segunda-feira, 18 de julho de 2011

«Liberdade, Igualdade,Fraternidade» Ou a impossiblidade de ser Filho pt 2

Senhor, aquecei os nossos corações, Ámen!

IGUALDADE

Em 28 de Setembro de 11791, um decreto da Assembleia Nacional Constituinte permitia a todos os judeus, vivendo no território francês, tornaram-se cidadãos franceses. Decreto de emancipação. Decreto de assimilação. Decreto de igualdade, de semelhança. Decreto de desaparição.
Por este acto, a Revolução Francesa fez o oposto de um acto político precedente no qual toda a história tinha encontrado a sua fonte, um decreto vindo do próprio Deus: «Eu vi a miséria do meu povo no Egipto e ouvi-o lamentar-se [...]. Eu desci para o livrar das mãos dos Egípcios (Ex 3, 7-8). Deus criou todos os homens no mesmo élan de amor, mas a história destes homens levou-o a fazer uma escolha. Esta escolha não comportava qualquer concessão, era radical e definitiva.
Radical, porque Yahvé não é um árbitro que considere todas as coisas em igualdade, toma a defesa, empenha-se e escolhe o seu campo. O Senhor conduz uma guerra e utiliza os procedimentos que escandalizam: «Yahvé endureceu o coração do Faraó» (Ex 14, 8). Acto incompreensível no nosso tempo de consenso em que se sonha com uma humanidade sem combatentes e de um Deus sem aspereza. Ora, Deus não é um árbitro, é um criador que ama e que se compromete por e nesse mesmo amor. Ele, origem de todas as coisas, escolhe o seu campo, conduz uma guerra quando é necessário, para defender aquele que tem necessidade de ser defendido.
Escolha definitiva porque o amor não se nega nunca (na política como fora dela). Se Deus fez esta escolha de amar Israel mais do que ao Egipto, esta escolha impõe-se a todos, inclusive a todos aqueles que não fazem parte desta eleição, não porque dela sejam excluídos mas, ao contrário, porque também são implicados nesse decreto divino, por essa revelação divina que nos diz a nós alguma coisa sobre o seu amor. A consequência desta eleição dos judeus não é exclusão daqueles que não são judeus porque Yahvé escolheu o povo hebreu para guiar as outras nações: «Sou eu Yavhé [...] Destinei-te a ser aliança do povo, a ser a luz das nações» (IS 42, 6).
Todo o acto político deve encontrar a sua fonte neste acto divino. Todo o acto político é um acto de amor, uma escolha preferencial.
Ora, ao escolher a igualdade para os judeus (e portanto recusando reconhecer-lhes este lugar à parte que Deus lhe conferiu), os revolucionários franceses recusam uma escolha política baseada no amor em benefício de uma natureza humana convertida, sem distância, em direito: os judeus são homens como os outros, portanto cidadãos como os outros. Os judeus devem ser como os outros, tal como propunha o abade Grégoire, em 1788, com o seu Essai sur la Régénération Physique, Morale et Politique des Juifs.
Porque os judeus não puderam entrar À força nessa semelhança que lhes apresentavam: «Tentámos lealmente, em todo o lado, fundir-nos com as colectividades nacionais que nos rodeiam, salvaguardando apenas a fé dos nossos pais... em vão somos patriotas fiéis, até mesmo em certos países patriotas exuberantes; em vão consentimos nos mesmo sacrifícios em dinheiro e em sangue que os nossos concidadãos; em vão nos esforçamos por exaltar a glória das nossas pátrias respectivas no campo das artes e da ciências, e em aumentar as suas riquezas por meio do comércio e das trocas..», nós sabemos como foi resolvida esta impossibilidade da igualdade 150 anos mais tarde.
