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quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Templários contemporâneos

Notícia curiosa que diz respeito à extinta ordem dos templários, que afinal foi apenas suspensa. Não sabia que a ordem dos templários ainda existia, e que a sua sede ficava em Portugal desde 1942, e tenha há volta de 20 mil membros em todo o mundo, tenho que confessar que fiquei surpreendido e agradado com a notícia, pois em termos históricos e civilizacionais foi de enorme importância para Portugal, como já registei nestas postagens, e por isso espero que tenham sempre presente os valores que estão na origem na sua criação, e os actos heróicos levados a cabo pelos seus membros no passado.

Claudino Marques, o organizador do evento da reunião magna dos templários em Coimbra diz que esta é uma organização que defende uma visão ecuménica, como se pode ler: "A Ordem dos Templários é uma organização independente, apolítica, religiosa, ligada ao cristianismo e, em particular, à Igreja Católica, mas que defende sempre uma visão ecuménica e o diálogo inter-religioso, de abertura a cristãos não católicos", disse Claudino Marques, também responsável do Bailiado das Beiras (que reúne várias comendadorias da região). Se com visão ecuménica, este quer dizer a visão contemporânea do ecumenismo, que sacrifica a verdade em prol da unidade, desembocando não na Paz de Cristo, mas sim na do Anti-Cristo, a ordem acaba por transformar-se numa caricatura do seu passado, mas julgo que não posso fazer aqui juízos.
Apenas desejo que os membros contemporâneos da ordem, e que são muitos, sejam dignos sucessores dos seus antepassados!

