domingo, 24 de abril de 2011

Últimos dias de Luís XVI part III

Aleluia o Senhor ressuscitou! Boa Páscoa..

Sansão e os seus dois ajudantes abrem agora a portinhola da carruagem. Aparece o rei, segundo as palavras de Sansão, «mais digno, mais calmo, mais majestoso do que jamais o vira em Versalhes e nas Tulherias». Apeia-se e encara os três homens que o cercam, com frieza e desajeitadamente, para lhe tirarem algumas peças de vestuário. Luís afasta-os com altivez e tira-as ele mesmo. Seguidamente querem atar-lhe as mãos. O rei exclama: «Atar-me! Não, jamais o consentirei: fazei o que vos é ordenado, mas não me atareis; renunciai a este projecto.» A tensão sobe. A guarda agita-se. Todos estão embaraçados. Sansão pede então a Edgeworth que intervenha, dizendo-lhe num murmúrio: «Enquanto estivermos a atar-lhe as mãos, ganharemos tempo; o povo ficará talvez emocionado e intervirá em seu favor.» Edgeworth aquiesce e, comovido com a cena, acaba por dizer: «Sir, neste novo ultraje não vejo senão um último traço de semelhança entre vossa Majestade e Deus que vai ser a sua recompensa.» O rei ergue então os olhos para o céu, com, segundo Edgeworth, «uma expressão de dor que nunca serei capaz de transmitir». Suspira e resigna-se: «Seguramente, não é necessário nada menos do que o seu exemplo para que me submeta a semelhante afronta» e, voltando-se para os carrascos: «Fazei o que quiserdes, beberei o cálice da amargura.» O rei apresenta os antebraços que são então atados com um dos seus lenços, sob os olhares da multidão silenciosa. O seu confessor dá-lhe então a beijar a imagem de Cristo e acompanha-o em direcção ao seu destino.
Luís sobe lentamente com Edgeworth os degraus íngremes do cadafalso. Depois, repentinamente, chegado acima, avança com um passo rápido até a extremidade da plataforma. Com um gesto imperioso, faz calar os tambores surpreendidos e grita com voz forte a fim de se fazer ouvir por todos: «Morro inocente de todos os crimes que me imputam. Perdoo aos autores da minha morte e peço a Deus que o sangue que ireis derramar nunca venha a cair sobre a França. E vós, povo desventurado...» É então que um apaniguado de Santerre intima aos tambores que recomecem a rufar, a fim de abafarem a sua voz. Desapontado, o rei bate com o pé no cadafalso, clamando por silêncio. É neutralizado pelos ajudantes e depois, segundo Sansão, deixa-se conduzir para cima da guilhotina onde o amarram. Enquanto o amarram ao estrado, numa derradeira tentativa, dirige-se aos carrascos para que a sua última mensagem seja levado ao povo: «Senhores, sou inocente de tudo aquilo que me inculpam. Espero que o meu sangue possa cimentar a felicidade dos franceses.» Em seguida diz: «Entrego a minha alma a Deus.» O cutelo cai às 10h22. Edgeworth suspira: «Filho de São Luís, subi ao céu!» - ainda que mais tarde não se venha a recordar de ter pronunciado estas palavras. Alguns fanáticos regozijam-se, um deles, mesmo, aspergue a multidão com sangue, gritando: «Irmãos, fomos ameaçados de que o sangue de Luís Capeto cairia sobre as nossas cabeças; pois bem, que ele caia sobre elas.» Uma lenda pretende que um desconhecido teria gritado também do meio da multidão: «Jacques de Molay, estás vingado!» Todavia, por contraste, o resto da multidão, soldados e civis, permanece petrificado. Sansão escreve de Luís XVI: «Começava a suscitar uma verdadeira compaixão e, realmente, não compreendo que ele, depois de todos os avisos que ontem recebi, fosse tão cruelmente abandonado. O menor sinal teria sido suficiente para fazer surgir uma diversão em seu favor, pois, se quando o meu ajudante Gros mostrou essa augusta cabeça aos assistentes alguns alucinados lançaram gritos de triunfo, a maior parte voltou-se com um profundo horror e um doloroso estremecimento.»-
A morte do rei foi registada pelo governo republicano com a maior frieza. A denominação de «Louis Capet» com que tinha sido cognominado, suprimindo qualquer partícula e qualquer origem já prefigurava a decapitação; o registo do falecimento do rei, voluntariamente reduzido a um simples acto burocrático, deriva da mesma lógica, como o faz notar Alain Boureau: «Ao cutelo mecânico da guilhotina corresponde o tratamento estritamente igualitário do formulário administrativo que regista o falecimento de 21 de Janeiro de 1793».
Os franceses encontravam-se, entretanto, num estado de espírito completamente diverso. Durante o resto do dia 21, ao lado de uma minoria que celebra ruidosamente as suas esperanças, cedo desmentidas, de ver abrir-se sem custos uma era de paz e felicidade, a maior parte dos franceses continua mergulhada numa espécie de torpor e de tristeza, e Paris fica recolhido em luto. Fockdey refere-se a um «dia de amargura, de dor, de abalo e de luto. A capital encontrava-se envolvida pela angústia. A quase totalidade das casas e das lojas estava fechada, famílias inteiras em pranto. A quase totalidade das casas e das lojas estava fechada, famílias inteiras em pranto. A consternação lia-se em todos os rostos. Uma grande parte dos guardas nacionais, a pé desde as seis horas da manhã, parecia que ia ela própria para o suplício. Não, as cenas de que fui testemunha naquele dia jamais se apagarão da minha memória. Quantas lágrimas vi correr! Quantas imprecações ouvi contra os autores de tal perversidade! A minha pena recua, fica suspensa diante da enumeração de tudo aquilo de que fui testemunha ocular e auricular. Nesse dia, a Assembleia estava sombria e silenciosa, os votantes do regicídio estavam pálidos e desfeitos. Parecia que sentiam horror de si mesmo.» Em fins de Janeiro, Dumouriez atravessa o norte da França antes de chegar a paris a 2 de Fevereiro de 1793; em toda a Picardia, em Artois e na Flandres marítima, depara-se com o povo «consternado» pela morte trágica de Luís XVI, sentindo «tanto horror como receio à simples menção dos jacobinos». A agitação faz-se igualmente sentir no exército: o relatório Dutard de 17 de maio de 1793 assinala: «Os voluntários que regressam do exército parecem zangados por terem feito morrer este rei, e só por causa disto esfolariam todos os jacobinos.»
A seu tempo, os revolucionário irão empenhar-se contra a família de Luís XVI, apesar das promessas e garantias que este último tinha recebido da parte de Garat e da Convenção. No dia 1 de Agosto, depois de a Áustria, não se importando com que a rainha sobreviva ou não, ter capturado os emissários da Convenção, esta última remeteu Maria Antonieta ao tribunal revolucionário. Ela defendeu-se com sinceridade: «Sim, o povo foi enganado, e cruelmente, mas não pelo meu marido, nem por mim - Por quem foi então o povo enganado? - Por aqueles que nisso tinham interesse [...] Nunca desejámos outra coisa que não fosse a felicidade da França.» Como havia contra ela poucas provas concretas, inventou-se uma acusação de incesto com o filho à qual respondeu com um silêncio indignado. Não obstante a inconsistência da acusação, foi condenada à morte e executada em 16 de Outubro de 1793. manteve-se elegante até ao fim: ao pisar os pés do carrasco, exclamou: «perdão, senhor, não o fiz de propósito.» Da mesma forma, em 10 de maio de 1794, morreu a irmãzinha de Luís XVI, Madame Elisabeth, no cadafalso revolucionário.