Uma vez que não puderam ser como os outros, era pois necessária fazer desaparecer fisicamente os judeus, única maneira de criar uma verdadeira igualdade entre os homens. E assim, o projecto político da igualdade irá desembocar na pior das barbáries. O que os revolucionários quiseram fazer (fazer desaparecer os judeus), Hitler consegui-o na Europa. A restrição de Hezrl («a fé dos nossos pais»), que não lhe parece ser mais do que um detalhe, constitui, de facto, a chave da impossibilidade da assimilação. Enquanto se pedia aos outros povos franceses (Bretões ou Borgonheses) para se desprenderem dos privilégios ligados Às suas terras (o que era aceitável para eles, já que este mesmo território passava a fazer parte do único território nacional), os judeus não podiam desprender-se de nada (a terra de um gueto não é uma terra). Eles deveriam ter vendido ao desbarato o que os fazia judeus, mas não se vende ao desbarato a fé dos seus pais.
Foi porque os judeus foram capazes de manter a filiação no cerne das suas vidas («a fé dos nossos pais») que eles não podem ser assimilados por um mundo em que as gerações passaram a ser espontâneas. Mas aqui a filiação não se equipara à genealogia, os próprios pais são referidos a outra coisa para não dizer a Alguém.
Não é apenas porque tinha nascido do seu pai que o rei reinava, isso não era senão o modus operandi da transmissão política. O modus operandi mais banal, mais frágil, o menos meritório possível e é por isso que ele constituía o único poder possível e legítimo, pois ninguém podia orgulhar-se de ser a origem dele. Mas o dom do poder dependia de uma escolha superior, da mesma ordem do que o do povo hebreu contra o povo do Egipto. Esta escolha superior era um decreto divino a que era necessário dar assentimento.
Ao recusar simultaneamente a fonte de origem do poder e o modus operandi do nascimento, os nossos contemporâneos obrigam-se, portanto, a encontrar em si próprios, e em cada geração, as razões de exercer este poder. Encontram-se então condenados a uma eterna autojustificação do poder que exercem. São obrigados a escolher, eles mesmos, o seu próprio nascimento. O modo geracional (somos mais os filhos do nosso tempo do que os filhos dos nossos pais) é concomitante À Revolução Francesa. É por isso que era necessário que o rei morresse, mas também o seu filho, a fim de que não houvesse mais filiação.
A partir da Revolução, deixámos de ser os filhos dos nossos pais, somos da mesma geração. Tentamos encontrar por nós mesmos razões de existe pelo facto de que nascemos ao mesmo tempo. O tempo engendra-nos mais do que os nossos pais o fizeram. A primeira dessas gerações foi a geração romântica, a última foi a geração de 68 (entre elas, alternam-se dois tipos de geração, uma geração dos fundadores e uma geração sacrificada). Exit o nascimento, não existimos senão por bloco geracional. Ora uma geração não cria irmãos, cria indivíduos justapostos que passarão o seu tempo a tentar compreender o que os liga a esses outros indivíduos, que não são os seus irmãos, nem os seus pais, de quem todavia nasceram. É o princípio dos sinais dos tempos. À falta dos nossos pais, fala-nos o tempo e é necessário, segundo a expressão canonizada mesmo pela Igreja Católica, «ler os sinais dos tempos».
Nesta história, onde as gerações se sucedem diferenciando-se, cada uma de entre elas, num movimento que ela acredita ser generoso, quer que a seguinte seja composta não por herdeiros, mas por fundadores. Cada geração política quer que a segunda recrie o mundo. Grito desesperado dos pais que se apercebem de que não conseguiram de maneira alguma transmitir mais do que o vazio e o caos.
Cada sucessão de gerações sem herança possível não deixa qualquer possibilidade de escolha: por conseguinte, trata-se apenas de apressar a catástrofe, visto que nada é transmissível: desde os fascistas dos anos de 1930 à esquerda radical deste começo de milénio, trata-se realmente disso: apressar a catástrofe porque nada recebemos e nada podemos transmitir.