sábado, 10 de julho de 2010

Ordem do Templo, São Bernardo e os Cistercienses na Fundação de Portugal III

Os cistercienses escolheram para capital o vale formado pela confluência dos rios Alcoa e Baça, chamada a essa nova cidade Alcobaça. O castelo sobranceiro à colina, mandado erigir por D. Afonso Henriques para protecção dos monges, foi posteriormente destruído por terramotos e caçadores de tesouros.O Mosteiro de Santa Maria de Alcobaça, que além de ser o mosteiro situado mais a sul de entre os 340 que os cistercienses construíram por toda a Europa, a mando de São Bernardo, é um dos cerca de duas dezenas que ainda existem em Portugal. A sua Igreja é, talvez, o mais belo exemplo que resta da arquitectura medieval cisterciense, suplantando mesmo qualquer exemplar da Borgonha, incluindo Fontenay (a igreja dos cistercienses, em Clairvaux, foi transformada em prisão para criminosos loucos).
À semelhança do que acontecia em relação a outras artes, as obras arquitectónicas dos cistercienses tentavam conciliar beleza com simplicidade. Talvez, por isso, alguns especialistas tenham classificado o estilo de «severo» - um termo que, de facto, não parece muito apropiado quando entramos no MOsteiro Alcobaça. Bernardo proibiu o uso de vitrais, dourados e estatuária. Encontramos uma longa nave - que creio ser a maior do país - constituída de pilares brancos esguios que se elevam até aos tectos abobadados, intercalados por feixes de luz que entram através dos vidros transparentes. O padrão e a simetria repetem-se em cada uma das coxias laterais. Mais ou menos a meio da nave encontram-se duas capelas frente a frente, uma com o túmulo de D. Pedro I e a outra com o de sua mulher, D. Inês de Castro. Mulher nobre que integrou a corte portuguesa como a dama de companhia, tendo casado com D. Pedro sem o consentimento do pai deste, que, por vingança, ordenou a sua morte. D. Pedro mandou-a embalsamar e, quando ascendeu ao trono, colocou-a a seu lado, obrigando os cortesãos a beijarem-lhes a mão. Aos pés do túmulo de D. Pedro, existe um baixo-relevo evocando o seu último dia de vida, no leito da morte, alimentando-se de sopa e recebendo o sacramento da unção dos enfermos. Aos pés de D. Inês, está representado o juízo final, com uns, mãos erguidas ao Céu, e outros descendo penosamente o declive rochosos que conduz ao Inferno.
O rei D. Dinis, que ascendeu ao trono em 1279, quando tinha 18 anos, mandou construir o principal claustro ao lado da Igreja. Incluía a projecto a Casa do Capítulo, onde frequentemente se reunia em conselho com o abade e outros membros superiores da ordem, uma câmara real, que, funcionando, em certos períodos, como residência sua e de sua mulher, D. Isabel, aí recebia os convidados, e ainda uma sala tumular real. Considerado como um dos maiores monarcas portugueses de todos os tempos, ligou-se de tal modo aos «irmãos agrónomos» de Alcobaça que os seus cronistas lhe chamaram o Rei Lavrador. Os que arroteavam a terra ficavam isentos de impostos sobre o produto das colheitas, e aos rendeiros que, pondo em prática o conselho dos monges, conseguiam produzir mais e melhor eram concedidos freeholds1 dentro de dez anos.
Foi um projecto pessoal da rainha Santa Isabel desenvolver os pinhais, cuja plantação os monges de Cister tinham iniciado na planície costeira. Os estaleiros, onde os frades construíam navios de madeira, foram também expandidos. Pela primeira vez, desde a era romana, Portugal começava a negociar com o resto da Europa....
No reinado de D. Dinis, Portugal tornou-se um dos primeiros países a inovar nos seguros. Os armadores pagavam taxas à recém-criada Bolsa de Lisboa, que os ressarcia, na eventualidade de um dos seus navios ser assaltado pelos piratas ou afundado numa tempestade. D. Dinis também se notabilizou por ter fundado o ensino superior em Portugal, recrutando para tal professores em Paris. Diz-se que os primeiros estudantes se entregaram de tal modo e tão intensamente aos prazeres citadinos de Lisboa que o rei decidiu transferir a nova universidade para o ambiente mais espartano de Coimbra. Também é referenciado como o pai da literatura portuguesa. Até então, poucos eram os letrado fora da Igreja e quase tudo o que se escrevia era em latim ou borgonhês ( por vezes erradamente chamada provençal). D. Dinis determinou que a língua do povo seria o galaico, tendo procedido a adaptações que a transformaram numa língua distintamente portuguesa. Nela escreveu um grande número de poemas e de trovas. Talvez a sua proeza menos reconhecida a nível internacional tenha constituído na garantia de continuidade dos templários. Todos os livros que conheço sobre esta misteriosa ordem militar dão como certo que ela foi extinta na sequência das perseguições movidas pelo rei Filipe IV de França e pelo Papa Clemente V. Em princípios do século XIV, os cavaleiros templários tinham