Fonte: O Livro Negro da revolução Francesa DIR. Renaud Escande

domingo, 17 de abril de 2011

Últimos dias de Luís XVI part II

Senhor consolai os oprimidos e tristes, Ámen!

Chega a madrugada, depois de uma noite em que a neve caiu em força. Luís XVI é acordado às cinco horas por Cléry, que acende a lareira. Tinha passado a noite em oração numa cadeia. Trocam as seguintes palavras: «Onde está o Sr. de Firmont? - Na minha cama. - E vós, onde passastes a noite? - Nesta cadeira. - Não queria que isto acontecesse. - Ah! Sire, como poderia eu estar a pensar em mim neste momento?» O Rei entrega-lhe diversos artigos pessoais. Edgeworth prepara em seguida a missa - não trouxe Eucaristia por receio das profanações e vai falar ao conselho dos guardas municipais para obter o que lhe era necessário. O conselho desconfia de que queria envenenar o rei, mas acaba por ceder. A missa começa às seis horas. O rei assiste a ela de joelhos, no chão, muito recolhido, sem genuflexório nem almofada: «Meu Deus, como estou feliz por ter conservado os meus princípios! Sem eles, onde é que estaria agora? Mas, com eles, como a morte me irá parecer doce! Sim, lá no alto existe um juiz incorruptível que saberá bem fazer-me a justiça que os homens me recusam aqui em baixo.» A justiça em questão entregará a França às facções e lançá-la-á na sangrenta epopeia napoleónica. Todavia, no cadafalso, Luís XVI proferirá palavras de perdão para o país que o traiu. Passado algum tempo ouve-se o toque para reunir: é a guarda nacional que começa a juntar-se. Querendo cumprir a promessa, o rei pretende rever a rainha, mas Edgeworth dissuade-o, pois esta ideia poderia comprometer a firmeza e a coragem do rei. Santerre e a sua tropa chegam e batem à porta. O rei abre-a e pede-lhes que esperem, volta a entrar, põe-se de joelhos e pede a bênção a Edgeworth: «Tudo está consumado, Senhor: dai-me a vossa derradeira bênção e pedi a Deus que me dê forças até ao fim.» Depois de ter recebido a bênção, o rei volta a sair, estendendo o seu testamento a um antigo padre blasfemador, Jacques Roux, para que seja comunicado a sua mulher: «Peço-vos que entregueis este papel à rainha.. (hesitação) à minha mulher.» Jacques Roux recusa e tem a audácia de responder: «Eu estou aqui para vos conduzir ao cadafalso.»
Luís XVI sai pela porta que viu passar, muitos anos atrás, Jacques de Molay dirigindo-se À fogueira. Volta-se por um última vez para o lugar em que se encontravam os seus - o torreão do Templo que será destruído por Napoleão, inquieto por vê-lo tornar-se lugar de peregrinação realista. Sobe em seguida para uma carruagem verde aberta - a carruagem do maire Chambon - com Edgeworth, em frente de dois guardas visivelmente impressionados. Durante mais de uma hora, a carruagem, precedida por uma centena de tambores, rodeada de granadeiros, escoltada por um grupo de cavaleiros de sabre desembainhado, abre dificilmente caminho pelas ruas de Paris, com as janelas e vidraças mandadas fechar, rodeadas de várias filas de guardas nacionais e de sans-culottes mais entristecidos do que a sua rigidez solene deixa adivinhar. O sacerdote empresta o breviário a Luís XVI e ambos recitam os salmos apropriados. Quais? Por exemplo, sem dúvida, o Salmo 3 de que os Girault de Coursac encontraram a tradução corrente na época:

"Senhor, porque se multiplicaram os meus perseguidores?
É grande o número dos que se revoltaram contra mim!
Ouço-os a dizer: «Deus que ele serve não o arrancará das nossas mãos».
E, no entanto, Senhor, Vós me estendeis o braço; sim, Vós sereis a minha glória,
E a minha cabeça. que eles vão abater, Vós a erguereis."

