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quinta-feira, 7 de novembro de 2013

O Estado Confessional e a Monarquia Constitucional

Quando a propaganda Republicana afirma que a Monarquia Constitucional falhou em separar a Igreja e o Estado, fala com rara, quase inédita, razão. Infelizmente para eles, essa razão não caminha no sentido que eles pretendem. 
 A encíclica "Rerum Novarum", que dá corpo à Doutrina Social da Igreja, foi entregue pelo Papa Leão XIII à comunidade católica em 1891. O governo português, que de toda a herança dos tempos do Absolutismo manteve, oportunamente, o beneplácito régio (antigo costume jurídico que fazia depender de autorização régia a publicação e circulação de documentos pontifícios em Portugal), optou por reter o beneplácito necessário à publicação do documento até depois de 1892. O conteúdo de interesse social desse documento revolucionário, especialmente na sua atenção ao direito de associação dos trabalhadores, opunha-se à doutrina liberal e aos interesses económicos dos poderes que sustentavam o regime constitucional. 
 Da mesma maneira, em 1884, é lançada a "Humanes Genus" pelo mesmo Papa, contra as sociedades secretas, resolvendo o governo da Monarquia "Fidelíssima" não permitir a sua circulação de todo, admoestando aqueles que a divulgassem, como aconteceu com D. Tomaz Gomes de Almeida, bispo da Guarda. Era este o Estado Confessional deposto em 1910. Não admira pois que a maioria do País Católico não tivesse levantado uma palha em prol da defunta e decadente Monarquia do trapo azul e branco. A República seria um Inimigo, mas um inimigo visível e de intenções claras e sobejamente conhecidas. Não valia a pena, de todo, para a hierarquia da Igreja Católica gastar energias a trocar este novo obstáculo pelo cancro parasitário da Monarquia Constitucional.

sábado, 15 de setembro de 2012

Tal como disse Miles, no blogue A Cigarrilha de Chesterton, sou pela ideia de uma Monarquia Cristã e Social, em vez de uma Democracia Cristã. No entanto, concordo com este texto. 


Ora, o governo de Passos Coelho tem-se mostrado, na sua prática política, contra a doutrina social da Igreja Católica — o que o incompatibiliza com qualquer movimento político da democracia cristã — quando, por exemplo, pretende agora transferir directamente [e escandalosamente], com uma lei da Taxa Social Única (TSU), e por via administrativa, uma parte substancial dos rendimentos do trabalhador para os bolsos dos ricos e dos patrões. Do ponto de vista da doutrina social da Igreja Católica, esta medida é inadmissível e intolerável.

 Passos Coelho faz parte de uma nova geração de políticos sem escrúpulos, sem memória ética, formatados na filosofia barata hayekiana e no cepticismo moral e ético de David Hume que caracteriza a ideologia neoliberal de Hayek, providos de uma ética teleológica que não olha a meios para atingir os seus fins. A diferença substancial entre Passos Coelho e José Sócrates é nenhuma: ambos não podem ter o apoio de um democrata-cristão. Porém, sabemos que a situação de Portugal obriga a certos compromissos com o “diabo” — o que não significa que não tenhamos que impôr ao “diabo” a nossa mundividência ética. 

 Se Passos Coelho não recua nesta medida da TSU, qualquer democrata-cristão tem a obrigação moral de procurar alternativas políticas para o nosso país. Ou seja, significa uma crise política e o derrube deste governo, e a formação de um novo governo de salvação nacional de iniciativa presidencial, com um novo primeiro-ministro, e com um largo consenso político.

