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quarta-feira, 23 de junho de 2010

José Saramago por Vasco Pulido Valente

O problema com o furor que provocaram os comentários de Saramago sobre a Bíblia (mais precisamente sobre o Antigo Testamento) é que não devia ter existido furor algum. Saramago não disse mais do que se dizia nas folhas anticlericais do século XIX ou nas tabernas republicanas no tempo de Afonso Costa. São ideias de trolha ou de tipógrafo semianalfabeto, zangado com os padres por razões de política e de inveja. Já não vêm a propósito. Claro que Saramago tem 80 e tal anos, coisa que não costuma acompanhar uma cabeça clara, e que, ainda por cima, não estudou o que devia estudar, muito provavelmente contra a vontade dele. Mas, se há desculpa para Saramago, não há desculpa para o país, que se resolveu escandalizar inutilmente com meia dúzia de patetices.

Claro que Saramago ganhou o Prémio Nobel, como vários "camaradas" que não valiam nada, e vendeu milhões de livros, como muita gente acéfala e feliz que não sabia, ou sabe, distinguir a mão esquerda da mão direita. E claro que o saloiice portuguesa delirou com a façanha. Só que daí não se segue que seja obrigatório levar a criatura a sério. Não assiste a Saramago a mais remota autoridade para dar a sua opinião sobre a Bíblia ou sobre qualquer outro assunto, excepto sobre os produtos que ele fabrica, à maneira latino-americana, de acordo com o tradição epigonal indígena. Depois do que fez no PREC, Saramago está mesmo entre as pessoas que nenhum indivíduo inteligente em princípio ouve.

O regime de liberdade, aliás relativa, em que vivemos permite ao primeiro transeunte evacuar o espírito de toda a espécie de tralha. É um privilégio que devemos intransigentemente defender. O Estado autoriza Saramago a contribuir para o dislate nacional, mas não encomendou a ninguém - principalmente a dignatários da Igreja como o bispo do Porto - a tarefa de honrar o dislate com a sua preocupação e a sua crítica. Nem por caridade cristã. D. Manuel Clemente conhece com certeza a dificuldade de explicar a mediocridade a um medíocre e a impossibilidade prática de suprir, sobre o tarde, certos dotes de nascença e de educação. O que, finalmente, espanta neste ridículo episódio não é Saramago, de quem - suponho - não se esperava melhor. É a extraordinária importância que lhe deram criaturas com bom senso e a escolaridade obrigatória.

Fonte: oInimputável

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Direito por linhas tortas

Por João César das Neves

Vivemos estes dias um dos fenómenos mediáticos mais inesperados, atrevidos e provocadores da nossa era. Terminou na passada sexta-feira, festa do Sagrado Coração de Jesus, o ano sacerdotal iniciado pelo Papa Bento XVI a 19 de Julho de 2009. Isto, que parecia pacífico, mostrou-se revolucionário.

A função sacerdotal, vasta e profunda na Igreja, tem na pessoa do padre o seu ponto central, como indica a referência aos 150 anos da morte de S. João Maria Vianney, humilde cura de aldeia. Organizar um ano de celebrações à volta dessa figura é, na nossa sociedade, um dos maiores atrevimentos culturais.

Não só o cristianismo é a única ideologia que hoje se pode atacar sem violar a tolerância, mas nele o padre é o aspecto mais desprezado. No Ocidente, a Igreja, mesmo se marginal, não goza do estatuto protector de minoria. Qualquer bizarria está mais defendida de críticas que ela. Tendo sido cultura dominante durante séculos, a crítica ao catolicismo é, no actual quadro de rebeldia adolescente, emblema de modernidade e progressismo, mesmo entre católicos. Aquilo que seria intolerável contra outros grupos sociais é comum com a Igreja em geral, e os padres em particular. Eles são, pode dizer-se, a menos respeitada de todas as profissões aceitáveis. Admira-se este ou aquele clérigo, mas o conjunto não presta. Assim, a surpreendente decisão de Bento XVI inclui uma serena mas contundente provocação à opinião dominante, levando os fiéis a meditarem sobre tudo o que a comunidade recebe das mãos e ministério dos sacerdotes.

