceira fase. O fracasso é notório pela falta de um plano conjunto. A convenção pede a Turreau, general-em-chefe do exército do Oeste, de o conceber, o que ele fez em termos muito precisos. Para levar a bom porto a sua missão, apoia-se em 3 estruturas: as colunas infernais, ou «retaguardas de Robespierre», que se põem a caminho em 21 de Janeiro de 1794, a flotilha no Loire e a Comissão de Subsistência. Prudente solicita o aval do Comité de Salvação Pública que lhe é concedido em 8 de Fevereiro por intermédio de Carnot: «Queixas-te, cidadão general, de não teres recebido do Comité uma aprovação formal para as tuas medidas. Elas parecem-lhe boas e puras mas, afastado do teatro de operações, aguarda os resultados para se pronunciar: extermina os bandidos até ao último, eis o teu dever...» Turreau fica tranquilizado, tanto mais que já tinha dado as suas orientações, em 17 de Janeiro, quatro dias antes de pôr em marcha as suas tropas: «Camaradas, entramos num país insurrecto. Dou-vos ordem de pegar fogo a tudo o que seja susceptível de ser queimado e de passar a fio de baioneta todos os habitantes que encontrardes. Sei que devem existir alguns patriotas nesta região, tanto faz, devemos sacrificá-los todos.» Em 24 de Janeiro, ou seja, três dias depois do começo dos «passeios», relembra as instruções e a finalidade da operação: «Se as minhas intenções forem bem secundadas, dentro de quinze dias deixarão de existir na Vendeia casas, alimentos, armas e habitantes. É preciso que o que haja de madeira, de floresta na Vendeia seja abatido..»
Toda a ordem dada subentende relatórios e os generais e outros responsáveis encarregados das operações, como bons militares, desempenham-se escrupulosamente da missão. Estes relatórios, redigidos em duas vias, segundo a vontade dos políticos que desconfiam dos militares, encontram-se presentemente depositados, entre outros locais, nos arquivos militares do forte deVincennes. o relatório do general Caffin, de 27 de Janeiro, resume-os: «Eu tinha ordenado que passassem a fio de baioneta todos os celerados que pudessem encontrar e que queimassem as granjas e as aldeias vizinhas de Jallais; as minhas ordens foram pontualmente executadas e, neste momento 40 granjas iluminam o campos..» Do lado dos vendeanos, as descrições feitas revelam a atrocidade da situação, como foi a de Peigné, de Saint-Julien-de-Concelles: «Mulheres grávidos eram estendidas e esmagadas debaixo de prensas de lagares. Uma pobre mulher, que se encontrava nesta situação, foi esventrada viva em Bois-Chapelet, próximo de Maillon. Um homem, de nome Jean lainé, de La Croix-de-Beauchêne, foi queimado vivo no seu leito, onde estava retido por doença [..] . membros sangrentos e crianças de peito eram levados em triunfo na ponta de baionetas. Uma jovem de La Chapelle foi apanhada pelos carrascos que, depois de a terem violado, a penduraram num carvalho. Cada uma das pernas foi atada separadamente a um ramo e afastada o mais possível uma da outra. Foi nesta posição que a fenderam de alto a baixo com o sabre, até à cabeça, e a dividiram em dois...» Os registos clandestinos, como os do reitor Pierre-Marie Robin, pároco de la Chapelle-Basse-Mer, nas suas frias descrições, fazem-se eco de «esta carnificina», expressão empregada por Napoleão, referindo-se à Vendeia.
Fonte: O Livro Negro da revolução Francesa DIR. Renaud Escande
segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011
O genocídio Vendeano (1793-1794) parte II
Até finais de Dezembro de 1793, estas decisões não passaram de teoria: as tropas republicanas não controlam o território insurrecto. A partir de Davenay, a situação é diferente e a Convenção decide passar à acção e dotar-se com os meios adequados. Desde então, a missão terrorista passa antes de qualquer coisa.
Carrier nega a si mesmo o menor sentimento magnânimo: «Que não nos venham pois falar de humanismo para com os ferozes vendeanos, serão todos exterminados; as medidas adoptadas asseguram-nos um imediato regresso à tranquilidade neste país; mas é preciso não deixar um único rebelde, porque o seu arrependimento nunca será sincero...» Lequinio exige mesmo que não se faça mais prisioneiros:«A raça é maldita.» Alguns departamentos, embora afastados do quadro da Vendeia militar, tomam medidas similares. É caso do Eure: «Deixá-los escapar», escreve o representante do povo, em 20 Pluvioso, ano II, «seria partilhar o crime da sua existência». É necessário, então passar da teoria à prática: o problema não é de fácil tratamento porque importa eliminar 815 000 habitantes que, além do mais são «tão maus republicanos» que se recusam a submeter-se, e aniquilar um território de 10 000km2 de difícil acesso.
Deve-se distinguir 3 grandes fases.
A primeira corresponde a uma fase científica. A ideia é simples, embora difícil de concretizar por razões técnicas: trata-se, em conformidade com os desejos e as leis da Convenção e do Comité de Salvação Pública, de aplicar meios de eliminação em grande escala dos mais eficazes de que se disponha. Para o fazer, solicita-se os serviços de um dos maiores químicos da época Antoine Fourcroy, que não irá ser capaz de encontrar solução. Um farmacêutico de Angers, físico de profissão alquimista, de nome Proust, propõe a arma química que consistira em «um fermento próprio para tornar mortal o ar de um região inteira». Inventa, portanto, «uma esfera de couto cheia de um composto cujo vapor libertado pelo fogo devia asfixiar numa grande distância em redor qualquer ser vivo». O ensaio com carneiros em Ponts-de-Cé, na presença de deputados, não surtiu efeito «e ninguém se sentiu incomodado».
Outros, como o general Santerre, propõem o recurso às minas: «Minas, minas à força!... Emanações soporíficas! E depois cair-lhes em cima...» Carrier submete à consideração a utilização do veneno: « o que fazeis», explica ele em 9 de Novembro de 1793, «é belo, sem dúvida, mas onde é que isto irá levar a nação? Talvez a uma vitória? Que fazem ao povo as vossas vitórias que não acabam com nada? É imperioso utilizar os meios extremos. Vós libertastes o país de uma chaga que o devora. O veneno é mais seguro que toda a vossa artilharia. Não receeis, pois, pô-lo em prática. Fazei envenenar as nascentes de água. Envenenai o pão que abandonareis à verocidade deste miserável exército de bandidos, e deixai que faça efeito. Tendes espiões entre esses soldados do Papa que uma criança conduz. Deixai-os com este presente e a pátria ficará salva. Vós matais os soldados de la Rochejaquelein a golpes de baioneta, matai-os a golpes de arsénico, isso é menos dispendioso e mais cómodo. Desvendo-vos este conselho ao qual já fiz aderir a minha sociedade popular e com sans-culottes como vós nada mais preciso de dizer.»