sábado, 10 de julho de 2010

Ordem do Templo, São Bernardo e os Cistercienses na Fundação de Portugal III

Os cistercienses escolheram para capital o vale formado pela confluência dos rios Alcoa e Baça, chamada a essa nova cidade Alcobaça. O castelo sobranceiro à colina, mandado erigir por D. Afonso Henriques para protecção dos monges, foi posteriormente destruído por terramotos e caçadores de tesouros.O Mosteiro de Santa Maria de Alcobaça, que além de ser o mosteiro situado mais a sul de entre os 340 que os cistercienses construíram por toda a Europa, a mando de São Bernardo, é um dos cerca de duas dezenas que ainda existem em Portugal. A sua Igreja é, talvez, o mais belo exemplo que resta da arquitectura medieval cisterciense, suplantando mesmo qualquer exemplar da Borgonha, incluindo Fontenay (a igreja dos cistercienses, em Clairvaux, foi transformada em prisão para criminosos loucos).
À semelhança do que acontecia em relação a outras artes, as obras arquitectónicas dos cistercienses tentavam conciliar beleza com simplicidade. Talvez, por isso, alguns especialistas tenham classificado o estilo de «severo» - um termo que, de facto, não parece muito apropiado quando entramos no MOsteiro Alcobaça. Bernardo proibiu o uso de vitrais, dourados e estatuária. Encontramos uma longa nave - que creio ser a maior do país - constituída de pilares brancos esguios que se elevam até aos tectos abobadados, intercalados por feixes de luz que entram através dos vidros transparentes. O padrão e a simetria repetem-se em cada uma das coxias laterais. Mais ou menos a meio da nave encontram-se duas capelas frente a frente, uma com o túmulo de D. Pedro I e a outra com o de sua mulher, D. Inês de Castro. Mulher nobre que integrou a corte portuguesa como a dama de companhia, tendo casado com D. Pedro sem o consentimento do pai deste, que, por vingança, ordenou a sua morte. D. Pedro mandou-a embalsamar e, quando ascendeu ao trono, colocou-a a seu lado, obrigando os cortesãos a beijarem-lhes a mão. Aos pés do túmulo de D. Pedro, existe um baixo-relevo evocando o seu último dia de vida, no leito da morte, alimentando-se de sopa e recebendo o sacramento da unção dos enfermos. Aos pés de D. Inês, está representado o juízo final, com uns, mãos erguidas ao Céu, e outros descendo penosamente o declive rochosos que conduz ao Inferno.
O rei D. Dinis, que ascendeu ao trono em 1279, quando tinha 18 anos, mandou construir o principal claustro ao lado da Igreja. Incluía a projecto a Casa do Capítulo, onde frequentemente se reunia em conselho com o abade e outros membros superiores da ordem, uma câmara real, que, funcionando, em certos períodos, como residência sua e de sua mulher, D. Isabel, aí recebia os convidados, e ainda uma sala tumular real. Considerado como um dos maiores monarcas portugueses de todos os tempos, ligou-se de tal modo aos «irmãos agrónomos» de Alcobaça que os seus cronistas lhe chamaram o Rei Lavrador. Os que arroteavam a terra ficavam isentos de impostos sobre o produto das colheitas, e aos rendeiros que, pondo em prática o conselho dos monges, conseguiam produzir mais e melhor eram concedidos freeholds1 dentro de dez anos.
Foi um projecto pessoal da rainha Santa Isabel desenvolver os pinhais, cuja plantação os monges de Cister tinham iniciado na planície costeira. Os estaleiros, onde os frades construíam navios de madeira, foram também expandidos. Pela primeira vez, desde a era romana, Portugal começava a negociar com o resto da Europa....
No reinado de D. Dinis, Portugal tornou-se um dos primeiros países a inovar nos seguros. Os armadores pagavam taxas à recém-criada Bolsa de Lisboa, que os ressarcia, na eventualidade de um dos seus navios ser assaltado pelos piratas ou afundado numa tempestade. D. Dinis também se notabilizou por ter fundado o ensino superior em Portugal, recrutando para tal professores em Paris. Diz-se que os primeiros estudantes se entregaram de tal modo e tão intensamente aos prazeres citadinos de Lisboa que o rei decidiu transferir a nova universidade para o ambiente mais espartano de Coimbra. Também é referenciado como o pai da literatura portuguesa. Até então, poucos eram os letrado fora da Igreja e quase tudo o que se escrevia era em latim ou borgonhês ( por vezes erradamente chamada provençal). D. Dinis determinou que a língua do povo seria o galaico, tendo procedido a adaptações que a transformaram numa língua distintamente portuguesa. Nela escreveu um grande número de poemas e de trovas. Talvez a sua proeza menos reconhecida a nível internacional tenha constituído na garantia de continuidade dos templários. Todos os livros que conheço sobre esta misteriosa ordem militar dão como certo que ela foi extinta na sequência das perseguições movidas pelo rei Filipe IV de França e pelo Papa Clemente V. Em princípios do século XIV, os cavaleiros templários tinham conseguido em França uma riqueza de tal modo espantos que eram donos de cerca de um terço da cidade de Paris. A família real francesa era uma das muitas que lhes deviam dinheiro. Apesar de tudo, Filipe IV tentou obter um novo empréstimo para financiar a desejada ocupação militar da Bélgica, o que foi recusado pelo grão-mestre, Jacques de Molay. Na sexta-feira, dia 13 de Outubro de 1307, ainda antes do amanhecer, todos os templários, em França, foram detidos por funcionários do rei, que confiscaram, para o tesouro real, toda a riqueza que puderam encontrar. Os monges foram acusados de delitos que iam desde o cuspir no crucifixo à idolatria, e «osculação despudorada». O Papa Clemente V emitiu uma bula dirigida a todos os monarcas da cristandade, a Pastorali Praeminenses, onde se determinava a prisão dos templários nos diferentes países, e a confiscação de tos os seus bens, o que, de acordo com os relatos conhecidos, ditou o fim da ordem.
(Na execução de Molay ele lança a sua famosa maldição, que provoca o fim da dinastia dos capetos, uma das causas para o inicio da guerra do 100 anos, que abre o tempo conhecido pelo outono da idade Média ou a crise dos séculos XIV e XV, açoitado pelo triângulo Maligno constituído pela guerra, fome e peste no qual terão morrido pelo menos 1/3 da população Europeia)
Alguns deles, no entanto, terão escapado à detenção. Diz-se que uma parte considerável do tesouro guardado em Chipre não foi confiscada. Em Portugal, D. Dinis minimizou a carta do Papa. O seu reino, que devia a existência à ordem, precisava agora dos seus membros para guardar a fronteira com a Espanha, ao longo das quais, aliás, tinha mandado construir um conjunto de castelos. Ordenou ao arcebispo de Braga que enviasse uma comissão de inquérito destinada a avaliar as acusações feitas aos templários. Inteiramente ilibados pelo arcebispo, D. Dinis anuiu formalmente às exigências do Papa, decretando a abolição da ordem em Portugal e a confiscação de tos os seus bens, ao mesmo tempo que anunciava a criação de uma nova ordem, a ordem de Cristo, cujo grão-mestre e todos os outros membros eram templários. A eles, na sua nova forma, ofereceu todos os bens e riquezas que lhes tinha acabado de confiscar. Os templários que tinham escapado às perseguições noutros países vieram aqui fixar-se. Crê-se, também, que trouxeram consigo o tesouro de Chipre, que alguns, ainda hoje, tentam encontrar, algures enterrado. Os cavaleiros de Cristo estabeleceram a sua sede em Tomar, nas margens do rio Nabão, perto da c0onfluência com o rio Tejo. Ainda hoje, o seu magnifico mosteiro fortificado domina a cidade. A sua capela é octogonal, uma forma que os templários entendiam que representava a harmonia de Deus com o Homem. Eram da opinião de que o Templo de Salomão tinha sido assim construído. Os monges, para acentuar a sua permanente actividade militar, costumavam assistir à missa, na capela, montados a cavalo.
Os cavaleiros atraíram à cidade artesãos para fabricarem armas, selas, vestuário, peças de olaria, mobília e utensílios agrícolas. Dividiram em herdades grande parte das terras que lhes foram devolvidas pelo rei, entregando-as a uma nova classe de fidalgos, alguns deles, de acordo com os arquivos locais, talvez simpatizantes dos templários vindos de França. Para beneficiar dos freeholds1 tinham de continuar a manter-se em forma como oficiais de cavalaria e, simultaneamente, treinaram os lavradores na arte de cavalgar, tanto em relação ao combate como na arte de esgrimir.
D. Dinis morreu em 1325 e a sua viúva, Isabel de Aragão, retirou-se para um convento, em Coimbra. Casaram quando ela tinha 12 anos, tendo rainha sido mãe muito nova. Pouco dado à monogamia, encheu-se de ciúmes doentios por D. Isabel, mandando-a prender durante algum tempo. libertada, ela mesmo criou, em Lisboa, um refúgio para mulheres vítimas dos maridos e um lar para crianças abandonadas. D. Isabel é actualmente considerada um dos santos mais populares do país. Reza a lenda que, um dia, transportando no avental comida que tinha ido buscar à cozinha real para dar aos pobres, foi interpelada pelo marido, que, gritando, irado, a acusou de roubo. Instada pelo rei a abrir o avental, dele caíram pétalas de rosas.
grande parte da vida da rainha Isabel foi dedicada à resolução de querelas familiares. Dissuadiu o filho a sublevar-se contra o pai, tendo, ainda, em outra ocasião, cavalgado entre os exércitos de pai e filho, desafiando-os a enfrentarem-se primeiros. Depois de suceder ao Pai, o novo rei, Afonso IV, marchou sobre Castela. Ao tomar conhecimento do facto, a mãe abandonou o claustro, galopando a cavalo em direcção ao exército português, conseguindo evitar a guerra, estava ela a começar. Ao regressar a casa terá sido, ao que parece, vitimada pela peste. Com ela acabaram os grandes dias do domínio da Casa de Borgonha em Portugal.

1- Propriedade fundiária normalmente atribuída em regimento perpétuo.