A carruagem, entretanto, prossegue o seu caminho. De repente, um homem isolado grita, ao assalto, para libertar o rei. Outros parecem segui-lo. Mas não podem passar a linha dos soldados e perdem-se na multidão. É o barão Jean de Batz, que tinha projectado raptar o rei com 400 realistas, dos quais a maior parte, denunciada por um traidor, tinha sido presa no domicílio, em plena noite, pela polícia. Batz escapará ao Terror e morrerá em paz em 1822.
A maiorira dos parisienses aparenta estar, simultaneamente, triste e resignada. Não há ninguém, nem mesmo os republicanos, que não deixe transparecer alguma emoção. Manuel, que tinha tentado ajudar orei, demitiu-se. Robespierre, que se aloja em casa dos Duplays, ordena que mantenham a porta fechada durante todo o dia para poupar à família o espectáculo do cortejo . Hébert, o enragé, desfaz-se em lágrimas em pleno Conselho Geral: «O tirano gostava muito do meu cão e acariciou-o várias vezes; estou a lembrar-me disso neste momento.»
A carruagem chega por volta das dez horas `praça da Revolução (actual Praça de La Concorde), em frente das Tulherias. Por receio de um eventual movimento do povo em favor do rei, a praça está guarnecida de tropas bem armadas: comprimem-se aí 80 000 guardas nacionais e gendarmes e 84 pelas de artilharia. Somente 3000 ou 4000 sans-culottes das secções foram admitidos a tomar lugar atrás dos soldados. A multidão, petrificada pelo dispositivo militar, é empurrada para muito longe, em grupos dispersos para evitar qualquer amotinação. Edgeworth escreve: «Por todos os lados, em volta, tão longe quanto a vista podia alcançar, via-se uma multidão em armas.» E Sansão: «O povo, relegado para trás desta soldadesca, parece fulminado pela estupefacção e mantém-se num silêncio sombrio.» Quanto ao cadafalso, encontra-se no centro de um vasto espaço, rodeado de canhões, não longe do pedestal vazio que outrora sustentava a estátua de Luís XV. A carruagem foi acolhida por Sansão e pelos seus ajudantes. Sansão carrasco oficial, cujo nome evoca a Lei implacável do Antigo Testamento, tinha doravante a seu cargo a guilhotina. Sincero patriota no princípio da Revolução, cujo entusiasmo tinha sido arrefecido pela sequência dos acontecimentos, continuava apegado à monarquia e à pessoa do rei, com quem se tinha encontrado alguns anos antes, por causa de um problema financeiro. Um memorial, transmitido aos seus filhos, descreve como, na véspera da execução do rei, tinha anulado a festa de aniversário do seu casamento, e como numerosas pessoas o tinham visitado, assegurando-lhe que tudo seria feito para libertar o rei - um jovem quis mesmo substituir-se a ele para morrer em seu lugar. O próprio Sansão tinha, de madrugada, levado armas debaixo da capa para fugir com o rei em caso de sublevação.

Fonte: O Livro Negro da revolução Francesa DIR. Renaud Escande

domingo, 10 de abril de 2011

Últimos dias de Luís XVI

De toda a espécie de totalitarismos livrai-nos Senhor, Ámen!