Estes projectos de envergadura, apesar de um começo de execução, são abandonados, por se revelarem inseguros, e substituídos por medidas empíricas pontuais como a guilhotina, alcunhada de «a navalha de barba nacional», «o moinho do silêncio» ou «a santa mãe», a bala, a baioneta, o sabre e acoronha das espingardas. Todavia, confessado pelos próprios republicanos, o conjunto destes meios é excessivamente lento, portanto ineficaz e, sobretudo, demasiado dispendioso; o carresco encarregado da guilhotina recebe 59 libras (50 libras para ele, 9 libras para o transportador) por cada cabeça cortada; as balas são raras e sobretudo destinadas ao esforço de guerra ligado à conquista exterior; as baionetas e os sabres quebram-se com demasiada facilidade sob os choques repetidos e as coronhas de que se servem como se fosse uma maça para fazer rebentar os crânios dos vendeanos alinhados em «rosário» não são suficientemente sólidas. E, mais ainda, os carrascos-soldados, insuficientemente aguerridos, tornam-se rapidamente ineficazes porque se revelam «demasiado sensíveis». Quanto ao problema financeiro, parte-se do princípio que o executado deve pagar a sua execução e, à falta disso, pagarão as comunas revoltadas e os departamentos, tudo completado pela venda em leilão das roupas, dos dentes, dos cabelos, etc, dos condenados. Racionalizar-se-á e globalizar-se-á o sistema pela Comissão de Subsistência, comissão dirigida pelo inspector-geral Jean-Baptiste Beaudesson, encarrega da pilhagem da Vendeia.
As cidades, grandes e médias, são transformadas em centros de extermínio através, entre outros métodos, das «antecâmaras da morte» e dos afogamentos. «As antecâmaras da morte», expressão de Carrier, são compostas por prisões, como a de Bouffay em Nantes, campos a céu aberto, sobretudo os campos das ilhas do Loire, e barco-prisões de Angers, de Ponts-de-Cé, nantes, etc. Estes lugares eram concebidos como outros tantos «mouroirs», segundo a expressão de moda em Nantes. Esperavam que os prisioneiros amontoados uns em cima dos outros fossem morrendo naturalmente, vencidos pela doença, ou então matando-se uns aos outros. na realidade, os resultados revelam-se desapontadores, pois «esses cães não rebentam tão depressa quanto seria de esperar»: verifica-se então ser necessário acelerar o processo e daí o recurso aos meios usuais, ou seja, à guilhotina, aos «fuzilamentos» em massa e aos afogamentos, fontes de grandes e alegres festividades e de banquetes nesses mesmo locais.
Fonte: O Livro Negro da revolução Francesa DIR. Renaud Escande
sábado, 5 de fevereiro de 2011
O genocídio Vendeano (1793-1794) parte I
Um pequeno resumo sobre o destino dos que se levantaram contra a Revolução Francesa.
-A Gerra Civil propriamente dita, que vai de Março de 1793 a dezembro do mesmo ano e que termina com a derrota de Savenay: é uma guerra civil, certamente atroz, mas guerra civil antes demais;
-A enunciação, a concepção, a planificação e a realização de um sistema de aniquilamento e de despovoamento, de um «poppulicídio» como lhe chama os revolucionários, da Vendeia e dos Vendeanos, que nós, contemporâneos, assimilamos a um genocídio segundo a definição de Nuremberg, que começa em Abril de 1793 e termina com a queda de Robespieerre.
O advogado Villenave, a 15 de Dezembro de 1794, por ocasião do processo Carrier, testemunha em termos muito precisos sobre o contexto: «Depois das batalhas de Mans e de Savenay, a Vendeia foi aniquilada. Não restavam senão alguns pelotões rebeldes que Charettem Stoffflet e la Rochejaquelein se esforçavam por engrossar. As comunas entravam de novo na ordem. iriam ficar inteiramente submetidas: apenas a clemência , a brandura, a amnistia podiam fazer regressar a paz a estas infelizes regiões...»
Mas a convenção decidiu de modo diferente, Hentz e Francastel, comissários da Rpública, explicam-se a este respeito no quadro de um longo relatório de 38 páginas redigidas para a Convenção no Vindemiário, ano II: A ideia de uma amnistia era odiosa e a dignidade nacional rejeitava-a [...] apesar de a guerra da Vendeia estar politicamente terminada» daí o «sistema», prosseguiam eles, «proposto pela Convenção de que não haveria outro meio de fazer regressar a calma a esta região senão fazer sair dela todos os que não eram culpados e obstinados, exterminando o resto e repovoando-o o mais rapidamente possível com republicanos que defenderiam os seus lares...»
A ideia de exterminar a população vendeana é formulada pela primeira vez em 4 de Abril de 1793 por alguns políticos e oficiais superiores... No dia 1 de Agosto, a Convenção vota a destruição da Vendeia: florestas, bosques, matas devem ser abatidos, o gado apreendido, as habitações confiscadas, as colheitas apanhadas. Segue-se, no dia 1 de Outubro do mesmo ano, a lei de exterminação: « Soldados da liberdade, é preciso que os bandidos da Vendeia sejam exterminados antes do fim do mês de Outubro: a salvação da pátria assim o exige; a impaciência do povo francês o ordena; a sua coragem deve pô-lo em prática. O reconhecimento nacional aguarda nesta altura todos aqueles cujo valor e patriotismo terão consolidado para sempre a liberdade e a república.» .. «A Vendeia», exclama Turreau, general-em-chefe do Exército do Oeste, deve ser um cemitério nacional..» Os relatórios políticos e militares são de uma precisão eloquente; é necessário prioritariamente eliminara as mulheres «sulcos reprodutores» e as crianças «porque virão a ser elas os futuros bandidos». Desaparece igualmente o risco das represálias e da vingança. Criam mesmo campos de extermínio que lhes são reservados, como em Noirmoutier. Em Bourgneuf e Nantes, organizam afogamentos especiais para as crianças.
Os Vendeanos não devem mais reproduzir-se, daí o recurso a um simbolismo macabro que consiste em cortar sexos masculinos para fazer deles, entre outras coisas, brincos ou para os pendurar à cintura como outros tantos troféus, ou ainda fazer explodir cartuchos no aparelho genital das mulheres. Ai daquele que proteja «esses lobas e esse lobachos.» O carrasco Lamberty sofrerá por causa disso a terrível experiência: «Por ter roubado alguns ao afogamento», é preso e condenado à morte. É certo que algumas crianças são «confiscadas» por habitantes de Nantes, mas não podem conservá-las consigo, a não ser que prometam garantir a sua «regeneração.» A questão dos Vendeanos azuis é repetidamente abordad. Não há dúvida, são republicanos e provaram-nos, mas são também Vendeanos, o que por si só constitui o maior dos crimes. Decide-se, portanto, eliminá-los também: «A morte de um patriota é pouca coisa quando se trata da salvação pública», explica o general Grignon. Carrir é definitvo: «Aliás», pontifica ele, não pode haver mais vendeanos. Posso afirmar-vos que não ficou um único patriota na Vendeia. Todos os habitantes desta região tomaram parte mais ou menos activa nesta guerra.» Os representantes Hentz, Garreau e Francastel são também categóricos: «Todos os habitantes agora residentes na Vendeia são rebeldes, todos encarniçados [...]. Chegados a este ponto, a guerra não poderá estar completamente terminada senão quando já não existir um só habitante na Vendeia.» Esta vontade declarada de extermínio total deixa estupefactos os republicanos que não estão ao corrente das ordens emitidas. Alguns deles, como o maire de Fontenay-le-Comte, Mariteau, manifestam por escrito a sua surpresa e indignação perante esta violência: «Em 12 [Nivoso ano II] o horror do cenário aumenta, o general Amey parte com a sua coluna e incendeia todas as granjas desde La Rochelle até Herbiers. Numa distância de 3 léguas, nada foi poupado. OS homens, as mulheres, mesmo as crianças de peito, as mulheres grávidas, todos pereceram às mãos da sua coluna. Em vão alguns infelizes patriotas, com os certificados de civismo na mão, intercederam pelas suas vidas a esses possessos; não foram escutados; degolaram-nos. Para acabar de descrever as perversidades deste dia, é necessário dizer que os fenos foram queimados nas granjas, os cereais nos celeiros, os animais nos estábulos e, quando alguns desgraçados agricultore, bem conhecidos pelo seu civismo, tiveram a infelicidade de serem encontrados a desamarrar os seus bois, não foi preciso mais nada para serem fuzilados....