Só que aquilo que devia ser um período de reflexão, gratidão e celebração transformou-se num momento de terrível pressão mediática. Os escândalos de pedofilia centraram as atenções nos padres, mas pelas piores razões. Chega-se a duvidar se, afinal, será profissão aceitável.

Este contraste entre propósitos e resultados chega para marcar este na longa história dos anos comemorativos. Não haverá outro em que o desvio seja maior. Isto não se deve a uma coincidência, porque realmente não aconteceu nada. Os factos que suscitam as acusações são antigos, alguns muito antigos, a ponto de nem permitirem investigações policiais. As notícias não são novidades. O único motivo está no interesse dos jornalistas, que decidem concentrá-las agora. Também é difícil sustentar a tese de cabala organizada, sendo impossível orquestrar uma campanha de tal dimensão.

O mais surpreendente no episódio é, assim, ele parecer genuinamente fortuito. Claro que o quadro cultural ajuda. Se os jornais procurassem casos de pedofilia de professores, médicos ou outros (que os poucos estudos sérios indicam serem bastante mais frequentes), ninguém se lembraria de deduzir daí consequências sobre a respectiva classe profissional. Aliás, se o fizessem, imediatamente apareceriam as competentes organizações sindicais a criticar abespinhadamente tais insinuações. Mas os padres não se defendem. Chocados com o comportamento dos colegas, batem no peito e baixam a cabeça. São os únicos profissionais que sofrem vergonha e responsabilidade por actos de outros.

Deste modo, o caso concede autorização aos inimigos da Igreja para insultar alegremente todo o clero, e até a instituição, sem temer resposta. Pior, se alguém disser que assim se conspurca uma multidão de inocentes por causa de um punhado de criminosos, logo se acusa de insensibilidade ao horrível sofrimento das crianças. É espantoso, mas existe mesmo muita gente capaz de retirar consequências para a doutrina e a hierarquia católicas destes poucos e velhos comportamentos aberrantes. Será que também duvidam da educação e medicina por existirem profissionais perversos?

Noutro sector isto não passaria de uma falhada operação de relações públicas. A Igreja, também nisto, é diferente. Que os nossos padres, totalmente inocentes, tenham sofrido terrível vitupério simplesmente por serem o que são, logo no ano que lhes era dedicado, é um mistério espantoso. Afinal, na perspectiva cristã, centrada na cruz, o ano sacerdotal correu mesmo bem.

sexta-feira, 16 de abril de 2010

A guerra subliminar entre o laicismo e o Cristianismo

Retirado do site : http://www.rainhamaria.com.br/Inicial

A questão dos sacerdotes pedófilos ou homossexuais, que rebentou recentemente na Alemanha, tem como alvo o Papa. E, dadas as enormidades temerárias da imprensa, cometeria um grave erro quem pensasse que o golpe não acertou no alvo – e um erro ainda mais grave quem pensasse que a questão morreria depressa, como morreram tantas questões parecidas. Não é isso que se passa. Está em curso uma guerra.

Não propriamente contra a pessoa do Papa porque, neste terreno, tal guerra é impossível: Bento XVI tornou-se inexpugnável pela sua imagem, pela sua serenidade, pela sua limpidez, firmeza e doutrina; só aquele sorriso manso basta para desbaratar um exército de adversários. Não, a guerra é entre o laicismo e o cristianismo.

Os laicistas sabem perfeitamente que, se aquela batina branca fosse tocada, sequer, por uma pontinha de lama, toda a Igreja ficaria suja, e se a Igreja ficasse suja, suja ficaria igualmente a religião cristã. Foi por isso que os laicistas acompanharam esta campanha com palavras de ordem do tipo: «Quem voltará a mandar os filhos à igreja?», ou «Quem voltará a meter os filhos numa escola católica?», ou ainda: «Quem internará os filhos num hospital ou numa clínica católica?» Há uns dias, uma laicista deixou escapar uma observação reveladora: «A relevância das revelações dos abusos sexuais de crianças por parte de sacerdotes mina a própria legitimação da Igreja Católica como garantia da educação dos mais novos.»

Pouco importa que semelhante sentença seja desprovida de qualquer base de prova, porque a mesma aparece cuidadosamente latente: «A relevância das revelações»; quantos são os sacerdotes pedófilos? 1%? 10%? Todos? Pouco importa também que a sentença seja completamente ilógica; bastaria substituir «sacerdotes» por «professores», ou por «políticos», ou por «jornalistas» para se «minar a legitimação» da escola pública, do parlamento, ou da imprensa.