Fonte: O Livro Negro da revolução Francesa DIR. Renaud Escande

segunda-feira, 11 de julho de 2011

«Liberdade, Igualdade,Fraternidade» Ou a impossiblidade de ser Filho pt 1

Senhor aumentai os frutos do nosso trabalho, Ámen!

Não consegui deixar de postar mais alguns textos do «Livro Negro da Revolução Francesa», porque são de facto tentativas de análises profundas que têm em conta as estruturas mentais históricas que foram criadas ou existem ao longo dos séculos e evoluem de forma muito lenta e ao contrário das análises superficiais, entendem a importância destas estrutura para o próprio sustentação de qualquer conjuntura política, e especialmente são o fundamento de uma civilização..

Bom vamos ao texto..

Algo na Revolução Francesa encontra a sua fonte no espírito cristão. A fraternidade - «Todo aquele que faz a vontade de Deus, esse é meu irmão» (Mc 3, 35) -, a liberdade - «A verdade vos libertará» (Jo 8, 32) -, a igualdade - «já não há escravo nem homem livre» (Gal 3, 28) fazem parte, desde há séculos, da tradição cristã até ao ponto de esta Revolução, antes da viragem do Terror, suscitar o entusiasmo de numerosos eclesiásticos. O irmão dominicano Henri-Dominique Lacordaire, alguns anos depois dela, defendida ainda a compatibilidade entre a divisa republicana francesa e o espírito cristão até que se deu conta da utilização perversa das palavras cristãs pela República. É assim que ele, o arauto dos católicos liberais, o reconciliador da Igreja e do século, recorda em 1848 aos defensores do liberalismo que «entre o forte e o fraco, entre o rico e o pobre, entre o patrão e o escravo, é a liberdade que oprime e a lei que liberta.»
E, de facto, duzentos anos mais tarde, o balanço político da divisa republicana não é bom: é falso no que respeita à liberdade, catastrófico quanto à igualdade e enganoso para a fraternidade. O que é que se passou então? Teria havido somente atraso na aplicação deste programa, como sublinham os republicanos que parece estarem de boa-fé? Ou então, a perversão dos valores cristãos ter-se-ia revelado inerente à antropologia dos revolucionários.
Enquanto se reclamavam dos valores evangélicos, os revolucionários, ao expulsarem Deus, separaram-se da fonte sem a qual não se podem reconhecer os frutos. Por isso, uma liberdade que não é outorgada por um Pai é um movimento incoerente; uma igualdade que não reconhece a escolha preferencial de uma amor é enganosa e uma fraternidade que se auto-proclame sem referência a uma origem comum é, muito simplesmente, falsa.
Querer matar o Pai pretendendo ao mesmo tempo guardar os valores legados por ele, é impossível.
A França esperava da celebração do bicentenário da Revolução um verdadeiro balanço político; não tivemos senão uma auto-celebração que escondia mal a recusa de olhar a realidade política de frente. Portanto, impõe-se hoje tentar compreender os fundamentos antropológicos da monarquia e da república, a fim de fazer um honesto inventário da situação política em França. Do lado da monarquia, há duas maneiras de militar: a primeira por pura nostalgia (é esta muitas vezes a postura de uma aristocracia que, pela sua atitude irresponsável, tem alguma coisa a ver com o fracasso da monarquia); a segunda consiste em recordar que há, na prática da filiação monárquica, um princípio de que o político não pode prescindir, correndo o risco de conduzir o mundo às portas do caos. Quanto ao republicanos, sem nos dizerem qual é o homem em que acreditam e a que aspiram, não podem fazer compreender o que se sinta por trás destas três palavras sésamo (liberdade, igualdade, fraternidade) que se pretende abrirem a porta à felicidade.
Começaremos este estudo pela igualdade, porque nela reside o pecado original de toda a divisa. O desconhecimento da liberdade e da fraternidade encontra a sua fonte nessa falsa concepção da igualdade.

Fonte: O Livro Negro da revolução Francesa DIR. Renaud Escande

domingo, 19 de junho de 2011

Do deserto jorra uma Fonte

Senhor!