Texto retirado do livro "A Primeira Aldeia Global - Como Portugal mudou o mundo"
Autor: Martin Page - 6º edição Casadasletras

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Ordem do Templo, São Bernardo e os Cistercienses na Fundação de Portugal II

D. Afonso Henriques mandou construir um palácio e uma catedral para o bispo Gilberto, tendo oferecido uma mansão a cada um dos padres estrangeiros. Porque muitos dos cruzados leigos não queriam regressar aos seus países de origem, nem viver na cidade que tinham efectivamente destruído, Afonso Henriques cedeu-lhes algumas herdades a leste de Lisboa, designadamente nas imediações de Vila Franca de Xira, na margem norte do Tejo. Conta-se que, em resposta aos conselheiros que protestaram contra tais benesses aos bárbaros por parte da nova nação, o rei terá dito: «É porque sois tão gentis-homens que precisamos dessa gente para nos defender.»
Para Bernardo de Clairvaux, de regresso à Borgonha, a verdadeira luta pela conversão da zona sudoeste da Europa ainda não tinha sido travada e teria de recusar os métodos militares e evitar qualquer espécie de coacção. Os monges de Cister, que ele liderava, haviam renunciado à violência, ameaçados de excomunhão. Os seus objectivos eram a conversão das suas almas através de um processo gradual de crescente sintonia com a palavra de Cristo. Fora dos muros do mosteiros, não se devia pregar o Evangelho, mas sim vivê-lo. Só assim seria, de facto, possível mostrar que a dimensão do Cristianismo era superior ao do Islão.
A norte de Lisboa, Afonso Henriques concedeu a Bernardo, praticamente, a soberania sobre um vasto território, identificado actualmente pelo nome de costa de prata, que se estende das colinas de calcário do centro de Portugal até à Nazaré, no Atlântico, e de Óbidos até Leiria. Os monges de Cister, vindos da Borgonha para tomar posse das terras, eram livres de fazer as suas próprias leis, administrar a justiça, cobrar impostos e criar e gerir empresas. Canonicamente, não dependiam de Gilberto nem dos outros bispos locais, mas directamente do Papa, através de Bernardo. AS terras que lhes tinham sido concedidas estavam praticamente abandonadas, já que, durante o século anterior, haviam funcionado como uma espécie de fronteira em constante mutação entre a Cristandade e o Islão. A maior parte dos habitantes que não tinham sido capturados, escravizados ou mortos, por um dos lados, tinham fugido ou haviam sido vítimas pela peste. Com a proibição das ordens religiosas em Portugal, os monges foram finalmente expulsos, em 1834. Ainda ali se encontram actualmente agricultores que são descendentes dos colonos trazidos pelos monges, nos séculos XII e XIII, e também, ao atravessar-se a região de automóvel, se pode constatar que as zonas mais afastadas das estradas principais permanecem, em grande parte, como foram recriadas pelos cistercienses há 800 anos. Pomares de maças, pêssegos, pêras e marmelos coabitam com laranjeiras e limoeiros, meloeiros e morangueiros, e, nos campos, multiplicam-se as colmeias. Existem caracóis, codornizes, vários tipos de aves domésticas e faisões domesticados. Há vinhas nas encostas pedregosas e pinhais na planície arenosa costeira.
Os cistercienses, também conhecidos por Bernardos, introduziram as mais avançadas técnicas de agronomia e deram a conhecer uma enorme variedade de plantas de toda a Europa. Organizaram a extracção e a fundição do ferro e, junto à costa, desenvolveram a indústria da construção naval, das pescas, da extracção do sal, bem como a salga e a seca do bacalhau. A confecção de compotas e conservas segundo receitas suas ainda hoje é um importante negócio, havendo mesmo uma feira destes produtos, juntamente com presuntos e salsichas caseiras, realizada anualmente em Leiria, por ocasião da festa de São Bernardo. Introduziram ainda a arte do vidro, de tal modo que o cristal Atlantis é, hoje, o produto mais conhecido da região, a nível internacional.
Deram uma nova perspectiva social à vida do dia-a-dia, proibindo a escravatura nos seus domínios. Nas vinhas, como em outras actividades agrícolas, pagavam salários justos aos trabalhadores e os monges agiam não como patrões, mas trabalhavam lado a lado, executando as mesmas tarefas. A alfabetização, designadamente o domínio da língua franca europeia, o latim, que, até então, constituía um privilégio exclusivo da Igreja, passou a ser leccionado gratuitamente em escolas criadas para o efeito. O abade da ordem participava nos conselhos do rei como uma espécie de assistente social, ainda que, na prática, a sua acção fosse mais abrangente. Procurava garantir alimento aos que tinham fome, roupa e abrigo aos mais necessitados, assistência médica aos docentes, instrução aos jovens e apoio aos idosos.
Este relato terá sido classificado de demagogo por protestantes ingleses, de passagem pela região quando esta estava no auge, entre os séculos XVI e XVIII. Em 1774, o major Dalrymple, brindado com boa mesa e bom vinho pelos monges, escreveu no seu diário: «Estes pastores celestiais possuem tanta riqueza que se comprazem na preguiça e no ócio, o que constitui um empecilho para a sociedade.» Dez anos mais tarde, no entanto, o negociante escocês William Stephens considerava que o insucesso da oficina de tecelagem da cambraia se ficava a dever à generosidade dos monges em relação à população. «Ao distribuir bens supérfluos pelas populações, eles estão apenas a estimular o ócio. Tal facto torna ineficaz qualquer esforço de gestão, já que contribui para a diminuição de autoridade sobre os trabalhadores.»

Texto retirado do livro "A Primeira Aldeia Global - Como Portugal mudou o mundo"
Autor: Martin Page - 6º edição Casadasletras