Em 7 de Novembro, a Convenção, por ocasião de uma sessão solene, vai ainda mais longe e risca do mapa da França a Vendeia para passar a designá-la por departamento «Vengé». O seu raciocínio é lógico: como um homem não pode revoltar-se contra a República, o vendeano não pode, pois, ser considerado como tal e visto que os não-homens não podem possuir bens, portanto um território, este território não pode continuar a ter nome: por conseguinte é «desbaptizada». Como é necessário regenerar esta terra, entre outras medidas com o repovoamento com bons republicanos, dá-se-lhe um novo nome: o departamento «Vengé».
Fonte: O Livro Negro da revolução Francesa DIR. Renaud Escande
domingo, 30 de janeiro de 2011
Regicídio de Luís XVI
A Revolução Francesa renovou a perseguição cristã no Ocidente, no qual a última remontava para o tempo do Império Romano. De facto o livro no qual retirei o texto que se segue, e no qual ainda postarei outros, revela uma face negra de uma revolução que saiu limpa da história, o memorícidio termo que o autor usa e defende como crime contra a humanidade, descreve factos que são poucos conhecidos da dita revolução, e estão em origem directa com os genocídios que seriam cometidos pelos totalitarismo do século XX, em Auschwitz ou o Holodomor, também pouco conhecido.
O texto que segue fala do significado da monarquia Francesa e o regicídio.
O regicídio revolucionário não se reduz à exclusiva morte de um homem, mas ataca também a família, a família real, e, através deles, um regime, a monarquia de direito divino, um tipo de sociedade, a França Católica e monárquica do século XVIII, uma civilização, a civilização cristã de estilo Constantino e, em última análise, um princípio, a realeza sacerdotal de Cristo como pedra angular do edifício social e religioso do Ancien Régime. ... Donde procede, pois o regicídio? É necessário notar que a dinâmica não poderá reduzir-se a causas puramente materiais, socio-lógicas ou económicas. De facto, as condição de vida na França de 1789 são melhores que no passado, e quase idênticas às dos franceses sob a Restauração. Se aqui e acolá há crises e fome, elas por si sós não podem motivar mais do que revoltas, mas não revoluções - de tal modo o regime nessa época é sentido como legítimo. Conclui-se daí que é necessária uma dimensão espiritual e ideológica para catalizar o descontentamento e as ambições insatisfeitas e empurrar para uma mudança de regime e de civilização que, à partida não é desejada por ninguém. Pode-se assim opor, como o fizeram numerosos autores por exemplo Michelet, o espírito da Revolução ao espírito do Cristianismo, que se combatem numa nova guerra de religião - o espírito da Revolução, mantendo-se apesar das aparências tão religioso quanto o espírito do Cristianismo.. Neste contexto, a morte de Luís XVI já não aparece como um acontecimento histórico isolado, mas como um fenómeno emblemático da oposição de dois espíritos: um homem encarnando um determinado princípio é condenado e morto a fim de que este princípio não possa mais influenciar o desenrolar das questões humanas. É este princípio que importa agora descrever.
Na teologia política cristã tradicional, datando da época de constantiniana, qualquer soberania e qualquer legitimidade política vêm de Deus, e mais precisamente de Jesus Cristo, ao mesmo tempo rei e sacerdote, rei enquanto representando o seu povo junto do Pai, e sacerdote enquanto ofertando ao Pai o sei sacrifício perfeito, porque divino, em reparação dos pecados da humanidade decaída. Ora, os cristãos, pelo sacramento do baptismo, graças ao qual eles se «revestem» de Cristo (Gal 3,29), participam assim da realeza sacerdotal de Cristo; passa-se o mesmo, de maneira plena, com os sacerdotes e os bispos, por efeito de um sacramento especial, mas também com o reis e, muito particularmente, com o rei de França, que beneficiava, desde a sagração de Clóvis em Reims, de um unção que lembrava a dos antigos reis de Israel e fazia da França a filha primogénita da Igreja. Esta função fazia o rei o representante de Cristo sobre a Terra, pelo menos no que concernia aos assuntos temporais. Nesta qualidade, o rei era teoricamente independente em relação às leis, em virtude da máxima de Ulpiano: princeps legibus solutus est; mas mantinha-se ao mesmo tempo ligado às leis e aos costumes do reino, que a tradição jurídica designava por «constituição francesa», assim como à lei natural. A contradição era geralmente resolvida lembrando o exemplo de submissão voluntária de Cristo à lei, e fazendo do rei (ou do imperador) uma «lei viva» (lex animata). Além disso a monarquia francesa tinha igualmente a obrigação de respeitar costumes e privilégios..
Fazendo eco à cristologia Paulina, onde Cristo é o esposo e a cabeça da Igreja, a teologia e o direito consideravam o rei como o esposo da nação, o marido da República, já que esta era tradicionalmente simbolizada por uma figura feminina. Esta relação esponsal, concebida juridicamente como um contrato sinalagmático, impunha ao rei e à nação um determinado número de obrigações. De um modo mais geral, a relação entre o rei e os seus vassalos era concebida sobre um modelo familiar que o próprio Luís XVI reclamava para si mesmo, afirmando que «tudo o que o pai deve ao seus filhos, o irmão aos seus irmãos, o amigo ao seu amigo, o príncipe deve-o aos seus vassalos»; ou ainda: «o Rei, o pastor, o pai, é uma só e mesma coisa.» O rei devia-se aos seus vassalos e os vassalos deviam-se ao rei. Luís XVI escrevi assim: «Como nada os [meus povos] pode dispensar, quando eu for injusto ou tirano, de me serem submissos, se por seu lado todos eles violassem os seus deveres para comigo, nada me poderia subtrair à obrigação de cumprir os meus para com eles». Para o rei, isso podia ir precisamente até ao sacríficio. Assim, como escreveu um jurista da Idade Média, Aeneas Silvius:«O próprio príncipe, cabeça do corpo místico da respublica, é obrigado a sacrificar a sua vida cada vez que o bem comum o exige.» Do mesmo modo, Luís XVI, ás delegações dos guardas nacionais, em 13 de Julho de 1790, falando dos franceses:«Dizei-lhes que, se não posso deslocar-me convosco aos seus asilos, quero aí estar pela minha afeição e pelas leis protectoras do fraco velar por eles, viver para eles, morrer, se for preciso, por eles.» Luís XVI era, aliás dotado de um carácter profundamente bom, que infelizmente foi assemelhado à fraqueza; esse carácter tinha chamado especialmente a atenção de Benjamin Franklin quando conviveu com ele: «nenhum soberano que algum dia reinou teve, inegavelmente, mais bondade no seu coração nem possuiu em maior grau o leite da ternura humana que Luís XVI.» Esta qualidade parece de resto ter sido o apanágio da sua linhagem, pois lemos numa carta de John Adams a Thomas Jefferson em 1814: «O leite da ternura humana dos Bourbons confere mais segurança à humanidade do que a ambição desmedida de Napoleão.»
De uma maneira geral, o rei de França era a pedra angular de toda a ordem jurídica e social; era também obrigado, pela sua sagração, a ser o protector da Igreja. neste contexto, o regicídio - no sentido da destruição do princípio real - visava destruir o ele entre o rei e a república, e, por conseguinte entre Cristo - ou Igreja - e a França e, consequentemente, destruir toda uma civilização que a pouco e pouco desabrochara e se tinha expandido na Europa ocidental, até mesmo o próprio cristianismo. É, evidentemente, ao espírito da Revolução que se deve imputar o regicídio- Este espírito consiste numa visão do mundo profundamente secularizada, colocando como fundamento da soberania a natureza, em vez de uma divindade revelada. Ele inclui as Luzes newtonianas, mistura curiosa de cientismo e de esoterismo que se encontra na franco-maçonaria, as luzes francesas, que não são senão uma adaptação superficial destas últimas ao grande público francês, enxertando-as no jusnaturalismo descristianizado da oposição parlamentar da oposição parlamentar, prevalecente à época nos meios intelectuais.