Desde os dias que se seguiram ao 10 de Agosto, Luís XVI vive prisioneiro no torreão do Templo, espiado por dois guardas que perscrutam os seus menores gestos. A partir de Dezembro, encontra-se totalmente separado da família. No dia 18 de Janeiro, pela manhã, Malesherbes vem, constristado, anunciar-lhe a sentença. Meditativo, Luís XVI, que já esperava o pior, afirma-lhe: «Senhor de Malesherbes, juro-vos com toda a sinceridade do meu coração, como um homem que vai comparecer diante de Deus, que quis constantemente a felicidade do povo e nunca formei uma intenção que lhe fosse contrária.» Malesherbes não quer perder a esperança; evoca a possibilidade de um levantamento para o salvar: «-Mas, sire - acrescentou ele -, os celerados ainda não tem o poder e tudo quanto há de gente honesta virá salvar vossa majestade ou perecer a seus pés. - Não, Senhor de Malesherbes, isso iria muita gente, faria com que a guerra civil se instalasse em Paris; prefiro morrer, e peço-vos que lhes ordeneis da minha parte que não tomem qualquer iniciativa para me salvarem.» Ao seu criado Cléry, que fala também de uma revolta para o libertar, responde: «Zangar-me-ia se ela acontecesse, haveria novas vítimas..» E profere este veredicto profético: «Vejo o povo entregue à anarquia, tornado vítima de todas as facções, os crimes a sucederem-se, longas dissensões a dilacerarem França.» Finalmente entrega a Malesherbes papéis ultra-confidenciais, que serão posteriormente recuperados pelo realista Antraigues. Este último dirá que são «de pôr os cabelos em pé quando forem conhecidos». Mas virão oportunamente a perder-se. Os dois homens separam-se. DEcorrem dois longos dias. Para se ocupar, o rei, como se procurasse compreender melhor o seu destino, tenta decifrar um logogrifo do Mercure de France. Acaba por consegui-lo, estende o enigma, a Cléry, que não é capaz de o resolver, e diz-lhe: «Como é possível! Não o descobris? No entanto, ele aplica-se bem a mim! A palavra é sacrifice!»
Por fim, em 20 de Janeiro, pelas duas horas, chega o conselho executivo au complet, ou seja, ao todo 15 pessoas, entre elas Garat, ministro da justiça, Chambon, maire de Paris, o sinistro Santerre, comandante das guardas nacionais de Paris. Depois de um breve preâmbulo de Garat, Grouvelle lê o decreto proclamando a execução do rei por «conspiração contra a liberdade da nação». A execução terá lugar no dia seguinte. Luís XVI fica impassível. Esboça contudo um sorriso irónico ao ouvir a palavra conspiração. Pega em seguida no decreto e guarda-o na carteira e esta no seu bolso. Lê-lhes em seguida uma carta na qual pede o fim da vigilância contínua, uma suspensão de três dias para preparar a sua alma e o sacerdote refractário Edgeworth de Firmont como confessor. Pede também à nação que cuide da sua família e de todos os pensionistas que não têm senão o dinheiro do rei para sobreviverem. Separam-se todos. Luís XVI vai então visitar os comissários de Templo. O seu olhar recai sobre a declaração dos Direitos do Homem. Exclama: «Ah! Se se tivesse seguido este artigo, ter-se-ia evitado grande parte da desordem.» Com efeito, o artigo 8 em questão determina: «A lei só deve estabelecer as penas estrita e evidentemente necessárias; ninguém pode ser punido por uma lei que não esteja estabelecida e promulgada anteriormente ao delito, e legalmente aplicável.» Bem entendido, este artigo foi desrespeitado durante o processo.
Por sua parte, Garat dirige-se à Convenção e depois, no começo da noite, vai procurar Edgeworth. na carruagem que o leva ao Templo, lamenta-se: «Meu Deus! De que horrível incumbência me vejo encarregado!» A entrevista com o rei deixou-o visivelmente muito impressionado, porque exclama: «Que homem! Que resignação! Que coragem! Não, a natureza apenas não seria capaz de dar tão grande força, há nisto algo de sobre-humano.» Edgeworth prefere guardar o silêncio. Os homens chegam ao Templo, são revistados, sobem uma escada em caracol, atravessam uma série de barreiras em que sentinelas sans-culottes, meio ébrias, soltam gritos horrorosos que se repercutem pelas abóbadas do torreão. Garat entre em primeiro lugar, com alguns ministros, deixando atrás de si Edgesworth. Anuncia a Luís XVI que a suspensão é rejeitada, mas que é autorizado a ver o seu confessor e a assistir à missa. No que respeita à sua família, a resposta da Convenção, que ele transmite, é ambígua: «A nação francesa, tão grande na sua benevolência quanto rigorosa na sua justiça, cuidará da sua família e assegurar-lhe-á uma sorte conveniente.»
então Edgeworth entre e Luís XVI intima os ministros a retirarem-se. Profundamente emocionado, Edgeworth acaba por desfazer-se em lágrimas e com ele o Rei. Mas recompõe-se e lê-lhe o seu testamento: «Perdoo de todo o coração àqueles que se fizeram meus inimigos sem que eu lhes tenha dado algum motivo para tal e peço a Deus que lhes perdoe.» A emoção regressa quando se trata dos que lhe são próximos: «Recomendo ao meu filho, se ele tiver a infelicidade de vir a ser rei, de pensar que se deve por inteiro à felicidade dos seus concidadãos, e que deve esquecer todo o ódio e todo o ressentimento, designadamente tudo o que está ligado aos infortúnios e aos desgostos que sofro.» Perdoa igualmente aos seus parentes, à rainha, a Monsieur, ao duque d'Orléans. No que respeita a este último, deixa escapar um suspiro: «Que fiz eu ao meu primo para que me persiga desta maneira? Mas porquê querer-lhe mal? Ele é mais de lamentar do que eu próprio.»
depois de ter completado a toilette diante de vários soldados da guarda municipal, encontra-se com os seus parentes, sob o olhar inquisidor dos comissários postados numa divisão contígua separada por uma vidraça fina. A entrevista prossegue durante duas horas. Em momentos trágicos como estes, Luís XVI, com a rainha à esquerda, a princesa Elisabeth à direita, o delfim ao pé dele, dá conhecimento à família da sua condenação. A filha desmaia. O delfim corre até junto da sentinela, gritando: «Deixai-me passar! Deixai-me passar! Vou pedir ao povo que não faça morrer o papá-rei.» Têm de se separar; Luís XVI promete-lhes que os voltará a ver no dia seguinte às sete horas. Vai ter com Edgeworth e confessa-lhe: «Que entrevista acabo de ter! Vê-se bem que amo e que sou ternamente amado.» Fica com ele até às duas horas e em seguida vai deitar-se.

Fonte: O Livro Negro da revolução Francesa DIR. Renaud Escande

domingo, 3 de abril de 2011

A Tomada de consciência e o memorícidio IV - Fim

Quem ama o Senhor, transborda de alegria, Ámen!