quarta-feira, 30 de junho de 2010

Ordem do Templo, São Bernardo e os Cistercienses na Fundação de Portugal I

Hughes de Paynes, natural de Champanha, regressou à Europa no ano de 1126, depois de uma estada em Jerusalém. Veio à procura de homens, de dinheiro e da bênção do Papa para a fundação de uma nova ordem militar. Com Godofredo de Sain-Aunmer, outro cavaleiro cristão, tinha tido a ideia de criar a Ordem do Templo, com o objectivo de guardar a Igreja construída em Jerusalém, no local onde se diz ter existido o Templo de Salomão, e, simultaneamente, proteger os peregrinos que ali acorriam.
Só uma geração mais tarde é que os templários se começaram a empenhar nestes objectivos. Durante os primeiros anos da existência da ordem, os seus cavaleiros dedicaram-se, antes, à criação de um novo protótipo de estado cristão, que viria a ser Portugal. De tal modo que, muito tempo depois de a ordem ter sido perseguida e extinta, não apenas em França mas em todo o mundo, ela prosperou aqui, ainda que dissimuladamente até ao século XIX1. As histórias dos templários e de Portugal estão, de facto, intimamente ligadas e são interdependentes.
A ordem transformou-se na mais rica instituição do mundo ocidental, mais abastada do que qualquer monarquia, ou do que a própria Igreja, a quem, teoricamente, devia fidelidade. Contudo, na altura da sua criação, os fundadores eram tão pobres que o seu emblema era constituído por dois cavaleiros - presumivelmente, Hugues e Godofredo - montados num único cavalo.
Hugues viajou até à Borgonha, que, na altura, era a mais florescente região ocidental, constituindo a principal encruzilhada comercial e intelectual da Europa, para, de acordo com as crónicas cistercienses, pedir ajuda a um monge: Bernardo, abade de Claraval. Bernardo era, na altura, considerado um homem de enorme prestígio, capaz de influenciar a eleição dos Papas e de exercer sobre eles um poder efectivo... Desconhece-se quem pela primeira vez teve a ideia de fundar Portugal e desviar os templários para essa tarefa. Com base nas crónicas monásticas da Borgonha e na abalizada biografia de São Bernardo, da autoria do irmão Irénée Vallert-Radot, não se sabe ao certo se a intenção original era a de criar uma nova Nação modelar Cristã no flanco ocidental do Islão, que se estenderia do rio Minho, a norte da Ibéria, até Sul, que é agora Agadir, em Marrocos setentrional, imediatamente acima do deserto do Sara...
Desde finais do século XI que a família de São Bernardo tinha mostrado um interesse activo na Ibéria. O seu tio, o conde D. Henrique de Borgonha, ali se deslocou, com o seu exército, para ajudar D. Afonso, rei de Leão e Castela(..) na guerra contra os árabes. Como recompensa, recebeu em casamento a mão de D. Teresa, segunda filha de D. Afonso, que também lhes deu, como dote, a faixa de terras situada na costa atlântica entre os rios Minho e Douro, conhecida pelo nome de Portucale.
Ao chegar à maioridade, D. Afonso Henriques (filho de D. Henrique e D. Teresa) ... casou com uma prima do conde da Borgonha, D. Mafalda, filha do conde de Mouriana e Sabóia, Amadeu III. Depois proclamou-se a si mesmo rei por direito próprio. A este propósito, continuam, no entanto, por responder questões sobre o quando, o onde e o modo como tudo aconteceu. Ainda que a sua crónica oficial diga que os soldados o fizeram de forma espontânea, após grande vitória sobre os árabes e os berberes, na batalha de Ourique... A constituição da Ordem do Templo foi anunciada pelo Papa na cidade de Troyes, em Janeiro de 1128. Afonso Henriques enviou à Abadia de São Bernardo, em Clairvaux, o penhor da sua fidelidade e da sua nação. Seis semanas mais tarde, em meados de Março, Hugues de Paynes e um grupo de cavaleiros que tinham acabado de ser empossados chegaram a Portucale. Há quem, a propósito, comente a celeridade com que tudo aconteceu, partindo do princípio de que a viagem foi feita a cavalo. Só que também não se pode ignorar que a Borgonha era o eixo de um complexo de vias marítimas, que se espraiavam pelos quatro pontos da bússola. Para consultar São Bernardo no casebre onde vivia, nos terrenos do mosteiro, o Papa foi até Claraval de barco, subindo a costa mediterrânica de Itália e, depois, pelo rio Ródano, em Marselha. Hugues e os outros cavaleiros seguiram a rota contrária, descendo até ao Atlântico, tendo sido ajudados pelas correntes e pelos ventos alísios em direcção a sul. No estuário do Lis, perto onde se ergue hoje a cidade de Leiria, conquistaram um castelo aos berberes e aí fixaram residência...
Para festejar o quadragésimo aniversário do rei D. Afonso Henriques, em 1147, foi lançada uma nova iniciativa que, com origem da Borgonha, pretendia acabar com o impasse existente entre cristãos e muçulmanos. Em quase todos os países da cristandade, a moral andava muito em baixo. A partir do mar Negro, os muçulmanos tinham avançado significativamente em direcção a leste. Simultaneamente, existia a ameaça do mundo eslavo. São Bernardo e o Papa Eugénio III, seu ex-noviço, lançaram um apelo visando um Segunda Cruzada. Ainda existe hoje uma carta escrita por São Bernardo a seu primo D. Afonso Henriques, que, tratando-o por «ilustre rei de Portugal», se refere de modo bastante elogioso aos cavaleiros que levaram a missiva. Mal eles chegaram a Portugal, Afonso Henriques e Hugues de Paynes conduziram-nos a Santarém, cidade que ocupava uma posição estratégica em relação ao rio Tejo. Aí chegados, os cavaleiros enviaram um mensageiro ao governado muçulmano, informando-o de que dispunha de apenas três dias para se render, caso contrário, avançariam sobre a cidade. Só que, como eram poucos, o governador ignorou-os...
Todos tinham, entretanto, jurado, perante São Bernardo, que renunciariam ao ganho pessoal, já que combateriam apenas por Cristo. .. No Mosteiro de Alcobaça pode ver-se um painel de azulejos representando o rei, após a tomada de Santarém, a escrever uma carta de agradecimento a São Bernardo pelo auxílio dado. Animados por este sucesso, os borgonheses lançaram uma campanha com o objectivo de recrutar novos cavaleiros. A iniciativa alastrou-se à França, Alemanha, Países Baixos e Inglaterra, país que havia sido ocupado pelos normandos, após duas tentativas fracassadas de dominarem Portugal. Alistaram-se, ao todo, 3000 homens, que transportados numa frota de 164 navios, atravessaram o Reno e o Sena, desceram os rios de Inglaterra e, percorrida a sua costa sul, se reencontraram no porto de Dartmouth, em Devon.
Ao escreverem sobre a dívida histórica de Portugal à Grã-Bretanha, vários historiadores locais consideram que esta foi essencialmente uma expedição inglesa, apoiada por alguns continentais. Hoje, poucos parecem pôr em causa o facto de que o propósito inicial da expedição era uma cruzada à Terra Santa, só que a armada, obrigada a enfrentar uma violenta tempestade no golfo da Biscaia, teve de ancorar na cidade do Porto para proceder Às reparações dos navios e de os reabastecer de água e alimentos.. Ao que consta, os cavaleiros terão sido ali brindados com uma lauto repasto, oferecido pelo bispo local, que, através de intérpretes, leu um apelo de D. Afonso Henriques, solicitando-lhes que apenas prosseguissem viagem depois do ajudarem a conquistar Lisboa.
Contrária, no entanto, é a opinião expressa nas crónicas da Borgonha, segundo a qual desde o início da expedição era Portugal. Ainda de acordo com esses textos, o reencontro dos barcos em Dartmouth teve apenas a ver com o facto de, desde os tempos do Antigo Testamento, aquele porto ser considerado como o melhor local de onde se podia partir para atravessar o golfo da Biscaia. Era, aliás, uma rota que continuaria a ser utilizada por navios de diferentes nacionalidades norte-europeias ao longo de várias centenas de anos. Esta conquista (de Lisboa) constitui, na prática, o único êxito da Segunda Cruzada, que, fora isso, redundou num autêntico fracasso para São Bernardo e para o Papa, seu protegido.

1 - Extinta, por pressão do rei de França, em 1312, pelo Papa Clemente V, os bens dos templários, em Portugal, passaram para a nova Ordem de Cristo, confirmada por bula Papal a 14 de Março de 1319.