Nestes últimos meses pus-me a postar textos do Livro Negro da Revolução Francesa, um livro escrito por vários especialistas e professores universitários e no qual recomendo. O antigo regime colapsou, nasceu uma nova religião, mudaram-se os tempos e foram ressuscitadas reminiscências egípcias e babilónicas, por isto tudo, compreende-se que o espírito que animou a Revolução não foram as injustiças materiais, mas foi um espírito religioso anti-católico.. Espero que os textos retirados do livro tenham sido esclarecedores sobre a ruptura ocorrida e que levou ao colapso do antigo regime e do reinado social de Nosso Senhor Jesus Cristo.
Para quem ainda não leu e quiser ler basta ir aos postagens anteriores sobre a revolução que começam basicamente em Janeiro, e foram postados à média de 1 por semana, não consigo ter um ritmo maior, devido ao tempo que dedico à universidade e agora entrei em épocas de exames, por isso não sei se conseguirei postar muito mais neste mês.. Este blog foi criado com a intenção, como diz na descrição, de combater o modernismo na sociedade e principalmente na Igreja, era importante para isso que a missa gregoriana conhecida por tridentina, liberada pelo Papa Bento XVI começasse a fazer o seu caminho em Portugal o que infelizmente ainda não aconteceu.. Para isso é preciso haver grupos de fiéis que peça aos Párocos e possa assistir regularmente na mesma região o que também é difícil de reunir.. Como S. Paulo escreve, nós já não vivemos segundo a carne, mas sim segundo o Espírito, por isso devemos sempre dar, iluminar, aquecer mais do que o mundo espera de nós, e também devemos ser vigilantes porque carregámos um tesouro maior do que nós próprios, pois Cristo disse que nós somos Templo de Deus, e não devemos descuidar para não descarrilar neste vale de lágrimas, por isso é nosso dever saber conservar aqui na terra o que nos foi dado do céu. Se nós não cuidámos de nós, ninguém cuidará.. ainda que a fraqueza seja muita, a tristeza inevitável, e o desespero convida-se a entrar no nosso coração, a Fé e a Esperança protegem o nossa mente e coração de qualquer frustração e ressentimento contra as cruzes que carregámos conjuntamente com a Igreja que tarda a iluminar, num mundo sedento de Deus mas que só tem tesouros perecíveis.. Deus retirou da cruz, a salvação, da morte a vida, por isso nos tempos difíceis que correm, principalmente em Portugal com a crise económica, devemos saber meditar como Deus age e pedir-lhe que mais uma vez faça jorrar do deserto dos corações dos homens, rios de abundância e alegria. Pedir a Deus que nos dê ciência, sabedoria e fortaleza para conservar aquilo que nos deu..

sábado, 4 de junho de 2011

Revolução e Antigo Regime part II

Senhor vós sois o Deus dos vivos, não dos mortos, enviai a vossa graça, Ámen!