A operação consiste em lavar a Revolução de toda a mancha, a retirar a nódoa de sangue vendeano. Como se é incapaz de explicar o crime cometido, prefere-se negá-lo, relativizá-lo, justificá-lo, o método mais espalhado entre os historiadores «negacionistas», método que continua a ser utilizado nos nossos dias. Leia-se por exemplo, os livros escolares sobre a questão: a Vendeia é sabiamente resumida a uma pequena guerra civil, nascida em Março de 1793 e morta em Dezembro do mesmo ano. Os factos de 1794 não são definidos senão em relação a uma guerrilha ou cinicamente concentrados sobre um massacre que se seguiu a um outro massacre, este cometido pelos azuis, em Pornic, três dias antes, e um pseudo-assassinato de um criança-soldado, denominada Bara, morte de que não se conhece a origem, e cujo mito foi criado em todos os detalhes pelo próprio Robespierre, apesar dos protestos do superior da criança, que será aliás condenado à morte por esta razão e executado. Este negacionismo vai tão longe que chega a negar, e recusa, a existência das leis de aniquilamento e extermínio, apesar da sua publicação, no jornal oficial da época, do plano designado por plano de Turreau, plano este de que os arquivos do forte de Vincennes conservam o original, redigido pelo próprio Turreau, dos afogamentos, das matanças em massa, designadamente de crianças e mulheres, dos fornos crematórios, dos curtimentos de peles humanas, dos derretimentos de gorduras, etc. Alguns destes historiadores nem sequer hesitam em justificar o injustificável em nome da Revolução, partindo do princípio de que, constituindo a Revolução um bloco, nada deveria manchá-la. Este argumento é utilizado pela primeira vez por ocasião do processo Carrier. O advogado Tronson Ducoudray denuncia-o vivamente em termos muito precisos: «É», diz ele, «uma outra calúnia que os facciosos lançam desde há algum tempo, com habilidade, entre o povo. Eles pretendem que, ao recordar os horrores da Vendeia, se vá desencadear o processo da Revolução.»
A nível local, até 1814-1815, os vendeanos mantêm-se relativamente discretos em relação aos acontecimentos, sem dúvida em razão do contexto, mas também por falta de um porta-voz de envergadura e de meios designadamente financeiros, inteiramente consagrados à reconstrução. Com a Restauração, os vendeanos aprendem a apropriar-se da sua história graças, entre outras coisas, à publicação de testemunhos, tais como os das marquesas de Bonchamps e de la Rochejaquelein, à construção de monumentos, designadamente de estátuas em honra de la Rochejaquelein, de Bonchamps, de Charette, de Cathelineau… à trasladação dos restos mortais dos grandes chefes, de vítimas isoladas e até mesmo de ossários como em Bouguenais e La Chapelle-Basse-mer. A partir dos anos de 1830, quer dizer, no momento do arranque, ao nível do Estado, da manipulação da história oficial relativa à Vendeia, inicia-se uma verdadeira política de devoção, tanto mais intensa quanto as últimas testemunhas estão prestes a desaparecer. Todavia, se a lembrança dos acontecimentos se transmite de geração em geração, maciçamente até aos anos de 1960, em nenhum momento os vendeanos tomaram consciência da especificidade do crime de Estado cometido contra eles, e portanto nunca integraram. A título de exemplo, é o que explica que determinadas comunas vendeanas tenham dado o nome dos seus carrascos a ruas, como em Challans o de lazare Carnot, o autor da carta de 8 de Fevereiro de 1894, que avaliza o plano de Turreau.
A nível nacional, o bicentenário da Revolução deveria ter constituído ocasião de abordar, à margem de qualquer ideologia, este período. Não somente isso não aconteceu, mas tudo foi feito na perspectiva do dogma oficial. A título de exemplo, os colóquios científicos, organizados sobre a questão vendeana, não tinham outro objectivo. Aliás, houve a precaução de evitar convidar qualquer contraditor, taxado de revisionismo, e, para cúmulo, fazendo o que fosse necessário para os impedir de serem contratados como docentes ou investigadores.
Este comportamento teve consequências gravíssimas. A nível humano, era uma ocasião de reparar um delito histórico cometido contra os vendeanos, cuja história faz ainda dos traidores e dos seus carrascos «santos laicos» e vítimas; a nível científico, de precisar a verdadeira dimensão do drama vendeano que é efectivamente um genocídio matricial como o havia tão bem analisado, já em 1795, Gracchus Babeuf, numa obra de uma incrível modernidade, intitulada Du Système de Dépopulation ou la Vie et les Crimes de Carrier. De resto, lideres comunistas como Lenine, Pol Pot, etc.; não se enganaram a este respeito: foram aí buscar as suas reflexões e os seus métodos. Para além disto, ter-se-ia podido reflectir sobre um certo número de questões, tais como a filiação entre o terror e os sistemas comunistas e nazi, o suporte jurídico da deportação judaica sobre o qual se apoiou Vichy, etc.; ao nível do direito internacional, era uma boa ocasião de alargar o campo de acção do conceito de genocídio à memória e de definir o crime de memoricídio. Com efeito, crime contra a humanidade, a noção de genocídio é limitada à concepção ou à realização, ou ainda à cumplicidade de extermínio parcial ou total de um grupo humano de tipo racial, étnico ou religioso e, portanto, encontram-se excluídas a memória e a manipulação. Em 1991, publiquei na editora de Olivier Orban uma obra intitulada Juifs et Vendéens, d’um Génocide à l’Autre: la Manipulation de la Mémoire. Conclui, escrevendo: «Os assassinos da memória são perigosos: se conseguem persuadir a opinião pública, sempre pronta a reprimir o que ultrapassa o seu entendimento, de que o genocídio judeu não teve lugar ou de que ele se justifica, o impensável de ontem pode tornar-se a realidade de amanhã. É por isso que a memória judaica não é assunto que respeite unicamente aos judeus, mas a todos, como a Vendeia o deveria ter sido antes de ontem e isto em prol da dignidade da humanidade.» O colóquio negacionista organizado pelo Irão, em importância nem a marginalizar, porque os interesses ideológicos e políticos primam naturalmente sobre a verdade, qualquer que ela seja: a Vendeia foi disto o exemplo matricial.

Reynald Secher, Doutor em Letras

Fonte: O Livro Negro da revolução Francesa DIR. Renaud Escande

domingo, 20 de março de 2011

A Tomada de consciência e o memorícidio III

Senhor, lavai as nossas feridas, Ámen!