Texto retirado do livro "A Primeira Aldeia Global - Como Portugal mudou o mundo"
Autor: Martin Page - 6º edição Casadasletras

domingo, 13 de junho de 2010

P. António Vieira

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Presidenciais

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Destruição de uma Civilização!

O coincidente panorama da sociedade Portuguesa, governada pelo partido socialista, que pinta Portugal de um rosa já muito avermelhado devido aos seus longos doze anos de governo, interrompidos apenas por 3 pelo PSD nestes últimos 15 anos, e com os estragos perpetuados pelos comunistas em Cabo Verde e em muitos outras nações, transformando as sociedades em aglomerados de coisas e não de pessoas, que buscam o poder totalitário!

Retirado do site Mídia sem Máscara - A "pobreza" e a "desigualdade" são apenas uma tentativa de legitimação, a posteriori, de uma vasta decadência moral e espiritual, incentivada, primeiro, enquanto raison d'État, pelo "materialismo dialéctico" do partido único e, depois, pelo triunfo do relativismo moral no sistema educativo e na imprensa, o que levou, sem uma consistente oposição, à "ditadura do politicamente correcto" e à gradual inversão dos valores, que é, hoje, regra, e não excepção, na sociedade cabo-verdiana. (A "ética da malandragem"1 é o produto de uma lenta desconstrução da alma cabo-verdiana, iniciada nos alvores do "socialismo precário" do pós-independência, cuja grande aposta era o alcançar do "homem novo", um homem light e desprovido do sentido de transcendência, mas fiel à lógica revolucionária e à política subversiva do partido-guia e do seu exército de intelectuais orgânicos, os guardiões do Mito e das maravilhas rutilantes da propaganda; não se pode ignorar os estragos que a "engenharia política" de inspiração totalitária fez no tecido social cabo-verdiano, fragilizando as famílias, a administração pública, a ética do trabalho e a sociedade civil).

1- No caso português, os casos de corrupção sucedem-se, mas somos cada vez mais coisas, prontas para ser engolidas pela besta comunista !

sábado, 6 de junho de 2009

Vocação de Portugal

"E o homem Português?" De facto o homem português foi se moldando ao longo da sua história por interesses comuns, aspirações comuns sonhos comuns, foi sempre um povo, e só por isso que justifica a existência do Estado Português, e principalmente quis a providencia! Assim bradaram os nossos antepassados "Real ! Real ! Por Afonso, alto rei de Portugal!" em Ourique , depois da vitória impossível (D. Afonso Henriques, com 10.000 infantes e 1.000 cavalos, a 400.000 maometanos, isto pelo cômputo de quem mais abate este número, que outros o sobem a 600.000(1)) contra os inimigos da Cruz, representada na nossa bandeira pelas quinas!

Quis a providencia fundar Portugal "Sobre ti e tua descendência, estabelecerei um império meu, por cujo meio seja publicado o meu nome entre as Nações mais estranhas" (Cristo,Ourique) para levar fé a novos mundos, pois para Portugal "Ser Luz do mundo nos outros homens, é só privilégio da graça, nos portugueses é também obrigação da natureza(2)" mas uma vocação não nasce sem tremor, mas Deus a confirmou por meio de S. Nuno de Santa Maria, o Condestável, expulsando os Castelhanos, que não compreendem Portugal, pois "Deus quer, os homens sonham, a obra nasce!"(F. Pessoa) assim Portugal lançou-se na epopeia "Ó mar salgado, quanto de teu sal são lágrimas de Portugal ! Por ti Cruzarmos, quantas mães choraram, quantos filhos em vão rezaram,quantas noivas ficaram por casar para que tu fosses nosso, ó mar ! Valeu a pena ? Tudo vale a pena, se a alma não é pequena ! Quem quer passar além do Bojador, tem que passar além da dor ! Deus, ao mar, o perigo e o abismo deu, mas nele é que espelhou o céu!" (Fernando Pessoa, Mar Português) "E por isso nos deu Deus tão pouca terra para o nascimento, e tantas para a sepultura. Para nascer, pouca terra; para morrer toda a terra; para nascer Portugal, para morrer o mundo. Perguntai a vossos avós quantos saíram e quão poucos tornaram? Mas estes são os ossos de que mais se deve prezar o vosso sangue.(2)"
E Hoje, onde estão os ventos de Ourique, que levaram as caravelas a "dar novos mundos ao mundo(2)"com a Cruz nas suas frontes que Portugal tão heroicamente carregou, para a levar aos povos, pois nossa vocação é "Ser luz do mundo" pois já o nosso nome o diz "LUZitânios" assim seremos Portugueses, mas é este Portugal que hoje agoniza e com ele nós todos. Mas o Autor da Graça, convida-nos a combater, foi por isso que Nos deu as suas cinco chagas as suas cinco armas, as quinas que desde o nascimento de Portugal, as carrega para lutar contra os inimigos da Fé, assim se faz Portugal "Nascer pequeno e morrer grande, é chegar a ser homem(2)"

(1) http://ascruzadas.blogspot.com/2009/05/as-armas-portuguesas-contra-os.html
(2) P. António Vieira - Sermões de Santo António

(2) P. António Vieira - Sermões de Santo António

Juízo Final IV

Continuação do livro Juízo Final, capítulo as "As Querelas de Bizâncio ou o Retorno do Destino" parte IV e última parte.

Boa Leitura!


Para além de tudo, paira o problema mais grave. Assume maior seriedade, como se procurou sublinhar nas páginas que ficam para trás, a crise moral que os Portugueses atravessam, Como se manifesta? Por mil modos: pela recusa de ver os múltiplos perigos que os ameaçam; pela aceitação e procura constante da opção mais fácil; pela indiferença perante valores nacionais, sejam língua ou as fronteiras, sejam a cultura ou a história, sejam a própria soberania e a independência; pela convicção generalizada de que é irreversível e inevitável (como se em história houvesse o que quer que fosse de irreversível ou de inevitável, salvo o que depender de uma vontade firme) fazer o que os outros pretendem, ou legislam, ou recomendam; pela aplicação de conceitos que os grandes países imaginam ou propõem (mas que não aceitam para si mesmos); pela submissão passiva e inconsciente, e até alegre e eufórica aos interesses de terceiros (como se já fossem também os interesses dos Portugueses); pela insensibilidade perante quanto destrói ou pode destruir a raiz portuguesa e põe em causa o próprio cerne da nacionalidade; e enfim pela euforia, tão pueril quanto oportunista, tão crédula quanto materialista, com que se deixa arrastar na onda do internacionalismo, do integracionismo, na suposição de que os outros também o fazem, e sobretudo na crença de uma vida fácil e rica, que o será sempre e sem esforço, e seja qual for a origem da riqueza, seja qual for a subordinação criada. E neste transe os Portugueses parecem esquecer três aspectos fundamentais: Portugal não tem tipicidade suficiente para enfrentar sem defesa forças que atingem o seu cerne, e resistir-lhes, e sobreviver, continuando a ser Portugal; tem uma vulnerabilidade de interesses vitais que lhe consente apenas muito reduzido espaço de manobra, pelo que o seu comportamento perante terceiros tem que ser cauteloso e não pode sofrer desvios de monta; e não pode por isso cometer erros históricos, sob pena de ser esmagado e absorvido pelo turbilhão de forças exteriores. Tudo quanto Portugal perder, ou alienar, ou lhe for tomado, é irrecuperável: em termos territoriais, políticos ou económicos. Por outro lado, tanto que se prolonga esta viragem, de que se ocupam os Portugueses – na sua vida colectiva e na sua intervenção política? Afigura-se exacta esta síntese: empenhando-se em tudo que é imediato ou pessoal, ou de grupo, ou de partido; e transformando em problemas nacionais o que não passa de subtileza adjectiva. E deste modo parece de dizer que ou retornamos às raízes e retomamos a linha segura do nosso destino – ou seguimos pelo caminho de Bizâncio – substituindo os factos nossos pelos mitos dos outros.