conseguido em França uma riqueza de tal modo espantos que eram donos de cerca de um terço da cidade de Paris. A família real francesa era uma das muitas que lhes deviam dinheiro. Apesar de tudo, Filipe IV tentou obter um novo empréstimo para financiar a desejada ocupação militar da Bélgica, o que foi recusado pelo grão-mestre, Jacques de Molay. Na sexta-feira, dia 13 de Outubro de 1307, ainda antes do amanhecer, todos os templários, em França, foram detidos por funcionários do rei, que confiscaram, para o tesouro real, toda a riqueza que puderam encontrar. Os monges foram acusados de delitos que iam desde o cuspir no crucifixo à idolatria, e «osculação despudorada». O Papa Clemente V emitiu uma bula dirigida a todos os monarcas da cristandade, a Pastorali Praeminenses, onde se determinava a prisão dos templários nos diferentes países, e a confiscação de tos os seus bens, o que, de acordo com os relatos conhecidos, ditou o fim da ordem.
(Na execução de Molay ele lança a sua famosa maldição, que provoca o fim da dinastia dos capetos, uma das causas para o inicio da guerra do 100 anos, que abre o tempo conhecido pelo outono da idade Média ou a crise dos séculos XIV e XV, açoitado pelo triângulo Maligno constituído pela guerra, fome e peste no qual terão morrido pelo menos 1/3 da população Europeia)
Alguns deles, no entanto, terão escapado à detenção. Diz-se que uma parte considerável do tesouro guardado em Chipre não foi confiscada. Em Portugal, D. Dinis minimizou a carta do Papa. O seu reino, que devia a existência à ordem, precisava agora dos seus membros para guardar a fronteira com a Espanha, ao longo das quais, aliás, tinha mandado construir um conjunto de castelos. Ordenou ao arcebispo de Braga que enviasse uma comissão de inquérito destinada a avaliar as acusações feitas aos templários. Inteiramente ilibados pelo arcebispo, D. Dinis anuiu formalmente às exigências do Papa, decretando a abolição da ordem em Portugal e a confiscação de tos os seus bens, ao mesmo tempo que anunciava a criação de uma nova ordem, a ordem de Cristo, cujo grão-mestre e todos os outros membros eram templários. A eles, na sua nova forma, ofereceu todos os bens e riquezas que lhes tinha acabado de confiscar. Os templários que tinham escapado às perseguições noutros países vieram aqui fixar-se. Crê-se, também, que trouxeram consigo o tesouro de Chipre, que alguns, ainda hoje, tentam encontrar, algures enterrado. Os cavaleiros de Cristo estabeleceram a sua sede em Tomar, nas margens do rio Nabão, perto da c0onfluência com o rio Tejo. Ainda hoje, o seu magnifico mosteiro fortificado domina a cidade. A sua capela é octogonal, uma forma que os templários entendiam que representava a harmonia de Deus com o Homem. Eram da opinião de que o Templo de Salomão tinha sido assim construído. Os monges, para acentuar a sua permanente actividade militar, costumavam assistir à missa, na capela, montados a cavalo.
Os cavaleiros atraíram à cidade artesãos para fabricarem armas, selas, vestuário, peças de olaria, mobília e utensílios agrícolas. Dividiram em herdades grande parte das terras que lhes foram devolvidas pelo rei, entregando-as a uma nova classe de fidalgos, alguns deles, de acordo com os arquivos locais, talvez simpatizantes dos templários vindos de França. Para beneficiar dos freeholds1 tinham de continuar a manter-se em forma como oficiais de cavalaria e, simultaneamente, treinaram os lavradores na arte de cavalgar, tanto em relação ao combate como na arte de esgrimir.
D. Dinis morreu em 1325 e a sua viúva, Isabel de Aragão, retirou-se para um convento, em Coimbra. Casaram quando ela tinha 12 anos, tendo rainha sido mãe muito nova. Pouco dado à monogamia, encheu-se de ciúmes doentios por D. Isabel, mandando-a prender durante algum tempo. libertada, ela mesmo criou, em Lisboa, um refúgio para mulheres vítimas dos maridos e um lar para crianças abandonadas. D. Isabel é actualmente considerada um dos santos mais populares do país. Reza a lenda que, um dia, transportando no avental comida que tinha ido buscar à cozinha real para dar aos pobres, foi interpelada pelo marido, que, gritando, irado, a acusou de roubo. Instada pelo rei a abrir o avental, dele caíram pétalas de rosas.
grande parte da vida da rainha Isabel foi dedicada à resolução de querelas familiares. Dissuadiu o filho a sublevar-se contra o pai, tendo, ainda, em outra ocasião, cavalgado entre os exércitos de pai e filho, desafiando-os a enfrentarem-se primeiros. Depois de suceder ao Pai, o novo rei, Afonso IV, marchou sobre Castela. Ao tomar conhecimento do facto, a mãe abandonou o claustro, galopando a cavalo em direcção ao exército português, conseguindo evitar a guerra, estava ela a começar. Ao regressar a casa terá sido, ao que parece, vitimada pela peste. Com ela acabaram os grandes dias do domínio da Casa de Borgonha em Portugal.