Fonte: O Livro Negro da revolução Francesa DIR. Renaud Escande
sexta-feira, 28 de janeiro de 2011
O Jacobismo entre a Liberdade e a Igualdade
A história da revolução cedeu sob o peso da sua própria história e o historiador «deve anunciar as suas cores». A análise liberal não foi retomada senão contra a análise social. Devemos nós ter de escolher entre liberdade e igualdade, entre Estado e sociedade: a confusão igualitária que se fundamenta sobre o paradoxo de uma dissolução da sociedade através da sua abstracção estadística (dentro do Estado) e a sua inscrição partidária (dentro dos partidos políticos); e a confusao liberal que se fundamenta sobre o paradoxo utilitarista de uma dissolução do estado através da particularização dos interesses sociais e a sua inscrição corporativista (com a produção de novos corpos intermediários privilegiados). Este duplo paradoxo, esta dupla confusão, constitui a mesma matriz jacobina de uma quantidade de tendências. Estrutura a sociedade em sindicatos e partidos e o debate público em programa e em reivindicação, em promessas e decepções. O jacobinismo é o mesmo plano de imanência que se constitui, portanto, em pluralismo ilusório. Aqueles que se defrontam ou debatem são as espécies de um mesmo género de jacobino fundado sobre a dissolução da diferença Estado-sociedade na inversão do conceito político na passagem do Bem comum (que é um fim) ao interesse geral (que é um meio), na instrumentalização do político pelo ideológico.
A revolução «jacobina» foi o mito de uma igualdade que se acreditou que, por meio da virtude generalizada, produziria a liberdade e sociedade e, ao querer uma realidade que as produziria a todas (as liberdades individuais e colectivas), ela celebrou o seu divórcio. O Comunismo considera que a felicidade social legitima uma tirania «de transição» e acaba por preferir a sua tirania à própria felicidade que se acredita que ela edifique; o liberalismo, pelo contrário, julga que a felicidade é mediatizada por uma liberdade de indiferença e também ele acaba por preferir o meio ao fim. Poderíamos dispensar um e outro, de costas uma para o outro, quando afinal eles só estiveram na história contemporânea face a face, e foi mesmo este face a face cínico que determinou os dois séculos que nos precedem. A Revolução estabeleceu as referências desta oposição que é a sua polaridade, o seu movimento dialéctico, a sua coincidentia oppositorum.
A liberdade do liberal é totalmente psicológica , não é historicamente mais do que uma vontade de poder e a sua desregulação esconde de facto a supressão de um direito protector dos mais fracos, é a sobrevivência de uma oligarquia adaptada ao jargão democrático. A sociedade comunista não é mais concreta, uma vez que ela se resume historicamente à instalação de um sistema carcerário generalizado. Entre a prisão e o direito do mais forte , o contemporâneo é esmagado: a tirania ou a oligarquia, ainda que ambas revestidas com o nome de democracia que elas conjuntamente reivindicam (liberal ou popular), são perigosíssimas regressões políticas, como se o homem, seguro da sua longa experiência, não tivesse sabido produzir mais do que regimes, certamente sofisticados quanto ao funcionamento, mas terrivelmente primitivos quanto ao principio.
Fonte: O Livro Negro da revolução Francesa DIR. Renaud Escande
segunda-feira, 24 de janeiro de 2011
Os cortesão são cegos
Por João César das Neves
Vivemos numa sociedade oficialmente livre-pensadora, sem tabus, preconceitos ou dogmas. Estão criadas as condições para os tabus mais acéfalos, preconceitos mais avassaladores, dogmas mais totalitários, por não existir sequer a disposição para reconhecer essa possibilidade.
Um dos contos mais geniais da literatura revela onde pode chegar a cegueira ideológica. Publicado na colectânea medieval espanhola 'El Conde de Lucanor de 1335 (Enxemplo XXXII - de lo que contesció a un Rey con los burladores que ficieron el paño)', foi vulgarizado por Hans Christian Andersen como 'As Roupas Novas do Imperador (Kejserens nye Klæder)' em 1837. Os cortesãos, a quem foi dito que o tecido do traje do imperador é invisível a quem não é filho de seu pai, estão dispostos a exaltar a beleza das vestes, sem conseguirem admitir que o rei vai nu. Sintomaticamente, na versão de Andersen, quem não vê as roupas é estúpido ou incompetente, mas na Idade Média interessava mais a família que a competência.
Não faltam exemplos desta cegueira. Há anos assistiu-se à derrocada do glorioso paraíso colectivista da União Soviética que tantos louvaram acefalamente durante décadas. Antes desfizera-se o mito da supremacia da raça ariana. Mas a sociedade sem tabus tinha de ter uma obsessão ainda mais infantil. O nosso dogma é a equivalência entre os estilos de vida.
Todas as civilizações e culturas sempre souberam que a família, onde as gerações se unem e sucedem, amando-se, educando-se, sustentando-se, perdoando-se, constitui a base da sociedade. Sempre houve alternativas, avaliadas de forma diferente nas várias culturas, mas nenhuma as viu como semelhantes à célula vital. A cultura ocidental contemporânea é a primeira que tenta negar a evidência.
Começa logo por não ser possível sequer falar de família. Agora é "família tradicional", porque alegadamente há várias. E aqui o adjectivo é pejorativo. Depois um portentoso aparato mediático, filmes, televisão, revistas, livros, jornais, lança-se numa campanha de propaganda massiva a favor das alternativas, adultério, divórcio, promiscuidade, concubinato, perversão, deboche, etc. É tudo excelente.
A origem desta tese aberrante é compreensível. As gerações anteriores, defendendo ferozmente a família, costumavam desprezar quem vivia nessas alternativas. Isso é inaceitável, porque todos devem ser respeitados, qualquer que seja a sua opção. Mas uma coisa é respeitar as pessoas, outra é respeitar as opções. Aí surgiu o erro que gerou o actual tabu. Todos respeitamos e cuidamos dos doentes, mas ninguém acha que a doença é igual à saúde. Aliás, precisamente por estarem a sofrer, os doentes são ainda mais acarinhados que os demais, por viverem pior. As disfunções familiares são doenças sociais. Sem desprezar ou censurar os que as sofrem, deveriam ser acudidos e respeitados, trazendo-os à condição saudável.
Em vez disso assistimos a um delírio de argumentação que, partindo de um conceito distorcido de autonomia pessoal, exalta aquilo que traz infelicidade, miséria, desgraça. Porque, vale a pena lembrar, até em termos agregados são já visíveis os resultados desta atitude. Todos reconhecem que, naturalmente, a sociedade ocidental se encontra em decadência demográfica, política, social e moral. Porque defender a família é considerado conservador, e o contrário de conservador é destruidor.
Apesar disso as luminárias contemporâneas estão dispostos aos maiores malabarismos para sustentar o axioma de equivalência contra qualquer evidência. Trata--se de um tabu absoluto e indiscutível: cada um vive como quer e ninguém tem nada com isso. Hoje, discute-se e critica-se tudo, a todos os níveis, menos aquilo que na nossa vida é mais influente sobre todos.