A partir desta altura, tudo se joga entre meados de Outubro e finais de Dezembro de 1799. A primeira tarefa dos cônsules consiste no restabelecimento da paz religiosa: é a famosa proclamação de 7 Nivoso, ano VIII (288 de Dezembro de 1799), cujo conteúdo marca uma ruptura em relação à política do Directório. Depois de ter condenado a acção «dos traidores vendeanos ao Inglês [...], homens a quem o governo não deve nem consideração nem declaração de princípios» , os cônsules dirigem-se aos «cidadãos caros à pátria, que foram seduzidos pelos artifícios deles e a quem são devidas as Luzes e a verdade». Recordam em poucas palavras os abusos arbitrários dos governos precedentes: «Foram promulgadas e executadas leis injustas, actos arbitrários alarmaram a segurança dos cidadãos e a liberdade de consciência; por todo o lado, inscrições arriscadas sobre listas de emigrados afectaram cidadãos que nunca tinham abandonado nem a sua pátria nem sequer os seus lares; finalmente, foram violados grandes princípios de ordem social.»
Segundo o texto, não apenas o governo actual não continuou esta política, mas, pelo contrário, denuncia-a; melhor ainda: «trabalha sem descanso, preparando a reforma das más leis e uma combinação mais acertada das contribuições públicas. Cada dia é, e será, marcado por actos de justiça [...]. O governo perdoará e reconhecerá o arrependimento.» Recusa, amnistia, sem dúvida, mas também, e sobretudo, liberdade total do culto católico. «Os cônsules declaram ainda que a liberdade dos cultos é garantida pela Constituição, que nenhum magistrado pode desrespeitar; que nenhum homem pode dizer a outro homem: tu exercerás um só culto, tu não o exercerás senão um dia.» Esta frase, impressa em caracteres especiais, é decisiva: ela diminui ou suprime reivindicações religiosas. Já no tratado de la jaunaye celebrado entre os vendeanos e a República, em 17 de Fevereiro de 1795, por uma habilidade dos representantes Morisson e Gaudin, tinha proclamado a liberdade do culto, mas esta depressa fora posta novamente em questão.
Esta proclamação, muito acertada no seu enunciado, faz coincidir, pela primeira vez, a legitimidade do clero refractário com uma certa legalidade. Reconhece-lhe, com efeito, e confere-lhe mesmo um papel de intermediário que lhe tinha sido recusado até então: «Todos conhecerão um só sentimento: o amor da pátria. Os ministros de um Deus de paz serão os primeiros motores da reconciliação e da concórdia: que vão a esses templos, que eles mesmos reabriram, oferecer com os seus concidadãos o sacrifício que expiará os crimes da guerra e o sangue vertido.» A palavra «sacrifício» não foi escolhida por acaso: é uma definição católica fundamental e não um deísmo ou mesmo um cristianismo de tipo protestante ou modernista. Bonaparte, mediterrânico, está muito a par da sensibilidade católica. O clero não se enganou. A proclamação é seguida de todos os decretos que anulam as restrições e vexames anteriores. Proclamam o direito de chamar para as funções públicas os ci-devant nobres ou parentes de emigrados considerados dignos de confiança. O juramento constitucional é substituído por uma promessa de respeitar a Constituição consular que não interfere no âmbito do espiritual. Esta declaração é considerada pelos vendeanos como uma vitória. Justifica de maneira clamorosa o seu combate.
Em 18808, o imperador, convidado pelo seu amigo o barão Dupin, prefeito de Deux-Sèvres e marido da viúva de Danton quando do seu regresso de Espanha, atravessa a Vendeia. Estupefacto perante o estado de desolação geral, vai ainda mais longe e decide estimular a reconstrução pela concessão de indemnizações às populações sinistradas. É publicado imediatamente um decreto, em 8 de Agosto, para a Vendeia, seguido de dois outros em 1811, para Deux-Sèvres e o Loire-Inferior: entre outros benefícios, os vendeanos, são isentos de contribuições durante 15 anos e são concedidos prémios. Luís XVIII e Carlos X, apesar dos discursos oficiais, que partem do princípio de que o «rei não sabe de nada, o rei esqueceu tudo? a fim de não excitar as paixões, prosseguem nesta política e amplificam-na: pensões, indemnizações, doações, honras, trabalho, são distribuídos espontaneamente ou em deferimento de solicitações. Os sobreviventes, estimulados pelas autoridades, começam também a contar os acontecimentos tal como os viveram. Escritores, jornalistas dão igualmente o seu testemunho. Em 1819, o próprio Victor Hugo consagra à Vendeia uma das mais belas odes, intitulada «Vendée». Com o reinado de Luís-Felipe começa a revisão da história e o trabalho de manipulação da memória em nome do superior interesse da nação e dos princípios «fundadores» da revolução, como bem o explicou o grande historiador do século XIX, Hippolyte Taine, na introdução da sua obra Les Origines de La France Comtemporaine, publicado em 1884: «Este volume tal como os precedentes», afirma ele, «é escrito apenas para os amadores de zoologia moral, para os naturalistas do espírito, para os investigadores de verdades, de textos e de provas, para eles somente e não para o público que, sobre a revolução, tem o seu parti pris, a sua opinião feita. Esta opinião começou a formar-se em 1825-1830, após a retirada ou a morte das testemunhas oculares: desaparecidas estas, pôde-se persuadir o bom público de que os crocodilos eram filantropos, de que vários de entre eles eram dotados de génio, de que eles nunca tinham comido senãos os culpados e que, se por vezes, os comeram em excesso, foi por ignorãncia, sem o desejarem ou por dedicação, sacrifício deles próprios ao bem comum.»