Aquilo que importa é a insinuação, mesmo que feita à custa de um argumento grosseiro: os sacerdotes são pedófilos, portanto a Igreja não tem autoridade moral, portanto a educação católica é perigosa, portanto o cristianismo é um engano e um perigo. Esta guerra do laicismo contra o cristianismo é uma guerra campal; é preciso recuar ao nazismo e ao comunismo para se encontrar outra igual. Mudam os meios, mas o fim é o mesmo: hoje, como ontem, aquilo que se pretende é a destruição da religião. Ora, a Europa pagou esta fúria destrutiva ao preço da própria liberdade.

É incrível que sobretudo a Alemanha, que bate continuamente no peito pela memória desse preço que infligiu a toda a Europa, se esqueça dele, hoje que é democrática, recusando-se a compreender que, destruído o cristianismo, é a própria democracia que se perde. No passado, a destruição da religião comportou a destruição da razão; hoje, não conduz ao triunfo da razão laica, mas a uma segunda barbárie.

No plano ético, é a barbárie de quem mata um feto por ser prejudicial à «saúde psíquica» da mãe. De quem diz que um embrião é uma «bola de células», boa para fazer experiências.

De quem mata um velho porque este já não tem família que cuide dele.

De quem apressa o fim de um filho, porque este deixou de estar consciente e tem uma doença incurável.

De quem pensa que progenitor «A» e progenitor «B» é o mesmo que «pai» e «mãe».

De quem julga que a fé é como o cóccix, um órgão que deixou de participar na evolução, porque o homem deixou de precisar de cauda. E por aí fora…

Ou então, e considerando agora o lado político da guerra do laicismo contra o cristianismo, a barbárie será a destruição da Europa. Porque, eliminado o cristianismo, restará o multiculturalismo, de acordo com o qual todos os grupos têm direito à sua cultura. O relativismo, que pensa que todas as culturas são igualmente boas. O pacifismo, que nega a existência do mal.

Mas esta guerra contra o cristianismo seria menos perigosa se os cristãos a compreendessem; pelo contrário, muitos deles não percebem o que se está a passar. São os teólogos que se sentem frustrados com a supremacia intelectual de Bento XVI. Os bispos indecisos, que consideram que o compromisso com a modernidade é a melhor maneira de atualizar a mensagem cristã.

Os cardeais em crise de fé, que começam a insinuar que o celibato dos sacerdotes não é um dogma, e que talvez fosse melhor repensar essa questão. Os intelectuais católicos que acham que a Igreja tem um problema com o feminismo e que o cristianismo tem um diferendo por resolver com a sexualidade. As conferências episcopais que se enganam na ordem do dia e, enquanto auguram uma política de fronteiras abertas a todos, não têm a coragem de denunciar as agressões de que os cristãos são alvo, bem como a humilhação que são obrigados a suportar por serem colocados, todos sem descriminação, no banco dos réus. Ou ainda os chanceleres vindos do Leste, que exibem um ministro dos negócios estrangeiros homossexual, ao mesmo tempo que atacam o Papa com argumentos éticos; e os nascidos no Ocidente, que acham que este deve ser laico, que o mesmo é dizer anti-cristão. A guerra dos laicistas vai continuar, quanto mais não seja porque um Papa como Bento XVI sorri, mas não recua um milímetro.

Mas aqueles que compreendem esta intransigência papal têm de agarrar na situação com as duas mãos, não ficando de braços cruzados à espera do próximo golpe. Quem se limita a solidarizar-se com ele, ou entrou no horto das oliveiras de noite e às escondidas, ou então não percebeu o que está ali a fazer.»

do Corriere de la Sera,Jornal Italiano

por Marcello Pera, Filósofo, agnóstico e senador.