1- Propriedade fundiária normalmente atribuída em regimento perpétuo.

Texto retirado do livro "A Primeira Aldeia Global - Como Portugal mudou o mundo"
Autor: Martin Page - 6º edição Casadasletras

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Ordem do Templo, São Bernardo e os Cistercienses na Fundação de Portugal II

D. Afonso Henriques mandou construir um palácio e uma catedral para o bispo Gilberto, tendo oferecido uma mansão a cada um dos padres estrangeiros. Porque muitos dos cruzados leigos não queriam regressar aos seus países de origem, nem viver na cidade que tinham efectivamente destruído, Afonso Henriques cedeu-lhes algumas herdades a leste de Lisboa, designadamente nas imediações de Vila Franca de Xira, na margem norte do Tejo. Conta-se que, em resposta aos conselheiros que protestaram contra tais benesses aos bárbaros por parte da nova nação, o rei terá dito: «É porque sois tão gentis-homens que precisamos dessa gente para nos defender.»
Para Bernardo de Clairvaux, de regresso à Borgonha, a verdadeira luta pela conversão da zona sudoeste da Europa ainda não tinha sido travada e teria de recusar os métodos militares e evitar qualquer espécie de coacção. Os monges de Cister, que ele liderava, haviam renunciado à violência, ameaçados de excomunhão. Os seus objectivos eram a conversão das suas almas através de um processo gradual de crescente sintonia com a palavra de Cristo. Fora dos muros do mosteiros, não se devia pregar o Evangelho, mas sim vivê-lo. Só assim seria, de facto, possível mostrar que a dimensão do Cristianismo era superior ao do Islão.
A norte de Lisboa, Afonso Henriques concedeu a Bernardo, praticamente, a soberania sobre um vasto território, identificado actualmente pelo nome de costa de prata, que se estende das colinas de calcário do centro de Portugal até à Nazaré, no Atlântico, e de Óbidos até Leiria. Os monges de Cister, vindos da Borgonha para tomar posse das terras, eram livres de fazer as suas próprias leis, administrar a justiça, cobrar impostos e criar e gerir empresas. Canonicamente, não dependiam de Gilberto nem dos outros bispos locais, mas directamente do Papa, através de Bernardo. AS terras que lhes tinham sido concedidas estavam praticamente abandonadas, já que, durante o século anterior, haviam funcionado como uma espécie de fronteira em constante mutação entre a Cristandade e o Islão. A maior parte dos habitantes que não tinham sido capturados, escravizados ou mortos, por um dos lados, tinham fugido ou haviam sido vítimas pela peste. Com a proibição das ordens religiosas em Portugal, os monges foram finalmente expulsos, em 1834. Ainda ali se encontram actualmente agricultores que são descendentes dos colonos trazidos pelos monges, nos séculos XII e XIII, e também, ao atravessar-se a região de automóvel, se pode constatar que as zonas mais afastadas das estradas principais permanecem, em grande parte, como foram recriadas pelos cistercienses há 800 anos. Pomares de maças, pêssegos, pêras e marmelos coabitam com laranjeiras e limoeiros, meloeiros e morangueiros, e, nos campos, multiplicam-se as colmeias. Existem caracóis, codornizes, vários tipos de aves domésticas e faisões domesticados. Há vinhas nas encostas pedregosas e pinhais na planície arenosa costeira.
Os cistercienses, também conhecidos por Bernardos, introduziram as mais avançadas técnicas de agronomia e deram a conhecer uma enorme variedade de plantas de toda a Europa. Organizaram a extracção e a fundição do ferro e, junto à costa, desenvolveram a indústria da construção naval, das pescas, da extracção do sal, bem como a salga e a seca do bacalhau. A confecção de compotas e conservas segundo receitas suas ainda hoje é um importante negócio, havendo mesmo uma feira destes produtos, juntamente com presuntos e salsichas caseiras, realizada anualmente em Leiria, por ocasião da festa de São Bernardo. Introduziram ainda a arte do vidro, de tal modo que o cristal Atlantis é, hoje, o produto mais conhecido da região, a nível internacional.
Deram uma nova perspectiva social à vida do dia-a-dia, proibindo a escravatura nos seus domínios. Nas vinhas, como em outras actividades agrícolas, pagavam salários justos aos trabalhadores e os monges agiam não como patrões, mas trabalhavam lado a lado, executando as mesmas tarefas. A alfabetização, designadamente o domínio da língua franca europeia, o latim, que, até então, constituía um privilégio exclusivo da Igreja, passou a ser leccionado gratuitamente em escolas criadas para o efeito. O abade da ordem participava nos conselhos do rei como uma espécie de assistente social, ainda que, na prática, a sua acção fosse mais abrangente. Procurava garantir alimento aos que tinham fome, roupa e abrigo aos mais necessitados, assistência médica aos docentes, instrução aos jovens e apoio aos idosos.
Este relato terá sido classificado de demagogo por protestantes ingleses, de passagem pela região quando esta estava no auge, entre os séculos XVI e XVIII. Em 1774, o major Dalrymple, brindado com boa mesa e bom vinho pelos monges, escreveu no seu diário: «Estes pastores celestiais possuem tanta riqueza que se comprazem na preguiça e no ócio, o que constitui um empecilho para a sociedade.» Dez anos mais tarde, no entanto, o negociante escocês William Stephens considerava que o insucesso da oficina de tecelagem da cambraia se ficava a dever à generosidade dos monges em relação à população. «Ao distribuir bens supérfluos pelas populações, eles estão apenas a estimular o ócio. Tal facto torna ineficaz qualquer esforço de gestão, já que contribui para a diminuição de autoridade sobre os trabalhadores.»