Fonte: O Livro Negro da revolução Francesa DIR. Renaud Escande

domingo, 13 de março de 2011

A Tomada de consciência e o memorícidio II

Senhor, não olheis para as nossas faltas, mas para a nossa Fé, Ámen!

O general Turreau, que segue os acontecimentos da prisão, compreendeu esta evolução e, ainda depois do 13 Vindemiário, exige ser julgado: sabe que nao só não arrisca nada como, mais ainda, pode recuperar a sua honra. Absolvido, não tem sequer um olhar de compaixão para com Chapelain, o depurado republicano da Vendeia, apupado pelo público por ter denunciado os horrores cometidos. Desesperado, enojado com a situação, este último, tentará mesmo acabar com os seus dias, pois está ciente de que a Nação fez uma opção definitiva: os argumentos suceder-se-ão, lógicos, cruéis, injustos, desonestos. A unidade nacional, consciente e inconsciente, cristalizou-se contra os vendeanos: nada mais poderá tornar a pôr essa escolha em questão e ai daquele que ouse relembrar a realidade dos acontecimentos!
Sós, os generais vendeanos, por causa da sua envergadura, do respeito que suscitavam, do seu conhecimento exacto dos acontecimentos, teriam podido, eventualmente, quebrar esta lógica nascente. Infelizmente, todos estavam mortos: Cathelineau, Bonchamps, Lescure, mortos por balas anónimas, d'Elbée, Charette, Stofflet, fuzilados; o príncipe de Talmont, guilhotinado, etc.
Resta o problema da memória, ou, mais exactamente, das memórias, porque se impõe fazer a distinção entre a memória nacional e a memória local.
Bonaparte é o primeiro agente da memória nacional. Quando toma o poder em 1799, uma das suas primeira preocupações é o restabelecimento da paz na Vendeia. Além da evidente finalidade política, o general tem também um reflexo humanitário. Está, e di-lo-á repetidamente, escandalizado pelo que tinha sido feito: «Ah! Eis aí a guerra civil e o seu pavoroso cortejo: eis os seus resultados inevitáveis; os seus frutos garantidos! Se alguns chefes fizeram fortuna e se livraram de responsabilidades , a poeira da população é sempre calcada aos pés; nenhum dos males lhe escapa!» Aliás, ele tinha-se recusado deslocar-se à Vendeia no quadro da repressão. Os Vendeanos não se enganam quando no 15 Brumário, ano VIII, gritam a plenos pulmões: «Viva o rei, viva Bonaparte!»
O sectarismo do Directório e as perseguições que se lhe seguiam resultaram, por conseguinte, numa formidável extensão da guerra no Oeste, em 1799. Numerosos contemporâneos assinalaram as graves consequências que daí podiam advir, tal como foi apresentado em dois relatórios anónimos (assinados X) de 23 e 26 de Ventoso, ano VI, expedidos de Nantes para o ministro. O primeiro texto assinala o ressurgir das críticas contra o regime, mesmo por parte de pessoas aparentemente alinhadas com a República: as paixões animam-se; os agentes são vítimas de ameaças; os descontentes elevam a voz. Os culpados, segundo as testemunhas, são indiscutivelmente os padres que «se agitam e abusam mais do que nunca da sua pérfida influência para doutrinar os fracos no momento das festas da Páscoa que se aproximam.» Realizam-se todas as noites, um pouco por todo o lado, reuniões populares para a recitação do terço: «Os habitantes são convocados para os locais, indicados por toque de corneta.» O segundo relatório menciona «manobras subversivas» e queixa-se ainda de padres que «pregam a rebelião» e anunciam o fim próximo do governo. A administração, face a estes acontecimentos, adopta, numa primeira fase, uma atitude com nuances, depois alinha-se francamente com os vendeanos. Proíbe que se toque músicas patrióticas no início dos espectáculos e reage vivamente, em Setembro de 1798, à decisão do Directório de proceder a um novo recrutamento de homens. Esta reacção leva ao fracasso da lei designada por Lei Jourdan. O Directório, furioso, decide então sancionar os pretensos culpados e faz reocupar militarmente a região, o que dá lugar à multiplicação das manifestações de cólera, tanto mais violentas quanto o clero é de novo perseguido e a prática religiosa proibida.

Fonte: O Livro Negro da revolução Francesa DIR. Renaud Escande

sábado, 5 de março de 2011

A Tomada de consciência e o memorícidio I

Que o desespero e apostasia, não entrem nos nossos corações, ante as vitórias do mal, Ámen!