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Juízo Final III parte 2

Continuação do livro Juízo Final, capítulo as "As Querelas de Bizâncio ou o Retorno do Destino" parte III, parte 2 (devido ao tamanho)

Boa Leitura!

De passagem, os Bispos portugueses aludem à solidariedade europeia e à contribuição que Portugal pode dar. Depois sublinham: “Vamos ter necessidade de fazer um renovado esforço para avivar a consciência do valor insubstituível da nossa personalidade colectiva e do nosso património cultural: a história, a língua, a morigeração e o humanismo dos costumes, o folclore, o carácter hospitaleiro, a existência de uma larga rede de voluntariado patente na vida pastoral e em instituições como as Misericórdias e outras associações humanitárias: numa palavra, a nossa cultura e designadamente a nossa religião católica”. E depois, em resposta à carta pastoral dos Bispos comunitários, o Presidente da Conferência Episcopal Portuguesa sublinha aspectos que considera positivos – solidariedade entre países europeus, cooperação no plano tecnológico, outros ainda – e acentua seguidamente: “Não será sem riscos que se irá realizar a integração de Portugal (e de Espanha) na Comunidade Europeia”. Mais além. “Vós chamais com razão a atenção para o perigo que constitui para a nossa identidade nacional a entrada no Mercado Comum”. E todo o problema europeu é referido com mais pormenor em nota pastoral de Sua Eminência o Cardeal de Lisboa, Senhor Dom António Ribeiro, de 24 de Junho de 1985. Em súmula, que traços fundamentais foram destacados? Em primeiro lugar, qual o verdadeiro significado da unidade da Europa? Responde-se: “A Europa sonhada pela Igreja, a Europa sonhada pelos cristãos, não se limita a uma parte da Europa; é, sim, a Europa toda, na sua totalidade geográfica e na sua integridade humana e espiritual; nem se limita a algumas das experiências e organizações hoje existentes para prosseguir o ideal europeu, sem prejuízo do apreço que muitas delas merecem. Nesta perspectiva, as iniciativas de unidade europeia, que podem ser positivas, não observam nem esgotam a ideia e o ideal da Europa, que histórica e culturalmente abrange – e exige – a Europa Ocidental de S. Bento e a Europa Oriental evangelizada por S. Cirilo e S. Metódio, como vem acentuando o Papa João Paulo II. Nunca haverá verdadeira unidade europeia enquanto à Europa e aos seus valores faltar algum povo europeu, enquanto barreiras internacionais se erguerem entre os europeus”. Mais adiante, sublinha-se: “A unidade da Europa exige e determina, deste modo, a criação de um espaço comum de respeito pela vida, pela verdade, pela liberdade, pela solidariedade e pela justiça, no serviço das pessoas e da sua dignidade e na comunhão fraterna”. Depois: “O que não será possível enquanto, numa parte do continente, prevalecerem o materialismo prático e o egoísmo radical da civilização do prazer individualista, do bem-estar material ou da civilização do consumo e da libertinagem moral, numa sociedade alheia a valores éticos e, noutra parte, se afirmar a negação da liberdade religiosa, o totalitarismo do Estado, o materialismo militante ideologicamente imposto”. Mais além, a Nota Pastoral toca um ponto essencial: “A unidade da Europa não tem base geográfica, histórica, económica ou política, sem prejuízo da importância de tais dimensões”. E qual a grande divisão da Europa? Aquela que se produziu “entre os que se reclamam do Evangelho, consumada a partir da Reforma, foi o grande escândalo que dividiu entre si os Europeus”; e “refazer a unidade, no diálogo e na verdadeira fé, é assim caminho necessário da recristianização futura, reconstruindo a “casa divida””. E torna-se assim mais clara a atitude que o Papa João Paulo II assumiu no final da década de oitenta e inícios da de noventa, e do papel decisivo que a Santa Sé Apostólica desempenhou no colapso ideológico da Europa de Leste.
Neste contexto, e quanto aos Portugueses, que nos ensina a Nota Pastoral? Logo em abertura, diz-nos isto: “Portugal é essencial à Europa e só no respeito dos valores nacionais contribuirá para a construção de uma Europa unida”. E não se pense que “alguns valores ou ideais da Comunidade virão substituir ou suprir os seus valores próprios. Sem dúvida, o diálogo de civilização e o intercâmbio cultural são importantes; mas devemos antes aprofundar as características peculiares da maneira de ser portuguesa e cultivar as nossas diferenças regionais, que só enriquecem o património comum”. E então sublinha a Nota Pastoral: “Para que assim suceda, e para que o choque dos próximos anos estimule em vez de estorvar ou destruir, é necessário cultivar as virtudes do patriotismo são, adequando os nossos valores tradicionais às necessidades do futuro”. Só “seremos bem a Europa e bem a construiremos se nela nos afirmamos como os portugueses que somos. A maior abertura ao exterior não pode traduzir-se na perda da capacidade de tomarmos decisões por nós mesmos e segundo os nossos critérios, com independência e originalidade. Erro grave seria pensar que uma maior integração europeia pode substituir as respostas nacionais; antes as reclama mais vincadas e pronunciadas. Erro seria também pensar que a Europa se constrói na uniformização, quando ela exige a afirmação concordante e harmoniosa das diversidades”. E os Portugueses são ainda prevenidos contra outros perigos. Designadamente a burocracia e o economicismo tecnocrático da Comunidade. E não devem os Portugueses estar na Europa sem “a definição clara dos projectos nacionais sem saber o que querermos só nos empobreceremos, a nós e à construção europeia; pois tais respostas, se não as encontrarmos, ninguém as dará”. E enfim “não deve esquecer-se que a actuação em Portugal das instâncias comunitárias dá voz suprema, em muitos domínios, a órgãos supranacionais. Acresce o risco de que a crise do sistema produtivo e o livre acesso à propriedade de bens de produção transfira largamente a propriedade e a decisão, em muitas unidades do sistema produtivo, para entidades estrangeiras ou multinacionais, frequentemente agindo fora do território português. A difícil compatibilidade dos interesses e do poder de decisão do povo português com situações de dependência coloca uma questão que tem de ser responsavelmente enfrentada. A cooperação internacional é um bem, mas só se for exercida – repetimos – no respeito pela identidade nacional”.


quarta-feira, 3 de junho de 2009

Juízo Final III parte 1

Continuação do livro Juízo Final, capítulo as "As Querelas de Bizâncio ou o Retorno do Destino" parte III, parte 1 (devido ao tamanho)

Boa Leitura!