Texto retirado do livro "A Primeira Aldeia Global - Como Portugal mudou o mundo"
Autor: Martin Page - 6º edição Casadasletras

quarta-feira, 30 de junho de 2010

Ordem do Templo, São Bernardo e os Cistercienses na Fundação de Portugal I

Hughes de Paynes, natural de Champanha, regressou à Europa no ano de 1126, depois de uma estada em Jerusalém. Veio à procura de homens, de dinheiro e da bênção do Papa para a fundação de uma nova ordem militar. Com Godofredo de Sain-Aunmer, outro cavaleiro cristão, tinha tido a ideia de criar a Ordem do Templo, com o objectivo de guardar a Igreja construída em Jerusalém, no local onde se diz ter existido o Templo de Salomão, e, simultaneamente, proteger os peregrinos que ali acorriam.
Só uma geração mais tarde é que os templários se começaram a empenhar nestes objectivos. Durante os primeiros anos da existência da ordem, os seus cavaleiros dedicaram-se, antes, à criação de um novo protótipo de estado cristão, que viria a ser Portugal. De tal modo que, muito tempo depois de a ordem ter sido perseguida e extinta, não apenas em França mas em todo o mundo, ela prosperou aqui, ainda que dissimuladamente até ao século XIX1. As histórias dos templários e de Portugal estão, de facto, intimamente ligadas e são interdependentes.
A ordem transformou-se na mais rica instituição do mundo ocidental, mais abastada do que qualquer monarquia, ou do que a própria Igreja, a quem, teoricamente, devia fidelidade. Contudo, na altura da sua criação, os fundadores eram tão pobres que o seu emblema era constituído por dois cavaleiros - presumivelmente, Hugues e Godofredo - montados num único cavalo.
Hugues viajou até à Borgonha, que, na altura, era a mais florescente região ocidental, constituindo a principal encruzilhada comercial e intelectual da Europa, para, de acordo com as crónicas cistercienses, pedir ajuda a um monge: Bernardo, abade de Claraval. Bernardo era, na altura, considerado um homem de enorme prestígio, capaz de influenciar a eleição dos Papas e de exercer sobre eles um poder efectivo... Desconhece-se quem pela primeira vez teve a ideia de fundar Portugal e desviar os templários para essa tarefa. Com base nas crónicas monásticas da Borgonha e na abalizada biografia de São Bernardo, da autoria do irmão Irénée Vallert-Radot, não se sabe ao certo se a intenção original era a de criar uma nova Nação modelar Cristã no flanco ocidental do Islão, que se estenderia do rio Minho, a norte da Ibéria, até Sul, que é agora Agadir, em Marrocos setentrional, imediatamente acima do deserto do Sara...
Desde finais do século XI que a família de São Bernardo tinha mostrado um interesse activo na Ibéria. O seu tio, o conde D. Henrique de Borgonha, ali se deslocou, com o seu exército, para ajudar D. Afonso, rei de Leão e Castela(..) na guerra contra os árabes. Como recompensa, recebeu em casamento a mão de D. Teresa, segunda filha de D. Afonso, que também lhes deu, como dote, a faixa de terras situada na costa atlântica entre os rios Minho e Douro, conhecida pelo nome de Portucale.
Ao chegar à maioridade, D. Afonso Henriques (filho de D. Henrique e D. Teresa) ... casou com uma prima do conde da Borgonha, D. Mafalda, filha do conde de Mouriana e Sabóia, Amadeu III. Depois proclamou-se a si mesmo rei por direito próprio. A este propósito, continuam, no entanto, por responder questões sobre o quando, o onde e o modo como tudo aconteceu. Ainda que a sua crónica oficial diga que os soldados o fizeram de forma espontânea, após grande vitória sobre os árabes e os berberes, na batalha de Ourique... A constituição da Ordem do Templo foi anunciada pelo Papa na cidade de Troyes, em Janeiro de 1128. Afonso Henriques enviou à Abadia de São Bernardo, em Clairvaux, o penhor da sua fidelidade e da sua nação. Seis semanas mais tarde, em meados de Março, Hugues de Paynes e um grupo de cavaleiros que tinham acabado de ser empossados chegaram a Portucale. Há quem, a propósito, comente a celeridade com que tudo aconteceu, partindo do princípio de que a viagem foi feita a cavalo. Só que também não se pode ignorar que a Borgonha era o eixo de um complexo de vias marítimas, que se espraiavam pelos quatro pontos da bússola. Para consultar São Bernardo no casebre onde vivia, nos terrenos do mosteiro, o Papa foi até Claraval de barco, subindo a costa mediterrânica de Itália e, depois, pelo rio Ródano, em Marselha. Hugues e os outros cavaleiros seguiram a rota contrária, descendo até ao Atlântico, tendo sido ajudados pelas correntes e pelos ventos alísios em direcção a sul. No estuário do Lis, perto onde se ergue hoje a cidade de Leiria, conquistaram um castelo aos berberes e aí fixaram residência...