Quando surgem as tragédias, inevitáveis em estilos de vida desviantes, aparecem logo alcateias de comentadores para assegurar que o sucedido nada tem a ver com a perversão ou a opção de género, porque coisas dessas acontecem em todo o lado. Como os cortesãos de Andersen, nem se dão conta do seu ridículo.
naohaalmocosgratis@fcee.ucp.pt
sábado, 8 de janeiro de 2011
Oração para cada dia
Concede-me, Deus misericordioso, que deseje com ardor o que aprovas, o procure com prudência, o reconheça na verdade, o realize na perfeição, para louvor e glória do teu nome.
Põe ordem na minha vida e que eu faça o que queres; concede-me que o conheça e o realize como é preciso e como é útil para a salvação da minha alma.
Que eu vá em direcção a Ti, Senhor, por um caminho seguro, direito, agradável que me leve até ao fim; que eu não me desvie entre as prosperidades e as adversidades, de modo que te dê graças nas coisas prósperas e que, nas adversas, eu seja paciente, não me deixando envaidecer com as primeiras, nem abater com as segundas.
Que nada me alegre, nem me entristeça, fora do que me conduz a Ti ou me afaste de Ti. Que eu não tema agradar ou desagradar a ninguém, a não ser a Ti. Que tudo o que passa se torne vil aos meus olhos por causa de Ti, Senhor, e que tudo o que a Ti se refira me seja querido, mas Tu, meu Deus, mais que tudo o resto.
Que, sem Ti, toda a alegria me canse e fora de Ti nada deseje. Que todo o trabalho, Senhor, me seja agradável se for para Ti e todo o repouso, insuportável sem Ti. Concede-me que, frequentemente, dirija o meu coração para Ti e, quando fraquejar, eu me arrependa da minha falta com dor, com um firme propósito de me corrigir.
Torna-me, Senhor meu Deus, obediente sem contradição, pobre sem defecção, casto sem corrupção, paciente sem protesto, humilde sem fingimento, alegre sem dissipação, contido sem rigidez, activo sem leviandade, animado pelo teu temor sem desencorajamento, sincero sem duplicidade, fazedor do bem sem presunção, abeirando-me do próximo sem altivez, edificando-o com a palavra e o exemplo sem falsas aparências.
Dá-me, Senhor Deus, um coração vigilante, que nenhum pensamento leviano arraste para longe de Ti; um coração nobre que nenhuma intenção equívoca desvie; um coração firme que nenhuma adversidade quebre; um coração livre que nenhuma paixão violenta subjugue.
Concede-me, Senhor meu Deus, uma inteligência que te conheça, uma solicitude que te procure, uma sabedoria que te encontre, uma vida que te agrade, uma perseverança que te espere com confiança e uma confiança que, por fim, te possua. Concede-me que seja afligido com as tuas penas pela penitência, que nesta caminhada use as tuas benemerências pela graça, que goze as tuas alegrias, sobretudo na pátria [celeste], pela glória. Tu que, sendo Deus, vives e reinas pelos séculos dos séculos. Ámen.
segunda-feira, 20 de dezembro de 2010
Mensagem de Natal
Eu nestes últimos dias tenho tido pouco tempo para actualizar o blog por terem sido as ultimas semanas do semestre, e isso significa muitos trabalhos para entregar, no entanto a carga de trabalho só aparentemente acabou, porque o mês de Janeiro significa exames, e por isso muito tempo dedicado aos estudos e pouco para outras coisas, como é o caso de Blog!
Estou a escrever isto as 23 horas de Domingo dia 19 de Dezembro e a luz da minha casa acabou de ir abaixo, parece ser alguma coisas séria porque o quadro dá faísca sempre que tentámos ligá-lo, mas tive a sorte do portátil estar com a bateria inserida que o faz ser a única máquina eléctrica ligada em casa, excepto os telemóveis que me lembrei agora!
Voltando ao motivo da minha postagem, e ainda que tudo há minha volta permaneça escuro, queria simplesmente alumiar anunciando ou melhor relembrando que Cristo nasceu no próximo dia 25 de Dezembro e sendo Filho de Deus nasceu numa fria gruta fora de Belém, e por isso é dever de todos Católicos de prepararem um lugar confortável para que o menino Jesus possa nascer e repousar, devem ter pronto um lugar com amor, quente e aconchegado mas principalmente de silêncio para que possamos melhor acolher na nossa alma o sono do menino Jesus..
Talvez o Rei da Paz não se incomode com um pouco de dureza ou frio que os nosso corações possam ter, não foi ele que aceitou nascer numa gruta no Inverno? Ou como uma ovelha pôs ajeito a sua cabeça, sacrificada pelo bem do povo? Sim, o filho do Homem abandonou toda a sua glória para estar connosco, o Deus de Amor visitou o seu Povo e a sua presença aqueceu a noite fria de Belém e foi aquecendo todas as outras noites de Natal desde então no qual o frio invernal, mais aperta e a noite é mais morosa!
Como o tempo é curto, quando a luz voltar a minha casa postarei esta mensagem que agora escrevo, sem muitas delongas. Por isso há luz da vela quero desejar a todos que passarem nesta página um Feliz Natal e um próspero Ano Novo!
quarta-feira, 8 de dezembro de 2010
Imaculada Conceição - Padroeira de Portugal
Autor - Carlos Nogueira
Sabe-se que foi com o Rei D. João IV, da Ilustre Casa de Bragança, que foi instituído o estatuto de real religiosidade,de ser considerada Nossa Senhora da Conceição, como Padroeira de Portugal. Frei João de S. Bernardo recordou no acto da coroação do Rei, que já D. João I construíra o Mosteiro da Batalha e D. Nuno Álvares Pereira erigira o Convento do Carmo e os Infantes D. Fernando e D. Beatriz fundaram em Beja , o Mosteiro da Conceição, com o voto sublime de invocação à Virgem Santíssima, Nª Sª da Conceição. E em Alenquer ?. Lembramos para já e por agora a Igreja de Nª Sª da Conceição em Pereiro de Palhacana. E mais à frente faremos alusão ao excelente trabalho de autoria do Senhor António Quintino, sobre as Festas em honra de Nossa Senhora da Conceição, naquela localidade, publicado no jornal Nova Verdade, na edição de 30 de Novembro de 2001(página 23).
O Rei D. João IV, não esqueceu a exortação de Frei João de S. Bernardino, e nas cortes de 28 de Dezembro de 1645, conduziu os três Estados do Reino, a elegerem Nª Sª da Conceição, por defensora e protectora de Portugal e seus territórios. Aliás, o Rei intitulava-se não só soberano de Portugal, mas também Senhor da Guiné e da Conquista , Navegação e Comércio da Etiópia, Arábia, Pérsia e Índia.
A deliberação solene de tomar Nª Sª da Conceição como Padroeira de Portugal, teve lugar em 25 de Março de 1646. Perante toda a Corte, o Rei pronunciou:
- assentamos de tomar por padroeira de Nossos Reinos e Senhorios, a Santíssima Virgem, Nossa Senhora da Conceição, na forma dos Breves do Santo Padre Urbano 8º, obrigando-me a aceitar a confirmação da Santa Sé Apostólica e lhe ofereço em meu nome e do príncipe D. Theodósio, e de todos os meus descendentes, sucessores, Reinos, Senhorios e Vassalos a Sua Santa Caza da Conceição sita em Vila Viçosa-.