sexta-feira, 19 de março de 2010

O Estado e a Igreja Católica I

É bom o Estado ser Católico? Desde a sua origem e firmados na Fé Católica os povos Católicos construíram os seus Estados, definindo então dois poderes, o poder temporal e o poder Espiritual! O primeiro legitimado pela imposição do Bem da Justiça material na sociedade e o segundo pelo Bem da Justiça divina. Justiça divina que é firmada na realidade, como criação Boa de Deus, segundo a revelação que provêm da Fé Católica! A Justiça material com isto, deve estar submetida às leis naturais, que são inteligíveis à razão do homem, pois a justiça divina provêm de um poder mais alto. Assim todas as leis que vão contra a vida, contra a natureza, contra o homem, são repugnantes à razão humana. São leis injustas pois a autoridade da justiça humana não se pode impor à realidade sem destruir o próprio homem, que é o ser por excelência desta mesma realidade! O Homem não pode ser o centro do pensamento, pois se ele é o coroar da criação desde o Big Bang, não o é pelo seu poder ou intenção! A Igreja Católica, representante deste poder Espiritual, o é pela justiça de Deus, pois Jesus Cristo a instituiu-a no mundo.. Mas se o homem a rejeita, ainda que o seu poder e frutos sejam imensos, desde já o contributo e a legitimidade que deu ao poder temporal de se erguer tal como o conhecemos, o Estado! O poder temporal não pode absolutizar a sua Justiça e o seu poder, como já fez no passado (Absolutismo dos Reis ou do Estado) impondo o direito do mais forte sob os mais fracos, mas também, desde a a laicização do estado, impondo-se sob direitos superiores como o direito natural que a Igreja defende como expressão da vontade do Verbo de Deus, segundo a Fé Católica!
O mérito da Fé Católica além de serem os principais dogmas serem testemunhados pelos Apóstolos como realidades históricas, e hoje, se não cremos também nessa realidade, a história da Idade Apostólica torna-se incompreensível e uma impossibilidade psicológica! Os Historiadores fenomológicamente confirmam ao menos uma coisa, os Apóstolos que viram a ressurreição acreditaram, no que diz respeito à realidade não interessa! ou então é descrita assim: "A existência de Jesus Cristo é histórica, como histórica é a existência da Igreja. Entre as duas situa-se o acontecimento trans-histórico da Ressurreição"1
Mas do meu ponto de vista o maior mérito da Fé Católica, é que ela crê na bondade do mundo, e não o vê como opressor! "E viu Deus tudo quanto tinha feito, e eis que era muito bom" (Génesis 1:31) O ser existe para se dar, para iluminar, para aquecer, para ensinar, no fundo para servir, o Verbo de Deus no qual todas as coisas foram feitas, veio ao mundo e ensinou-nos dando o exemplo, Amando-nos desceu ao mundo e fez-se homem, morrendo por nós para a nossa salvação. Deus lavou os pés aos Apóstolos para nos ensinar a servir e não para oprimir. Assim todas as autoridades todos os poderes instituídos são legítimas na medida que servem aqueles, nos quais são responsáveis! Não defendemos nenhuma guerra de classe, ou a origem pecaminosa do poder, como se o próprio Ser fosse opressor, como se o mundo fosse opressor, como tudo o que é exterior a mim fosse uma opressão à minha existência, muito pelo contrário, tudo o que existe, só tem uma finalidade que é brilhar na existência servindo, dando-se a si próprio como uma árvore dá os seus frutos!
Voltando para o tema desta postagem, sim o Estado deve ser Católico, antes de mais porque a sociedade é Católica, e o Estado é o seu Povo, e não uma entidade que transcende as pessoas como o Estado Comunista que busca ser Deus.. Mas também o Estado deve ser Católico porque o Estado Católico busca a sua plenitude o seu desenvolvimento para dar os seus frutos e servir!
Só com a Justiça temporal submetida ao próprio fundamento da Justiça, a ordem sábia do universo constituída por Deus, a justiça temporal não dará tiros nos seus próprios pés, como acontece hoje, aconteceu no Comunismo, e outras ideologias materialistas, humanistas, absolutistas, socialistas como o Nazismo, pois como muito bem disse Martin Luther King" Tudo o que o Hitler fez na Alemanha foi legal" no entanto foram crimes, porque actos verdadeiramente maus e verdadeiramente injustos, independentemente da vontade da maioria ou do homem mais forte! Assim mais uma vez a Igreja contribui para o desenvolvimento Humano e Civilizacional pela elaboração do direito internacional fundamentado na verdade universal inteligível a todos os homens pela realidade comum!

1- A Igreja no Ocidente, das origens às reformas no século XVI - Mireille Baumgartner