Para festejar o quadragésimo aniversário do rei D. Afonso Henriques, em 1147, foi lançada uma nova iniciativa que, com origem da Borgonha, pretendia acabar com o impasse existente entre cristãos e muçulmanos. Em quase todos os países da cristandade, a moral andava muito em baixo. A partir do mar Negro, os muçulmanos tinham avançado significativamente em direcção a leste. Simultaneamente, existia a ameaça do mundo eslavo. São Bernardo e o Papa Eugénio III, seu ex-noviço, lançaram um apelo visando um Segunda Cruzada. Ainda existe hoje uma carta escrita por São Bernardo a seu primo D. Afonso Henriques, que, tratando-o por «ilustre rei de Portugal», se refere de modo bastante elogioso aos cavaleiros que levaram a missiva. Mal eles chegaram a Portugal, Afonso Henriques e Hugues de Paynes conduziram-nos a Santarém, cidade que ocupava uma posição estratégica em relação ao rio Tejo. Aí chegados, os cavaleiros enviaram um mensageiro ao governado muçulmano, informando-o de que dispunha de apenas três dias para se render, caso contrário, avançariam sobre a cidade. Só que, como eram poucos, o governador ignorou-os...
Todos tinham, entretanto, jurado, perante São Bernardo, que renunciariam ao ganho pessoal, já que combateriam apenas por Cristo. .. No Mosteiro de Alcobaça pode ver-se um painel de azulejos representando o rei, após a tomada de Santarém, a escrever uma carta de agradecimento a São Bernardo pelo auxílio dado. Animados por este sucesso, os borgonheses lançaram uma campanha com o objectivo de recrutar novos cavaleiros. A iniciativa alastrou-se à França, Alemanha, Países Baixos e Inglaterra, país que havia sido ocupado pelos normandos, após duas tentativas fracassadas de dominarem Portugal. Alistaram-se, ao todo, 3000 homens, que transportados numa frota de 164 navios, atravessaram o Reno e o Sena, desceram os rios de Inglaterra e, percorrida a sua costa sul, se reencontraram no porto de Dartmouth, em Devon.
Ao escreverem sobre a dívida histórica de Portugal à Grã-Bretanha, vários historiadores locais consideram que esta foi essencialmente uma expedição inglesa, apoiada por alguns continentais. Hoje, poucos parecem pôr em causa o facto de que o propósito inicial da expedição era uma cruzada à Terra Santa, só que a armada, obrigada a enfrentar uma violenta tempestade no golfo da Biscaia, teve de ancorar na cidade do Porto para proceder Às reparações dos navios e de os reabastecer de água e alimentos.. Ao que consta, os cavaleiros terão sido ali brindados com uma lauto repasto, oferecido pelo bispo local, que, através de intérpretes, leu um apelo de D. Afonso Henriques, solicitando-lhes que apenas prosseguissem viagem depois do ajudarem a conquistar Lisboa.
Contrária, no entanto, é a opinião expressa nas crónicas da Borgonha, segundo a qual desde o início da expedição era Portugal. Ainda de acordo com esses textos, o reencontro dos barcos em Dartmouth teve apenas a ver com o facto de, desde os tempos do Antigo Testamento, aquele porto ser considerado como o melhor local de onde se podia partir para atravessar o golfo da Biscaia. Era, aliás, uma rota que continuaria a ser utilizada por navios de diferentes nacionalidades norte-europeias ao longo de várias centenas de anos. Esta conquista (de Lisboa) constitui, na prática, o único êxito da Segunda Cruzada, que, fora isso, redundou num autêntico fracasso para São Bernardo e para o Papa, seu protegido.

1 - Extinta, por pressão do rei de França, em 1312, pelo Papa Clemente V, os bens dos templários, em Portugal, passaram para a nova Ordem de Cristo, confirmada por bula Papal a 14 de Março de 1319.

Texto retirado do livro "A Primeira Aldeia Global - Como Portugal mudou o mundo"
Autor: Martin Page - 6º edição Casadasletras