O acto de imponente solenidade prosseguiu com os juramentos e os efeitos reais própriamente ditos: - se alguma pessoa intentar contra esta nossa promessa, juramento e vassalagem, por este mesmo efeito, sendo vassalo, o havemos por não natural e queremos que seja logo lançado fora do Reino; se fôr Rei, haja a sua e nossa maldição e não se conte entre nossos descendentes, esperando que pelo mesmo Deus que nos deu o Reino e subiu à dignidade real, seja dela abatido e despojado. Para que em todo o tempo haja a certeza desta nossa Eleição, promessa e juramento, firmada e estabelecida em Cortes, mandamos fazer dela três autos públicos, um que vai ser levado de imediato à Corte de Roma para se expedir a confirmação da Santa Sé Apostólica, outro que se juntará a esta confirmação, e o terceiro com cópia se guarde no Cartório da Caza de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa e na nossa Torre do Tombo - - Lisboa, aos 25 de Março de 1646; Baltazar Roiz Coelho, o fez; Pedro Vieira da Silva, o escreveu.
Em 25 de Março de 1646, dia de Ramos, perante a Corte e representantes do Reino e cinco bispos reunidos na Capela Real dos Paços da Ribeira, realizou-se esta solene cerimónia de juramento. Pedro Vieira da Silva leu em voz alta o texto e por fim a fórmula do juramento, que o Rei, ajoelhado, diante do altar foi repetindo. O mesmo fizeram o príncipe, os grandes da nobreza, os representantes do povo e os bispos presentes. O acto terminou com solene Te Deum.
A confirmação papal, todavia, demorou 25 anos a chegar, devido a intrigas de Filipe IV, que faziam manter suspensas as nossas relações com a Santa Sé. Finalmente em 1671, Clemente X, aprovou e confirmou o decreto de el-Rei D. João IV. O Breve Papal ratificou a "eleição da Bem Aventurada Virgem Maria sob a invocação da Santíssima Conceição, como particular, única e singular Advogada e Protectora do Reino de Portugal".
segunda-feira, 6 de dezembro de 2010
Le concert
Neste último fim de semana fui ver este filme Francês - Le concert; um filme cheio de comédia, diálogo cativantes, inteligentes e profundos que atravessam muitos dos problemas actuais do nosso mundo, e no final um toque de brilho, um concerto que vai tocando na nossa alma à medida que é tocado. Estes filmes definem o bom cinema, e faz-nos ver o lixo que muitas vezes visualizamos sem nos darmos conta, ao elevar um pouco a nossa sensibilidade no que diz respeito à beleza no cinema. Não é nenhum filme sacro nem diz respeito a nenhum drama religioso como os Homens e os Deuses, outro filme Francês que também recomendo, longe disso, é uma história de um conjunto de pessoas russas, com os suas virtudes, sofrimentos, defeitos, alegria e principalmente Vida que explode e vivifica no final aquando o concerto. Este filme é para ver pelo menos duas vezes, porque em todas as cenas à referências imperceptíveis e outras mais perceptíveis sobre a sociedade Ocidental as suas virtudes e os seus defeitos, sobre as questões que tocam-nos todos os dias, e principalmente na França. Mas é na música que tudo resolve-se e ordena-se, a solução perfeita é encontrada na harmonia musical, e a realidade transmuta-se e idealiza-se na música tocada no final. Mas o problema central é um drama mais pessoal, que agora não vale apena aqui estar a assinalar, vejam o filme, mas ficou resolvido sem palavras, foi-lo quando a música acabou.
Aqui está o concerto do final do filme. É óbvio para quem não viu o filme, pouco escrutinará do interior dos músicos porque não conhece a história deles, e por isso não reconhecerá muita da beleza que a cena transmite! Peço desculpa, é ter uma cena de 2 segundos que para nós católicos poderia ser censurada.. mas está lá, só para efeito de comédia..
O tema da nossa geração
Para maior glória da Santa Igreja, Ámen!
O Papa anda de novo nas notícias. Foi insultado em Barcelona e falou do preservativo num livro (Luz do Mundo, Lucerna 2010). Parece que a sociedade não entende mesmo a Igreja. Olha que novidade! Nunca entendeu. Podemos até caracterizar cada geração pelos motivos da sua crítica anticatólica.
O tema hoje é... sexo. O que traz à discussão elementos curiosos e efeitos profundos. O debate do preservativo mostra-o bem. Imagine um jornalista perguntar ao médico: "Devo fumar cigarros com filtro?" A resposta natural é que não deve fumar. Então o jornal publica a manchete: "Medicina é contra o filtro." O mal é o tabaco, mas os médicos também acham que uma vida saudável não precisa de filtros para respirar. Então um jornalista mais insistente consegue que o médico diga: "Se faz o erro enorme de fumar, então use filtro", e o jornal publica a novidade: "Medicina muda de posição sobre o filtro." Foi uma tolice deste calibre que se verificou agora.
O Papa não mudou de posição. A Igreja é contra o adultério, prostituição, promiscuidade e fornicação. Ensina que o sexo, uma das coisas mais maravilhosas que Deus fez, só deve ser vivido numa relação estável e fecunda no seio do matrimónio, sem barreiras artificiais contraceptivas. "Usar deste dom divino, destruindo o seu significado e a sua finalidade, ainda que só parcialmente, é estar em contradição com a natureza do homem" (Encíclica Humanae Vitae, 1968, n.º 13). Foi neste âmbito, dentro dos casais católicos, que a questão do preservativo foi controversa há anos, quando Paulo VI reafirmou a doutrina de sempre.
É evidente que nos outros casos a questão fica radicalmente diferente. No pecado gravíssimo do sexo fora do matrimónio, o preservativo torna-se um detalhe. Quem despreza o sexto mandamento, cometendo adultério ou recorrendo à prostituição, não tem escrúpulo de violar essa outra regra menor. A Igreja opõe-se às campanhas de promoção do preservativo, não por repúdio fanático do instrumento, mas porque esse meio, pretendendo proteger a saúde, promove a promiscuidade e aumenta o risco de sida.
A sociedade hoje anda viciada em libido, como de tabaco há anos. Castidade, pureza, fidelidade são incompreensíveis. Isso passa e voltaremos ao normal. Sabemos bem como delírios colectivos, a que assistimos tantas vezes e parecem imparáveis, se esfumam depois. O problema destas fúrias culturais está nos estragos que deixam.
A França de setecentos e a Rússia de novecentos quase se destruíram na embriaguez da revolução. Agora a cultura preservativa ameaça as sociedades que inquinou. Queda drástica de fertilidade e casamento, envelhecimento da população, degradação da família estiolam o crescimento, dinamismo social, vitalidade cultural. Pior que os tumultos antigos, o vício hedonista deteriora o tecido humano por definhamento. Entretanto o vício ataca a Igreja com disparates daquele calibre por ignorar o sentido da doutrina.
Os papas são incompreendidos e insultados há dois mil anos. Nos primeiros séculos todos morreram mártires. Depois houve papas raptados, enxovalhados, presos, assassinados. Há cem anos era normal a maçonaria gritar e atirar projécteis às janelas do palácio pontifício. O antecessor do actual bispo de Roma foi alvejado com quatro balas.
Sempre se atacou a Igreja. Os motivos é que variaram. Os antigos romanos perseguiam por razões religiosas, como depois os protestantes. Os bárbaros pretendiam credibilidade política, como Napoleão ao prender Pio VII. Os iluministas e maçons tinham um modelo social, como os soviéticos e maoistas. Criticou-se o Papado por defender os indígenas, condenar o absolutismo, ter riquezas, ser pobre, criticar as Cruzadas, promover as Cruzadas, controlar a Inquisição, instituir a Inquisição, etc. Tudo serviu para insultar papas.