Não cabe repetir aqui, nesta síntese e neste juízo final, quanto foi lembrado ou sugerido nas páginas que ficam para trás. Fiéis à nunca desmentida tradição, sempre bem documentada pela crónica histórica, o Mundo, a Europa, Portugal têm vivido nesta época de transição os seus sonhos, os seus anseios, os seus mitos em suma. Não é evitável o facto, não acarretaria mal para os homens se estes não lhes atribuíssem crédito cego, ou deles não fiassem o progresso, a liberdade, a felicidade eterna; e se não cruzassem os braços perante todo o esforço. Então podem sobrevir perigos. E estes são tanto mais graves quanto mais vulnerável for uma comunidade nacional, e mais cercada de riscos e ameaças estiver. Temos de ver, de repetir, de repisar que este é o caso de Portugal. E tomar plena consciência desta realidade é condição para a superar.
Em muitos passos se procurou sublinhar o teor dos perigos que rodeiam os Portugueses. Alguns têm a natureza episódica, e resultam precisamente da mitologia da época, e da entrega que lhe fazemos. Outros são consequência das atitudes dos Portugueses, e das suas características. Oportunismo, falta de sentido crítico, a já sublinhada ausência de autonomia mental, espírito utilitarista, obsessão com o imediato, carácter facilmente impressionável e influenciável, recusa a sacrifícios. E há por último os perigos que têm a sua raiz numa fatalidade geográfica: esta é insuperável: mas por acto de vontade firme e esclarecida dela nos temos defendido, e nos poderemos continuar a defender, se quisermos. Perante todos estes quadros de risco, são frágeis os nossos mecanismos de defesa. Em muitos campos, dir-se-iam mesmo inexistentes. Mas num terreno essa falta de sobrepõe a todos os demais, e aí se podem jogar os destinos dos Portugueses: o da defesa continuidade e projecção da identidade portuguesa. (Repete-se: a identidade portuguesa para subsistir, supõe o enquadramento nacional; e este implica por seu turno um Estado independente e soberano). E a pergunta, em que tudo o mais se concentra e se resume, parece ser esta: encontra-se a identidade portuguesa ameaçada?
Para maior objectividade, afigura-se preferível buscar noutros a resposta. Perante o que se tem designado pela participação ou identificação de Portugal com a Europa, e o contacto desprotegido com forças, culturas, princípios, ambições, estratégias, objectivos alheios – de vizinhos imediatos e de outros que o não são – encontra-se Portugal largamente desguarnecido, insensível ao deslizar, talvez lento mas firme, para transformações que podem atingir o seu cerne até à destruição. E assim não tem mecanismos de defesa: porque estes não surgem por acção espontânea em sociedades civis frágeis e porque as elites, por talvez não sentirem já Portugal, não suscitam a sua criação, e tem esta por inútil ou ridícula, quando não se lhe opõem. E assim está em jogo a identidade total do Portugueses – no plano cultural como político, no económico como sociológico. E ao aniquilamento da identidade portuguesa segue-se naturalmente, inevitavelmente, o aniquilamento de Portugal como povo autónomo, soberano, independente. Por outras palavras: como país, como Nação, como Estado. Para muitos em Portugal este arrazoado suscita um sorriso compassivo, próprio do desdém intelectual que é inerente às mentalidades muito altas e muito superiores. Para além das fronteiras, todavia, há também homens de consequência e de vasta compreensão; e estes, sem embargo de não serem portugueses, apercebem-se nitidamente da crua realidade que cerca estes. Pela comissão dos Episcopados da Comunidade Europeia foi dirigida à Conferência Episcopal Portuguesa uma carta em que o problema é focado com nitidez(1985). Dizem os Bispos da Comunidade aos seus pares portugueses: a passagem da Comunidade de dez para doze membros representa um desafio, mesmo que se possa esperar da integração na CEE um novo impulso para o desenvolvimento económico e a redução de certas situações de pobreza, a preocupação da concorrência económica pode polarizar toda a existência e o materialismo aumentar ainda mais, E escrevem textualmente os Bispos da Comunidade aos Bispos de Portugal: “Nós compreendemos que partilhais alguns receios a esse respeito, bem como o de ver a Comunidade não transmitir-vos apenas o que tem de bom”. E acrescentam os Bispos estrangeiros: “É natural que também vos interrogueis sobre se esta integração europeia não comportará um certo risco para os valores que constituem a vossa identidade histórica, cultural e espiritual”. E neste particular como se pronunciaram os Bispos de Portugal? Em nota pastoral, emanada do Conselho Permanente da Conferência Episcopal, citam-se palavras de João Paulo II: “Depois de vinte séculos de história, não obstante os conflitos sangrentos que os povos da Europa enfrentaram e apesar das crises espirituais que marcaram a vida do continente – até pôr à consciência do nosso tempo graves interrogações sobre a sua sorte futura – deve afirmar-se que a identidade europeia é incompreensível sem o Cristianismo e que é precisamente nele que se encontram aquelas raízes comuns a partir das quais maturou a civilização do continente, a sua cultura, o seu dinamismo, a sua actividade, a sua capacidade de expansão construtiva também nos outros continentes; numa palavra, tudo o que constitui a sua glória”. (Continua)

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Juízo Final II

Continuação do livro Juízo Final, capítulo as "As Querelas de Bizâncio ou o Retorno do Destino" parte II

Boa Leitura

Em todos os tempos se atribuíram mitos os indivíduos, as sociedades, os povos, e não se eximiram a esta lei os Portugueses, nem tinham por que o fazer. É complexa a estrutura do mito, na sua origem e na sua expressão, e nenhum conceito seguro parece possível. É um sonho, ou desejo, ou anseio, ou esperança, ou expectativa de milagre; é um quadro que se concebe, por vezes de contornos vagos, e que é todo idealizado e construído pela imaginação, em torno de sentimentos, ou emoções, ou ambições, ou mesmo de fé religiosa; pode o mito ser erguido em redor ou a partir de um acontecimento real que depois é acrescentado, distorcido, embelezado, vendo-se nele virtualidades que não possui; os seus alicerces podem entroncar em lendas remotas, em mistérios, em fenómenos não verificados mas transmitidos como factos de geração em geração; e em qualquer caso há na aceitação do mito uma dádiva, uma entrega a forças transcendentes, não observáveis nem controláveis. De todos os mitos, talvez o mais arreigado e constante, para os Portugueses, haja sido o do sebastianismo, ainda que no decurso da história tomasse nomes diversos consoante épocas e sucessos. Diferente do mito é a mística. Esta pode também ser influenciada por aqueles pressupostos; mas vai além, e muito além. E em que consiste e como se manifesta? Pela valorização dos grandes símbolos nacionais (todos os países os possuem e valorizam), e que resultam da história; pela fé no destino próprio; pela vontade de cumprir esse destino, e de o defender; pelo sentido de dever e de missão; pela solidariedade; pela coragem serena em resistir; e rejeitar o que se oponha à afirmação nacional; e pelo cumprimento incondicional das obrigações cívicas e nacionais, por si mesmas e independentemente do que outros fizerem ou deixem de fazer. Este sentimento de mística, assim encarado, identifica-se com a nação, se a sociedade civil tem as características de um organismo saudável e activo; e atenua-se ou perde-se, em sociedades civis decadentes, que deixaram de acreditar em si mesmas. Neste ponto, como se comportam os Portugueses nesta transição de um milénio para outro? É facto consensual que a nação portuguesa atravessa crise profunda. Na origem desta encontramos a ruptura provocada, e que foi acaso pensada como um projecto. Ultrapassada essa fase, outros factores estão presentes neste final de século.