É este princípio que importa agora descrever. Na teologia política cristã tradicional, datando da época constantiniana, qualquer soberania e qualquer legitimidade política vinha de Deus, e mais precisamente de Jesus Cristo, ao mesmo tempo rei e sacerdote, rei enquanto representando o seu povo junto do Pai, e sacerdote enquanto ofertando ao Pai o seu sacrifício perfeito, porque divino, em reparação dos pecados da humanidade decaída. Ora, os cristãos, pelo sacramento do baptismo, graças ao qual eles se «revestem» de Cristo (Gal 3,29), participam assim da realeza sacerdotal de Cristo; passa-se o mesmo, de maneira plena, com os sacerdotes e os bispos, por efeito de um sacramento especial, mas também com os reis e, muito particularmente, com o rei de França, que beneficiava, desde a sagração de Clóvis em Reims, de uma unção que lembrava a dos antigos reis de Israel e fazia da França a filha primogénita da Igreja. Esta unção fazia do rei o representante de Cristo sobre a Terra, pelo menos no que concernia aos assuntos temporais. nesta qualidade, o rei era teoricamente independente em relação às leis, em virtude da máxima de Ulpiano: princeps legibus solutus est; mas mantinha-se ao mesmo tempo ligado às leis e aos costumes do reino, que a tradição jurídica designava por «constituição francesa», assim como à lei natural. A contradição era geralmente resolvida lembrando o exemplo da submissão voluntária de Cristo à lei, e fazendo do rei (ou o imperador) uma «lei viva» (lex animata). Além disso, a monarquia francesa tinha igualmente a obrigação de respeitar costumes e privilégios. E assim, a verdade é que o rei continuava a representar a fonte de direito. É por este motivo que, em 1787, o próprio Luís XVI poderá replicar ao duque d'Orléans: «É legal porque eu assim o quero.»
Fazendo eco à cristologia paulina, onde Cristo é o esposo e a cabeça da igreja, a teologia e o direito consideravam o rei como esposo da nação, o marido da República, já que esta era tradicionalmente simbolizada por uma figura feminina. Esta relação esponsal, concebida juridicamente como um contrato sinalagmático, impunha ao rei e à nação um determinado número de obrigações. De um modo mais geral, a relação entre o rei e os seus vassalos era concebida sobre um modelo familiar que o próprio Luís XVI reclamava para si mesmo, afirmando que «tudo o que o pai deve ais seus filhos, o irmão aos seus irmãos, o amigo ao seu amigo, o príncipe deve-o aos seus vassalos»; ou ainda: «O rei, o pastor, o pai, é uma só e mesma coisa.» O rei devia-se aos seus vassalos e os vassalos deviam-se ao rei. Luís XVI escrevia assim: «Como nada os [meus povos] pode dispensar, quando eu for injusto ou tirano, de me serem submissos, se por seu lado todos, se por seu lado todos eles violassem os seus deveres para comigo, nada me poderia subtrair à obrigação de cumprir os meus para com eles». Para o rei, isso podia ir precisamente até ao sacrifício. assim, como escreveu um jurista da Idade Média, Aeneas Silvius: «O próprio príncipe, cabeça do corpo místico da respublica, é obrigado a sacrificar a sua vida cada vez que o bem comum o exige.» Do mesmo modo, Luís XVI às delegações dos guardas nacionais, em 13 de Julho de 1790, falando dos franceses: «Dizei-lhes que, se não posso deslocar-me convosco aos seus asilos, quero aí estar pela minha afeição e pelas leis protectoras do fraco, velar por eles, viver para eles, morrer, se for preciso, por eles.» Luís XVI era, aliás, dotado de um carácter profundamente bom, que infelizmente foi assemelhado à fraqueza; esse carácter tinha chamado especialmente a atenção de Benjamin Franklin quando conviveu com ele: «Nenhum soberano que algum dia reinou teve, inegavelmente, mais bondade no seu coração, nem possuiu em maior grau o leite da ternura humana que Luís XVI». Esta qualidade parece de resto ter sido o apanágio da sua linhagem, pois lemos numa carta de John Adams a Thomas Jefferson em 1814: «O leite da ternura humana dos Bourbons confere mais segurança à humanidade do que a ambição desmedida de Napoleão.
De uma maneira geral, o rei de França era a pedra angular de toda a ordem jurídica e social; era também obrigado, pela sua sagração, a ser o protector da Igreja. Neste contexto, o regicídio - no sentido da destruição do princípio real - visava destruir o elo entre o rei e a República, e, por conseguinte, entre Cristo - ou a Igreja - e a França e, consequentemente, destruir toda uma civilização que a pouco e pouco desabrochara e se tinha expandido na Europa ocidental, até mesmo o próprio cristianismo. É, evidentemente, ao espírito da Revolução que se deve imputar o regicídio. Este espírito consiste numa visão do mundo profundamente secularizada, colocando como fundamento da soberania a natureza, em vez de uma divindade revelada. Ele incluiu as Luzes newtonianas, mistura curiosa de cientismo e de esoterismo que se encontra na franco-maçonaria, as Luzes francesas, que não são senão uma adaptação superficial desta últimas ao grande público francês, enxertando-as no jusnaturalismo descristianizado da oposição parlamentar, prevalecente à época nos meios intelectuais.

Fonte: O Livro Negro da revolução Francesa DIR. Renaud Escande

domingo, 29 de maio de 2011

Revolução e Antigo Regime part I

Enviai um Cirineu Senhor, para que possamos levantar-nos e levar a nossa cruz, Ámen!