Nesta vastíssima variedade de dois milénios, o nosso tempo conseguiu a proeza de ainda ser original. A razão dos insultos de Barcelona, como de Londres, foi homossexualidade e preservativo. Esse é o tema que na História marcará a nossa geração.
sexta-feira, 3 de dezembro de 2010
A autoridade da Igreja Católica
A autoridade concedida por Cristo a Pedro unida à Sucessão Apostólica ininterrupta ao longo da história, basta para que todos os Católicos crerem infalivelmente e firmemente na Igreja ao longo de 2000 anos, mas para os anti-clericais isto é conversa da treta, e a moral Católica é para eles uma piada..
Vamos então aos números : Do total de pessoas infectadas no mundo com o HIV/AIDS, aproximadamente 25 por cento é atendida por alguma instituição da Igreja Católica, o que a converte na instituição mais importante em nível mundial neste tema. Esta percentagem aumenta no caso da África, onde a Igreja cuida de quase 50 por cento dos afectados por este flagelo.
Continuar a ler: http://www.acidigital.com/noticia.php?id=20749
A Igreja Católica continua a sua marcha ao longo da História, sempre à frente de qualquer tipo de moral decadente e bestial, hoje é a maior especialista no mundo a combater a sida, mas por puro irracionalismo, este facto é ignorado pelos supostos intelectuais que não fazem nada, a não ser atirar preservativos à Igreja ridicularizando-a.
A Cruz é o nosso sinal dado por Deus, é o sinal de Cristo!
sexta-feira, 26 de novembro de 2010
Ratzinger e a Lei Natural
Se de facto pouca gente do mundo, segue a lei da Igreja no que se refere ao uso do preservativo, que se fundamenta na lei natural e enriquecida pela Revelação, deixo um pequeno trecho, do livro: Existe Deus? - Ateísmo e Verdade - Joseph Ratzinger, Paolo Flores DÁrcais; no qual o Cardeal Ratzinger, hoje Papa Bento XVI, refuta a novidade e a mutabilidade da lei natural, como um expediente usada por parte da Igreja nos séculos XIX e principalmente XX, para defender e resguardar a evidente fraqueza das convicções e da fé Católica do mundo contemporâneo.
Gad Lerner: Gostaria de citar, se me permitirdes, a objecção de um pensador laico italiano, Gian Enrico Ruscini, que, por outro lado, é de matriz Católica, foi um crente que hoje reflecte sobre a crise, por ele qualificada de paralela, do pensamento laico e da teologia católica. Afirma ele que existe uma forte crise paralela, em que a insistente referência da teologia ás leis naturais constituiria justamente um «salva-vidas» em relação ao enfraquecimento da solidez dos princípios e das certezas do passado. E essa centralidade que a defesa da vida humana assumiu na doutrina seria, precisamente, uma aquisição recente, não absoluta e permanente da história da Igreja.
Joseph Ratzinger: Eu diria duas coisas. Primeira questão: houve um certo exagero no uso da referência à lei natural, na doutrina social da Igreja, nascida no final do século XIX, e depois no século XX, até ao Concílio Vaticano II. Houve excessos. Mas essa referência [ao direito natural] um pouco - digamos - exagerada, não impede que ela esteja já presente em S. Paulo, que fala da katanoesis [a palavra grega não é de todo certa].
É uma palavra de que indica circunspecção pela criação e a profunda convicção de que a criação fala de Deus e, portanto, também do homem. Encontramo-la também no Antigo testamento; por isso, sobre a expansão da lei natural, e até onde deve ela chegar, pode e deve discutir-se. Mas, sobre o facto de que os cristãos sempre consideraram a criação como uma realidade em que está presente o logos - e, portanto, não apenas uma estrutura matemática, mas também uma indicação da vida correcta - isso é realmente uma herança dos começos.
Também é certo que, digamos, a atenção concedida à defesa da vida humana é hoje maior do que no passado e, nesse sentido, é igualmente uma característica específica do nosso século, no qual tivemos, afinal, a experiência de uma crueldade e de um desprezo do ser humano, que nos deve manter despertos.
Mas eu diria, nunca se pensou que o homem chegaria a dispor do ser humano, da vida humana. [FIM]
Infelizmente, temos que dizer que Ratzinger hoje como Papa, nas suas imprudentes palavras confundiu o mundo, ao fazê-lo crer que desistiu e cedeu um pouco mais no dever de restituição da verdadeira dignidade do ser humano. O que não é verdade, como podemos ver acima.
quarta-feira, 24 de novembro de 2010
A Sexualidade Cristã
Pela conversão dos ateus e agnósticos, Ámen!
A vida Humana é um Dom de Deus, ninguém pode dizer-se que nasceu por mérito próprio, ou por sua própria vontade, nem se pode arrogar de ser o autor da sua própria vida. A vida é um Dom que recebemos, no qual devemos conservar, preservar e desenvolver! É no acto conjugal de amor, que Deus decidiu que fosse também o acto próprio para dar vida aos homens, ou seja, estão intimamente ligados, segundo as leis naturais criadas por Deus. Estes dois actos enriquecem-se um ao outro, e tornam o amor dos esposos plenos, pois dão-se totalmente um ao outro, o dom de si mesmo. "Salvaguardando estes dois aspectos essenciais, unitivo e procriador, o acto conjugal conserva integralmente o sentido de amor mútuo e verdadeiro e a sua ordenação para a altíssima vocação do homem para a paternidade." Humanae Vitae 12 Os esposos tornam-se um só carne, uma só alma, na plenitude da unidade.
A questão da malignidade do uso de preservativo advêm de artificialmente negar o dom da vida, invertendo o acto de doação e luz dos esposos, transformando-o num acto de egoísmo, remetendo o parceiro para um plano igual a de um objecto de consumo, pronto para ser devorado como por um buraco-negro. "É (pois) de recear que o homem, habituando-se ao uso das práticas anticoncepcionais, acabe por perder o respeito pela mulher e, sem se preocupar mais com o equilíbrio físico e psicológico dela, chegue a considerá-la como simples instrumento de prazer egoísta e não mais como a sua companheira, respeitada e amada." Humanae Vitae 17. Assim os contraceptivos, transformam os seres humanos em predadores bestiais porque abrem um buraco de desresponsabilização, ao destruir voluntariamente qualquer possibilidade de vida que está intrinsecamente unida ao acto sexual.
Agora o demónio pergunta, se o esposo tiver sida devido a um acto irreflectido de adultério, pode fazer sexo com a esposa, protegendo-a com o preservativo para a não contaminar?
"Quem reflectir bem, deverá reconhecer .. que um acto de amor recíproco, que prejudique a disponibilidade para transmitir a vida que Deus Criador de todas as coisas nele inseriu segundo leis particulares, está em contradição com o desígnio constitutivo do casamento e com a vontade do Autor da vida humana. Usar deste dom divino, destruindo o seu significado e a sua finalidade, ainda que só parcialmente, é estar em contradição com a natureza do homem, bem como com a da mulher e da sua relação mais íntima; e, por conseguinte, é estar em contradição com o plano de Deus e com a sua vontade." Humanae Vitae 13
"É, ainda, de excluir toda a acção que, ou em previsão do acto conjugal, ou durante a sua realização, ou também durante o desenvolvimento das suas consequências naturais, se proponha, como fim ou como meio, tornar impossível a procriação." Humanae Vitae 20
A solução é a Fidelidade para prevenir estes casos..
Mas o demónio astuto, dizia que o casamento estava em risco, devido a esta situação?