domingo, 31 de maio de 2009

Juízo Final I

Este texto que se segue é retirado do Livro Juízo Final(editora:Civilização, 1992) de Franco Nogueira, capítulo V, "As Querelas de Bizâncio ou o Retorno do Destino" parte I

Boa Leitura!

Na verdade, a pergunta é: e o Homem português? Acaso se aproxima do fim? Chegou ao termo do seu papel histórico? Cumpriu o destino que lhe foi assinado pela Providência? Poderá avançar-se até ao extremo de se dizer que se advinha indícios daquele fim e que este está no horizonte? Decerto: um tipo tradicional de homem português foi desfeito: nisso consistiu a ruptura. Até agora, porém, não ultrapassou aquela fronteira. Aliás, pelo o mundo além e em Portugal, o marxismo-leninismo admitiu e confessou a sua falência em criar o homem novo. Importa agora averiguar em que situação se encontra o Homem português como tipo histórico. Já se viu que possui raízes bastantes à sua sobrevivência e continuidade. Mas detém outros requisitos essenciais? Tem vontade firme e energia para a sua afirmação? Tem consciência dos riscos que o cercam, das ameaças que enfrenta, das forças internas e externas que o podem destruir? Tem a noção dos graves perigos que atravessa na época que está vivendo? Tem a solidariedade suficiente para que seja coesa, e assim se manifestasse e se faça respeitar aquela vontade? Estão os Portugueses dispostos aos esforços indispensáveis à salvação do Homem português? Mil outras perguntas, de matiz semelhante, se poderiam formular. E poderá dar-se-lhes uma resposta que parece válida para todas: se o povo português não quiser seguir o caminho de Bizâncio, haverá de reganhar vigorosamente a consciência nacional. É esta que se tem diluído e aviltado. Uma nação é uma realidade, diferenciada das demais, e antes de tudo deve ser uma realidade para os seus próprios nacionais. Estes têm, ou devem ter, uma imagem do seu passado, um perfil do seu presente, uma perspectiva do seu futuro; e de tudo decorre, ou deve decorrer, uma consciência das suas raízes, uma percepção dos seus interesses permanentes, um conhecimento dos seus meios, um quadro dos seus objectivos. Sobretudo quando bem antiga, uma nação não é o dia que vive, nem mesmo o dia seguinte: é o conjunto dos séculos passados, é a preparação constante para os séculos que hão-de vir. Convêm repisar: tudo o que é, assenta em tudo o que foi. Já foi dito, mas convém repeti-lo: uma nação é um sistema de segredos, um acervo de cumplicidades, um conjunto de certezas íntimas, de que partilham todos os seus nacionais, ou ao menos a sua maioria. Quando não circulam os segredos entre o povo, quando a cumplicidades encontra hesitações ou sofre quebras, e quando as certezas deixam de ser comuns ou sentidas em comum, então obnubila-se a consciênçia nacional, enfraquece a vontade, anuvia-se o espírito de resistência, degrada-se a nação; e esta passa mesmo a compreender e a dar razão às forças de desagregação que podem destruí-la, e que no caso de Portugal, vulnerável como é, podem absorvê-lo Acontece assistir-se a acontecimentos e crises - instabilidades de governos, lutas pelo o poder dentro de partidos políticos, acusações e contra-acusações de corrupção ou de incompetência, insatisfação de classes, frustração colectiva, atitudes assumidas a esmo - e tudo se atribui a factores ocasionais, a defeitos de instituições, a vícios do carácter de alguns homens, a erros de prática política; e na verdade todos estes elementos representam o seu papel, e pode ser grave a sua influência; mas no fundo de tudo há um relacionamento de causa e efeito, que não é imediatamente óbvio mas nem por isso é menos real, entre a perda ou a tibieza da consciência nacional e o esbarrondar da sociedade civil, que se quereria diferenciada e autónoma. Ignorados os segredos da grei, recusadas as cumplicidades colectivas, destruídas as certezas comuns, nada mais resta: é o princípio do fim: pode ser o próprio fim. Em 1939-1949, foi derrotada a França porque se dividiu contra si mesma, e perdeu um sentimento comum perante o perigo: mas o sucesso da resistênca francesa posterior contra a ocupação germânica assentou precisamente numa cumplicidade colectiva, num segredo de todos conhecido e por todos atacado, numa consciência quase unânime do sacrifício de alguns ou de muitos para futura sobrevivênçia de todos. Reflexão idêntica se deve fazer quanto a outros povos, naquela altura histórica: nos mesmo pressupostos psicológicos e políticos se firmou uma defesa britânica tão indómita quanto foi maciço o ataque alemão; igual raiz teve a bravura russa que, à parte os erros cometidos pelos nazis e o auxílio aliado ocidental, encontrou no apelo aos valores essenciais da Rússia antiga a mais sólida justificação para triunfar dos sofrimentos às mãos do invasor; e são ainda os mesmos pressupostos fundamentais que explicam a resistência germânica, prolongada em termos de um quase desespero de fim do mundo. Em qualquer caso, e mesmo sem recurso a exemplos tão extremos, o enfraquecimento do patriotismo (que não tem nem deve ser agressivo) é sintoma de grave enfermidade no cerne de qualquer país. É também indício de decadência moral a prioridade de problemas partidários ou de grupo sobre problemas nacionais, e acontece que não raro os partidos políticos consideram como de interesse nacional o que é somente de interesse eleitoral: idílico e risonho, em que todos lhe querem bem, e em que não corre perigos, nem suscita invejas ou adversões, nem defronta ameaças; mas essa não é a realidade; e tudo traduz o alheamento do quadro nacional, que já se não considera como a melhor protecção dos interesses individuais e colectivos. Para que possa ser forte, independente, livre e duradoura, uma sociedade civil tem de adoptar e praticar uma política de contrato nacional. Neste particular como se comporta o Homem português neste termo de século e milénio?

sábado, 30 de maio de 2009

Milagre de Ourique