Continuação

Vai ser necessário aguardar a queda de Robespierre para que a opinião pública local, nacional e internacional tome consciência da «enormidade do acto» cometido na Vendeia. À estupefacção geral, segue-se muito em breve a cólera. Exigem-se culpados e aplicação de penas: os testemunhos afluem, publicam-se escritos, revelam-se documentos. O processo Carrier só se compreende neste contexto: o homem é visto simultaneamente como «um grande criminoso contra os direitos fundamentais dos homens» e o bode expiatório que deve pagar por todos os outros. Uma vez este desaparecido, espera-se que o esquecimento faça tábua rasa deste crime que mancha, sabemo-lo já, de maneira indelével, a Revolução. o seu processo é de uma modernidade espantosa e, no fundo, muito próximo do de Nuremberga. São formuladas cinco grandes questões: Quem é culpado? Quem é responsável? Como deve ser sancionado este crime contra a humanidade? Como registar na memória este crime de Estado? Como classificá-lo? Esta última questão está a ser objecto de longos debates em razão da especificidade primordial desta política de aniquilamento e de extermínio. À falta de uma palavra que o defina, Gracchus Babeuf vai recorrer a um neologismo: o populicídio. De facto, o horror é de tal ordem que as consequências políticas se impõem a todos: para além dos homens, é o regime político que é condenado. Inicia-se então uma corrida contra o relógio, estando em jogo a própria sobrevivência da Revolução e dos revolucionários.
Tudo se joga entre o processo Carrier de Dezembro de 1794 e o de Turreau em Dezembro de 1795. O contexto era o da reconciliação e do esquecimento: os vendeanos, pelos tratados de la Jaunaye (17 de Fevereiro de 1795) e de Saint-Florent-le-Vieil (de Maio de 1795) e os chouans da bretanha, pelo de la Mabilais (20 de Abril de 1795) prestam-se ao jogo tanto mais facilmente quanto lhes prometem secretamente a restituição do delfim rei Luís XVII, para o qual construíram uma casa em Belleville, e a restauração da monarquia que surge como o único sistema capaz de garantir a liberdade e a segurança geral. Além disso, esta paraece inevitável e as eleições legislativas estão próximas: os republicanos encontram-se divididos, a miséria do país é real, a opinião pública sente-se ultrajada.
Os convencionais, desesperados e amedrontados, decidem forçar o destino: uma carta escrita por sete deles (Tallien, Treillard, SIeyès, Doulcet, Rabaut, Marec, Camvacérès) e expedida a Guezno, o representante do povo, explica a estratégia a reter: «É impossível, caro colega, que a República se possa manter, se a Vendeia não for for inteiramente subjugada. Não podemos por nós próprios acreditar na nossa segurança senão quando os bandidos que infestam o Oeste desde há dois anos forem colocados em posição de não nos poderem prejudicar e contrariar os nossos projectos, quer dizer, quando foram exterminados. Já representa um sacrifício demasiado vergonhoso termos sido reduzidos a tratar da paz com rebeldes, ou melhor, com celerados cuja grande maioria mereceu o cadafalso. Convence-te de que eles nos destruirão se não os destruirmos nós primeiro. Eles não puseram mais boa fé do que nós no tratado assinado, que não lhes deve inspirar nenhuma confiança nas promessas do governo. As duas partes transigiram, sabendo bem que se enganavam. É por causa da impossibilidade em que nos encontramos de esperar que possamos abusar durante mais tempo dos vendeanos, impossibilidade igualmente demonstrada a todos os membros dos três comités, que será necessário procurar os meios de prevenir homens dotados de tanta audácia e actividade como nós. É necessário não adormecer, pois o vento ainda não agita os ramos mais fortes, mas está muito perto de soprar com violência. Aproxima-se o momento em que, segundo o artigo II do tratado secreto, é preciso apresentar-lhes uma espécie de monarquia, e mostrar-lhes essa criança pela qual eles se batem. Seria demasiado perigoso dar uma tal passo; perder-nos-ia para sempre. Os comités apenas encontraram um meio dos bandidos reside no fanatismo que os seus chefes lhes inspiram; importa prendê-los e dissolver assim de um só golpe esta associação monárquica que acabará connosco se não nos apressarmos em evitá-lo. Mas é necessário não perdermos de vista, caro colega, que a opinião cada dia se torna para nós ainda mais necessária do que a força; é preciso tudo sacrificar para colocar a opinião do nosso lado. É necessário fazer supor que os chefes insurrectos quiseram romper o tratado, tornarem-se príncipes dos departamentos que ocupam; que estes chefes têm relações secretas com os Ingleses; que querem oferecer-lhes a costa, pilhar a cidade de Nantes e embarcarem com o fruto das suas rapinas. Faz interceptar correios portadores de cartas deste género, clama contra perfídia e usa sobretudo, neste primeiro momento, de uma grande aparência de moderação a fim que o povo veja claramente que a boa fé e a justiça estão do nosso lado. Repetimos-to, caro colega, a Vendeia destruirá a Convenção, se a Convenção não destruir a Vendeia. Se puderes ter na mão os onze chefes, o rebanho dispersar-se-á. Concerta-te no local com os administradores de Ille-et-Vilaine. Comunica a presente carta imediatamente após a sua recepção aos quatro representantes do bairro. É necessário aproveitar a surpresa e o desânimo que deve causar a falta dos chefes para operar o desarmamento dos vendeanos e do chouans. É preciso que eles se submetam ao regime geral da República ou então que pereçam; nada de meios-termos; nada de meias medidas, elas estragam tudo quando se trata de revolução. É imperativo, se for necessário, empregar o ferro e o fogo, mas tornando os vendeanos culpados aos olhes da nação pelo mal que nós lhe fazemos. Aproveita, caro colega, nós to repetimos, as primeiras aparências que se apresentaram para dar o grande golpe, porque os acontecimentos pressionam de todos os lados [...].»
Por um acaso inaudito, esta carta caiu nas mãos dos chouans em Châteaugiron, em 10 de Junho, quer dizer, dois meses depois da intercepção de um comboio de veneno nos arredores de Ancenis, na quinta de Volfrèse, pelo visconde de Scepeaux: é a estupefacção e a cólera. Em 22 de Junho, por uma proclamação solene aos habitantes do Poitou, de Anjou, do Maine, da Bretanha, da Normandia e de todas as províncias de França, os principais chefes bretões e vendeanos protestam contra o uso de tais métodos e gritam traição. É tarde de mais: os convencionais tinham já trabalhado em profundidade: o desembarque de Quiberon, em 27 de Junho, o golpe de Estado de 13 de Vindemiário (5 de Outubro) farão o resto: a opinião pública nacional passará a considerar para todo sempre os vendeanos e os chouans como homens perjuros.

Fonte: O Livro Negro da revolução Francesa DIR. Renaud Escande