Não se podem invocar, como razões válidas, para a justificação dos actos conjugais tornados intencionalmente infecundos, o mal menor, ou o facto de que tais actos constituiriam um todo com os actos fecundos, que foram realizados ou que depois se sucederam, e que, portanto, compartilhariam da única e idêntica bondade moral dos mesmos. Na verdade, se é lícito, algumas vezes, tolerar o mal menor para evitar um mal maior, ou para promover um bem superior, nunca é lícito, nem sequer por razões gravíssimas, fazer o mal, para que daí provenha o bem; isto é, ter como objecto de um acto positivo da vontade aquilo que é intrinsecamente desordenado e, portanto, indigno da pessoa humana, mesmo se for praticado com intenção de salvaguardar ou promover bens individuais, familiares, ou sociais." Humanae Vitae 14,
A solução é a castidade para que o amor dos conjugues seja sagrado e compreensivo..
No mundo de desgraça em que vivemos, as virtudes da castidade e da fidelidade não são respeitadas, por isso aparece aqui o preservativo como uma falsa solução, porque pecaminosa. Queria acrescentar por isso, a dificuldade de julgamento da gravidade do pecado, tanto em relação ao uso de preservativo como em relação à transmissão consciente de uma doença sexualmente transmissível a um conjugue! No primeiro caso é uma transgressão do 6º mandamento (guardar castidade), e no último, uma transgressão do 5º mandamento (Não matarás), assim julgo que transgredir o 5º mandamento seria mais grave, pois além de pecarmos contra nós e Deus, pecámos contra o próximo, enquanto no 6º não pecámos contra outro ser humano. Só a nossa fraqueza nos leva a distinguir a gravidade da infracção de 2 mandamentos, porque são ambos pecados, devia ser o bastante para não infringir os 2.
Também queria acrescenta que no trecho acima da Humanae Vitae do Papa Paulo VI, este parece fazer uma distinção, entre tolerar um mal menor para impedir um mal maior, e tolerar um acto mau para alcançar um bem, dizendo que este último não é licito porque é logicamente impossível, o problema é que estas duas distinções facilmente podem ser manuseadas para qualquer situação, como o exemplo acima dado, se é ilícito usar um preservativo para proteger um casamento, já seria tolerável o seu uso como um mal menor para não contagiar o conjugue?? A única resposta objectiva, seria que são duas situações pecaminosas..
A miséria do nosso mundo é incomensurável e nunca mais acabaria e os exemplos seriam muitos, e o demónio aproveitaria-se sempre da nossa situação para aumentar o escândalo, mas a lei de Deus escrita na criação não mudaria uma virgula! No entanto a questão essencial, e julgo eu que não se pode resolver objectivamente, é se é sempre pecado o uso de preservativo, por exemplo, no caso de um esposo ser estéril involuntariamente e ele ou a esposa terem alguma doença sexualmente transmissível, se seria bom o uso de preservativo? A resposta julgo eu, é dúbia, podia ser como não ser, depende caso o acto conjugal fosse uma manifestação de amor, ou um uso egoísta dos corpos.. São coisas que não se legislam porque são coisas particulares subjectivas, e a lei por natureza deve ser universal, no entanto no nosso mundo actual de relativismo, dificilmente isso acontece, mas ainda assim as melhores leis são aquelas mais próximas da universalidade da Verdade. O Cristianismo defende a plenitude humana, por isso é regido por máximas, como o próprio Jesus ensinou, como a própria felicidade requer. Assim teremos vida em abundância, sem misérias como aquelas ilustradas acima!
"A doutrina da Igreja sobre a regulação dos nascimentos, que promulga a lei divina, parecerá, aos olhos de muitos, de difícil, ou mesmo de impossível actuação. Certamente que, como todas as realidades grandiosas e benéficas, ela exige um empenho sério e muitos esforços, individuais, familiares e sociais. Mais ainda: ela não seria de facto viável sem o auxílio de Deus, que apóia e corrobora a boa vontade dos homens. Mas, para quem reflectir bem, não poderá deixar de aparecer como evidente que tais esforços são nobilitantes para o homem e benéficos para a comunidade humana." Humanae Vitae 20
domingo, 21 de novembro de 2010
Ainda sobre as declaraçãoes de Bento XVI
Eu na postagem anterior, tentei compreender as declarações do Papa, e acho que consegui justificá-las, mas surgiu outro problema, é o Papa quem as diz! O que há mais perigoso para a Fé, é o Papa opinar sobre casos particulares, devido à sua complexidade e subjectividade, que trazem confusão à verdadeira doutrina, no qual ele é o principal guardião. O Diabo, é um ser muito inteligente, e o que ele mais faz, é colocar pedras de tropeço. Ora a Igreja como guardiã da Fé, da Verdade que une todos os homens do mundo, legisla sempre nas questões da doutrina, moral, fé, em harmonia com a Verdade da natureza humana e do mundo, cuja universalidade não deixa ninguém de fora. No entanto, no nosso mundo imperfeito, existem casos particulares, que aparentemente tornem a Verdade, demasiado dura. Por exemplo no caso do aborto, os servos do demónios, fazem por embaraçar a pretensa Verdade das leis da Igreja, com casos esdrúxulos, como por exemplo, quando uma criança é violada e fica grávida, como aconteceu à pouco tempo, no Brasil. É óbvio que não há nada que justifique um assassínio, por mais que seja de lamentar os casos de violação. Aqui com os preservativos é a mesma coisa, não há justificação para o seu uso em relações heterossexuais, e mesmo assim, só aparentemente é que parecem ajudar, mas no fundo tornam as pessoas mais promiscuas. Já nas relações homossexuais, como disse na postagem anterior é indiferente o uso do preservativo, por isso acabo por concordar com o Papa neste caso particular. O problema é que o Papa não pode opinar sobre casos particulares, o Papa como detentor das Chaves de Pedro, deve olhar para o Céu e não para a Terra, um dos principais problemas hoje da Igreja, é o não exercício do seu poder de magistério infalível.. e isso deve-se também à ditadura do relativismo que o Papa tanto ataca. Por isso o Papa deve-se abster de análise de casos miseráveis do nosso mundo, mas que existem, porque quanto mais particular é um caso, mais subjectivo torna-se o seu julgamento e mais prudente é deixar para a justiça Divina. Hoje assiste-se a um fenómeno curioso no mundo que é a emancipação de particularismos contra aquilo que é universal e por isso racional, e nas leis é a mesma coisa, reconhece-se hoje a homossexualidade, contra a universalidade da heterossexualidade, reconhece-se hoje um terceiro sexo que não se sabe bem o que é, contra a universalidade do sexo masculino e feminino, reconhece-se valores de minorias contra os valores da maioria, ainda por mais bizarros que sejam, mas lutam contra uma cultura, cuja razão tem pouco a dizer.. O Papa deve ser prudente, não pode tropeçar, nem pode deixar que a Igreja tropece, deve fixar o mundo com os olhos de Deus, que contemplou a sua obra, e viu que tudo era Bom, e legislar consoante a lei de Deus e da Criação, com toda a autoridade que Deus lhe deu, nos locais próprios e com todos os símbolos inerentes ao seu Poder!
Nota: A minha tentativa de defesa do Papa na postagem anterior tem falhas, e isso deve-se, pela particularidade e subjectividade do caso. Ou seja, no caso do infractor, ter sida e não conseguir evitar o pecado homossexual, o uso de preservativo como um acto de protecção dele e do parceiro por incrível que pareça é bom, porque como já disse a malignidade do preservativo neste caso não se põe, ainda que o acto homossexual seja intrinsecamente mau, mas se o homossexual usa o preservativo como um instrumento de seguro para uma maior promiscuidade, é óbvio que é mau e agrava o pecado, porque o deixa mais preso a este! Por isso lamento ter sido o Papa o primeiro a opinar sobre este caso particular, quando ele têm é que fortalecer as leis Universais e Verdadeiras da Igreja.