A morte do rei Luís XVI, em 21 de Janeiro de 1793, representa um momento chave da Revolução Francesa. É comummente aceite que o acontecimento acelerou consideravelmente o desenvolvimento da violência política institucionalizada, de que ela foi como que o primeiro acto, e que este demarca claramente aquilo que se costuma designar por primeira Revolução, burguesa e liberal, de 1789-1791, e a segunda Revolução, popular e violenta, que é a do Terror. Esta simples constatação revela, na pessoa de Luís XVI, uma dimensão insuspeitada, como se ele tivesse organizado com a sua presença e a sua ausência alternadas a grande dramaturgia da Revolução.
É necessário distinguir dois tipos de regicídio. No primeiro, trata-se de matar, ou assassinar, um rei de quem se contesta a personalidade, ou a política. Por exemplo, o integrista Ravaillac contra Henrique IV, ou ainda Damiens contra Luís XV. Neste caso, o gesto regicida, longe de contestar a monarquia de direito divino, idolatra-a, fazendo dela uma norma utópica ideal e que se deve colmatar o insuportável afastamento, atacando a pessoa humana e falível que é dela depositária. No segundo caso, trata-se , ao contrário, de atingir a monarquia de direito divino no coração, de a destruir no seu cerne ao aniquilar o rei a encarna. A morte de Luís XVI participa deste segundo tipo de regicídio.
Aliás, é por essa razão que o regicídio revolucionário não se reduz à exclusiva morte de um homem, mas ataca também a família, a família real, e, através deles, um regime, a monarquia de direito divino, um tipo de sociedade, a França católica e monárquica do século XVIII, uma civilização, a civilização cristã de estilo constantiniano e, em última análise, um principio, a realeza sacerdotal de Cristo como pedra angular do edifício social e religioso do Ancien Regime. Com efeito, vista deste ângulo, a Revolução não foi mais do que um longo regicídio: a afirmação do terceiro estado em Assembleia Nacional representativa - fora dos quadros da legitimidade régia tradicional -, encerramento do rei nas Tulherias, Constituição Civil do Clero - que contradiz o papel tradicionalmente protector do rei para com a Igreja -, Constituição de 1791 que confere a soberania exclusivamente à nação, proclamação da República, processo do rei, condenação e morte, morte da família real, descristianização forçada, etc. Deste ponto de vista, a continuidade entre as diferentes fases da Revolução Francesa surge de maneira mais nítida. A primeira de entre elas leva insensivelmente à morte do rei, que, por sua vez, precipita os acontecimentos e mergulha a França no Terror. Verifica-se, portanto, uma unidade orgânica das duas revoluções, que formam assim um «bloco», no qual a morte do rei toma um relevo inesperado.
Donde procede, pois, o regicídio? É necessário notar que a dinâmica da Revolução não poderá reduzir-se a causas puramente materiais, sociológicas ou económicas. De facto, as condições de vida na França de 1789 são melhores do que no passado, e quase idênticas às dos franceses sob a restauração. Se aqui e acolá há crises e fome, elas por si sós não podem motivar mais do que revoltas, mas não revoluções - de tal modo o regime nessa época é sentido como legítimo. Conclui-se daí que é necessária uma dimensão espiritual e ideológica para catalisar o descontentamento e as ambições insatisfeitas e empurrar para uma mudança de regime e de civilização que, à partida, não é desejada por ninguém. Pode-se assim opor, como o fizeram numerosos autores , por exemplo Michelet, o espírito da Revolução ao espírito do cristianismo, que se combatem numa nova guerra de religião - o espírito da Revolução, mantendo-se apesar das aparências tão religioso quanto o espírito do cristianismo. Seria excessivamente longo fazer aqui uma descrição desses dois espíritos, que se deixam apreender como um complexo doutrinal mais ou menos coerente, condicionando os juízos de valor, investindo nas motivações das pessoas, transformando as estruturas sociais e imprimindo nelas a sua dinâmica própria. Nesse contexto, a morte de Luís XVI já não aparece como um acontecimento histórico isolado, mas como um fenómeno emblemático da oposição de dois espíritos: um homem encarnando um determinado princípio é condenado e morto a fim de que este princípio não possa mais influenciar o desenrolar das questões humanas.


Fonte: O Livro Negro da revolução Francesa DIR. Renaud Escande

domingo, 22 de maio de 2011

O sacríficio do Rei III

Somos pó, mas Deus nos Ama, Ámen!

Seja como for, a morte de Luís XVI surge como um enigma impenetrável à consciência do nosso tempo, sinal insistente e inevitável que remete para uma outra ordem de coisas, uma economia insuspeitada da existência terrestre que parece ultrapassar e contradizer os esquemas mentais mais comummente aceites: paganismo, espiritualismo, ateísmo, racionalismo... Centro secreto e alicerce oculto da modernidade, o sacríficio do rei parece ter sido rasurado pela normalização historiográfica, relegado como uma antiguidade para sempre cristalizada num passado morto, que um punhado de nostálgicos quererá depois brandir como se fosse um espectro. De facto, Jaurès, numa passagem célebre, dirá também dos reis da Restauração, aliás enfeudados à nova religião: os reis poderão por momentos regressar. Faça-se o que se fizer, doravante não serão mais do que fantasmas.» Fantasmas, com efeito, ecos enfraquecidos do rei sacrificado, cujos passos sobre o cadafalso não cessam, no entanto, de ressoar nos corredores da história da França, como sobre os terraços do castelo de Elsenor. Mas este rei sacrificado não é um fantasma, continua ainda vivo. Com efeito, pela sua abnegação, coragem e dedicação, Luís XVI representa um exemplo de vida, a do único grande homem da Revolução, sem dúvida, aquele que ninguém soube ver e escutar. E, inversamente, poderá bem acontecer que, superando por fim as aparências, se descubra um dia, sob o espírito da Revolução, sob os seus sonhos pseudomessiânicos de uma nova ordem e das suas exigências de «sacríficio infintio» (Michelet), um espectro caricato que dia após dia vai tentando arrastar a humanidade cativa para as trevas e para a morte - um «espectro que atormenta a Europa», como dizia Marx referindo-se ao comunismo. Talvez um dia, sem ilusão e sem nostalgia, saibamos voltar-nos para Luís XVI para esconjurar todos esses fantasmas e aprender com ele os mistérios da vida, do sofrimentos, da morte e da ressurreição:

