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sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Ratzinger e a Lei Natural

Pela tradição em Portugal, Ámen!

Se de facto pouca gente do mundo, segue a lei da Igreja no que se refere ao uso do preservativo, que se fundamenta na lei natural e enriquecida pela Revelação, deixo um pequeno trecho, do livro: Existe Deus? - Ateísmo e Verdade - Joseph Ratzinger, Paolo Flores DÁrcais; no qual o Cardeal Ratzinger, hoje Papa Bento XVI, refuta a novidade e a mutabilidade da lei natural, como um expediente usada por parte da Igreja nos séculos XIX e principalmente XX, para defender e resguardar a evidente fraqueza das convicções e da fé Católica do mundo contemporâneo.

Gad Lerner: Gostaria de citar, se me permitirdes, a objecção de um pensador laico italiano, Gian Enrico Ruscini, que, por outro lado, é de matriz Católica, foi um crente que hoje reflecte sobre a crise, por ele qualificada de paralela, do pensamento laico e da teologia católica. Afirma ele que existe uma forte crise paralela, em que a insistente referência da teologia ás leis naturais constituiria justamente um «salva-vidas» em relação ao enfraquecimento da solidez dos princípios e das certezas do passado. E essa centralidade que a defesa da vida humana assumiu na doutrina seria, precisamente, uma aquisição recente, não absoluta e permanente da história da Igreja.

Joseph Ratzinger: Eu diria duas coisas. Primeira questão: houve um certo exagero no uso da referência à lei natural, na doutrina social da Igreja, nascida no final do século XIX, e depois no século XX, até ao Concílio Vaticano II. Houve excessos. Mas essa referência [ao direito natural] um pouco - digamos - exagerada, não impede que ela esteja já presente em S. Paulo, que fala da katanoesis [a palavra grega não é de todo certa].
É uma palavra de que indica circunspecção pela criação e a profunda convicção de que a criação fala de Deus e, portanto, também do homem. Encontramo-la também no Antigo testamento; por isso, sobre a expansão da lei natural, e até onde deve ela chegar, pode e deve discutir-se. Mas, sobre o facto de que os cristãos sempre consideraram a criação como uma realidade em que está presente o logos - e, portanto, não apenas uma estrutura matemática, mas também uma indicação da vida correcta - isso é realmente uma herança dos começos.
Também é certo que, digamos, a atenção concedida à defesa da vida humana é hoje maior do que no passado e, nesse sentido, é igualmente uma característica específica do nosso século, no qual tivemos, afinal, a experiência de uma crueldade e de um desprezo do ser humano, que nos deve manter despertos.
Mas eu diria, nunca se pensou que o homem chegaria a dispor do ser humano, da vida humana. [FIM]

Infelizmente, temos que dizer que Ratzinger hoje como Papa, nas suas imprudentes palavras confundiu o mundo, ao fazê-lo crer que desistiu e cedeu um pouco mais no dever de restituição da verdadeira dignidade do ser humano. O que não é verdade, como podemos ver acima.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Cardeal Ratzinger e o Concílio Vaticano II

Patrick Bahners e Christian Geyer: Para terminar, Eminência, voltemos a falar da teologia à escala mundial. No inicio do novo milénio, tem-se a impressão de que as dificuldades de entendimento entre as posições teológicas singulares dentro do cristianismo se tornaram tão clamorosas que levam a falar, não já de diferentes polaridades pertencentes a um mesmo espectro, mas de constelações realmente distintas, cada uma das quais convive ao lado das outras de modo mais ou menos independente. nesta situação, constata-se a exigência de convocar um novo Concílio ou um sínodo geral para pôr sobre o tapete, e possivelmente, resolver de comum acordo os conflitos subsequentes às resoluções do Concílio Vaticano II.

Cardeal Ratzinger: Conheceis porventura a anedota de que se conta acerca de Gregório de Nazianzo, Bispo e Padre da Igreja. Convidado pelo imperador a tomar parte no Concílio de Constantinopla, respondeu-lhe numa carta - Nunca mais participarei num Concílio, porque aí vi apenas lutas, hostilidades e conflitos intermináveis. Os Concílios servem para piorar as coisas - esta foi a foi a experiência conciliar de Gregório no século IV e, do ponto de vista da perspectiva histórica de curto raio, temos de lhe dar razão. Todavia, numa visão mais ampla, é justo dizer que aqueles Concílios tiveram uma importância fundamental e favoreceram positivamente a obra de clarificação desenvolvida pela Igreja perante a sua fé. Mas, no tocante àquela carta - que Lutero citará com predilecção, exprimindo assim também a sua própria desilusão frente ao Concílio - pois bem, ela atesta que um Concílio representa sempre uma dura intervenção no organismo da Igreja, algo qe eu comparo a uma perigosa operação cirúrgica, no sentido de que, por vezes, a intervenção drástica é efectivamente necessária para a saúde de um organismo. Mas, justamente, importa ter também presente que qualquer intervenção cirúrgica comporta, antes de mais, debilidade e complicações, e não equivale necessariamente à cura.
Em suma, constatamos - e ninguém pode seriamente negá-lo no plano empírico - que o Concílio Vaticano II comportou uma enorme perturbação na Igreja Católica e também em toda a Cristandade (A Igreja acolheu no seu seio o modernismo humanista que endeusa o homem, o liberalismo dos Estados laicos, o protestantismo ecuménico). Pessoalmente afirmo que, enquanto este mal-estar não for de todo ultrapassado, uma outra intervenção desta natureza traria actualmente mais sofrimento do que uma melhoria. Considero, pelo contrário, necessário incrementar os mecanismos de consulta e de encontro; o sínodo dos bispos é apenas um deles. Creio que as formas de confronto menos centralizadas e menos espectaculares são as mais fecundas, porque permitem um debate mais aprofundado (é o que aparentemente acontece hoje no pontificado de Bento XVI, com o diálogo silencioso com a FSSPX, mas muito importante para a barca de Pedro), recebem menos pressões do exterior e podem, inclusive, levar a processos de maturação mais ponderados. Na minha opinião, deveriam, hoje, buscar-se modelos mais amplos de participação do episcopado mundial, capazes de garantir, por seu turno, a ligação entre as diferentes realidades regionais. Realizar-se-ia assim, a longo prazo, algo como um Concílio ecuménico, mas que teria a vantagem de uma lenta maturação e da consciência histórica.

Em o Cristianismo para lá da tradição do Livro: Existe Deus? Um confronto sobre verdade, fé e ateísmo - edição Pedra Angular

Nota: O negrito fui eu que pus. E o que está entre parêntesis são comentários meus!