- E verei eu o bosque amarelo e o claro vale,
A Esposa de olhos azuis, o homem de fronte vermelha, ó Gália
E o branco Cordeiro Pascal, a seus amados pés,
- Miguel e Cristina -, e Cristo! - fim do Idílio.

Henri Beausoleil, Filósofo

Fonte: O Livro Negro da revolução Francesa DIR. Renaud Escande

sábado, 14 de maio de 2011

O sacríficio do Rei II

Que tudo vá-lhe a pena, porque assim permitiste Senhor, Ámen!

O futuro do ministro da Justiça de Napoleão, Fouché, fala assim de um assustador sacrifício, efectuado ao «imolar o representante da realeza, o pai da monarquia, para edificar uma República». Michelet, aliás hostil ao regícidio, traça um paralelo com os antigos Romanos: «Que fizeram os Romanos para fundar o seu Capitólio e dotá-lo de eternidade? Puseram nos seus alicerces uma cabeça sangrenta, sem dúvida a cabeça de um rei.» Evidentemente, o sacrifício em questão, longe de estabelecer a paz civil, de facto permitiu o Terror e as guerras revolucionárias.
A fundação da República coincide, precisamente, com este impulso messiânico que deve fazer saltar o ferrolho das antigas fronteiras naturais da França e revolucionar o mundo inteiro pelo Terror e pelo sangue. E o sacrifício de Luís XVI, verdadeira declaração de guerra ao mundo antigo, foi o acto que venceu as últimas resistências. Jaurès cita nesse sentido um contemporâneo, um certo Prudhomme, que escreve: «A liberdade assemelha-se a essa divindade dos Antigos, que só podia tornar.se propícia e favorável se lhe fosse oferecida em sacrifício a cabeça de alguém carregado com uma grande culpa. Os druidas prometiam a vitória aos nossos antepassados, que partiam para uma segunda campanha, quando traziam de regresso da primeira uma cabeça coroada sobre o altar do Hércules gaulês.» Michelet pensa da mesma maneira: «Muitos acreditam que não se podia passar a fronteira sem ser sobre o corpo do rei, que era preciso um sacrifício humano, um homem imolado ao Deus das batalhas» (IV, 254). Desaparecido o rei, desapareciam os limites que continham a hubris revolucionária dentro de justos limites, e eis a nova religião lançada à conquista do mundo, jorrando das suas fronteiras para impor ao mundo a sua «nova ordem dos séculos».
O estatuto sacrificial da morte do rei terá também sido notado por um historiador e homem político como Jaurès - que, de resto, na sua Histoire de la Révolution, não pode impedir-se de se imaginar a interceder pelo rei e a arrancar à convenção em lágrimas a sua sobrevivência. Vê-se obrigado a reconhecer na morte de Luís XVI uma «transposição estranha da crença cristã», onde «toda a humanidade se associa à morte daquele que ela faz rei [...]»; por isso «é um ser novo que vai surgir» graças ao sacrifício de Luís XVI, que abre uma «fonte», uma «nascente de sangue e de regeneração: fons lavacri et regenerationis» que serve de nova pia baptismal à civilização que vai nascer. Contudo, uma coisa o deixa perplexo: a «contradição inquietante» imanente à morte de Luís XVI; ela é simultaneamente «sinal de um mundo novo», ateu e democrático, e, ao mesmo tempo, «diga-se no passado à longa cadeia de superstições sangrentas». A contradição desaparece quando se compara sacrifício cristão e pré-cristão; a superação do cristianismo não significando qualquer outra coisa do ponto de vista de uma misteriosa economia espiritual, que o regresso aos sacrifícios pré-cristão; o das pombas e dos touros na Grécia e em Israel, o dos pharmakoi atenienses, o dos milhares de vítimas humanas nos templos azetecas -e, na nossa época, o sacrifício de dezenas de milhões de seres aos novos ídolos da raça, da nação, da classe e do progresso, ou ainda as hecatombes ordinárias e extraordinárias da nossa civilização de que fala Michel Serres nas suas Statues, desde os acidentes rodoviários à explosão do vaivém espacial Challender.
Mas a morte de Luís XVI pode ser encarada de uma forma totalmente oposta ao sacrifício neo-pagão que os revolucionários vêem nele, quer dizer, como uma figura do sacrifício cristão, não sendo as duas leituras forçosamente contraditórias. Já Sansão e Edgeworth tinham entrevisto o significado cristológico da morte de Luís XVi: «[O rei] suportou tudo isto com sangue-frio e uma firmeza que nos deixou surpreendidos. Continuo muito convencido de que tinha haurido esta firmeza nos princípios da religião de que ninguém mais do que ele parecia penetrado e persuadido.» paul e Pierrette Girault de Coursac esboçaram deste modo um paralelo entre a morte do rei de França e certas cenas da Paixão. Jesus foi condenado à morte pelos fariseus que seguiram o conselho do sumo-sacerdote Caifás: «Convém-vos que morra um só homem pelo povo para que não pereça toda a nação» (Jo 11, 49). Luís XVI foi condenado À morte para o bem da República: «Luís XVI deve morrer para que a pátria viva» (Robespierre). Foi conduzido ao cadafalso como jesus À cruz. Os soldados apoderaram-se de Jesus para lhe amarrarem as mãos: «O tribuno e os seus ajudantes apoderaram-se de Jesus e ligaram-lhe as mãos» (Jo 28,12). Tambémm a Luís XVI ligaram as mãos. Jesus, sobre a cruz, implorou o perdão de Deus: «Pai, perdoai-lhes porque eles não sabem o que fazem» (Lc 23,34). Também Luís XVI foi o primeiro a perdoar ao «povo que estão a extraviar». «Os Franceses são bem desventurados por se deixaram assim enganar.» Depois, antes de subir para a guilhotina, teve estas palavras: «Peço a Deus que o sangue que ides derramar nunca caia sobre a França.» Os soldados, depois da morte de Jesus, «tomaram as suas vestes e dividiram-nas em quatro partes, uma para cada soldado» (Jo 19,23). Também a multidão partilhou o vestuário de Luís XVI depois da sua decapitação. A multidão que assistiu à morte de Jesus assumiu a sua responsabilidade: «E todo o povo respondeu: "Que o seu sangue caia sobre nós e sobre os nossos filhos"» (Mt 27,24). De igual modo os republicanos: «Um cidadão sobe para a guilhotina, mergulha o braço no sangue, apanha uma mão-cheia de coágulos e asperge por três vezes a multidão dos assistentes que recebem, cada um deles, uma gota sobre a testa: "Irmãos, ameaçaram-nos de que o sangue de Luís Capeto cairia sobre as nossas cabeças: pois bem, que ele caia; Luís Capeto lavou tantas vezes as mãos no nosso! Republicanos, o sangue de um rei traz felicidade".» O que recorda igualmente a teologia paulina da epístola aos Hebreus: «Segundo a Lei, quase tudo é purificado pelo sangue, e sem efusão de sangue não há remissão» (HEb 9,22). Depois da morte de Jesus, «toda a multidão [...] se foi embora batendo no peito» (Lc 23,48). Da mesma maneira, Paris ficou em estado de choque. Finalmente, o dia da morte de Luís XVI, 21 de Janeiro, é também o dia da festa de Santa Inês, nome cuja origem vem desse meigo animal que é o cordeiro. Este paralelo revela talvez a verdadeira personalidade de Luís XVI: cordeiro destinado ao sacrifício. A sua repugnância, ou, mais precisamente, a sua incapacidade para fazer verter sangue, a sua pretensa fraqueza, não eram mais do que a expressão de uma profunda humanidade, que contrasta tão vivamente com a frieza rectilínea dos revolucionários jacobinos.

Fonte: O Livro Negro da revolução Francesa DIR. Renaud Escande