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domingo, 21 de novembro de 2010

Ainda sobre as declaraçãoes de Bento XVI

Em memória de todas as vítimas do aborto, Ámen!

Eu na postagem anterior, tentei compreender as declarações do Papa, e acho que consegui justificá-las, mas surgiu outro problema, é o Papa quem as diz! O que há mais perigoso para a Fé, é o Papa opinar sobre casos particulares, devido à sua complexidade e subjectividade, que trazem confusão à verdadeira doutrina, no qual ele é o principal guardião. O Diabo, é um ser muito inteligente, e o que ele mais faz, é colocar pedras de tropeço. Ora a Igreja como guardiã da Fé, da Verdade que une todos os homens do mundo, legisla sempre nas questões da doutrina, moral, fé, em harmonia com a Verdade da natureza humana e do mundo, cuja universalidade não deixa ninguém de fora. No entanto, no nosso mundo imperfeito, existem casos particulares, que aparentemente tornem a Verdade, demasiado dura. Por exemplo no caso do aborto, os servos do demónios, fazem por embaraçar a pretensa Verdade das leis da Igreja, com casos esdrúxulos, como por exemplo, quando uma criança é violada e fica grávida, como aconteceu à pouco tempo, no Brasil. É óbvio que não há nada que justifique um assassínio, por mais que seja de lamentar os casos de violação. Aqui com os preservativos é a mesma coisa, não há justificação para o seu uso em relações heterossexuais, e mesmo assim, só aparentemente é que parecem ajudar, mas no fundo tornam as pessoas mais promiscuas. Já nas relações homossexuais, como disse na postagem anterior é indiferente o uso do preservativo, por isso acabo por concordar com o Papa neste caso particular. O problema é que o Papa não pode opinar sobre casos particulares, o Papa como detentor das Chaves de Pedro, deve olhar para o Céu e não para a Terra, um dos principais problemas hoje da Igreja, é o não exercício do seu poder de magistério infalível.. e isso deve-se também à ditadura do relativismo que o Papa tanto ataca. Por isso o Papa deve-se abster de análise de casos miseráveis do nosso mundo, mas que existem, porque quanto mais particular é um caso, mais subjectivo torna-se o seu julgamento e mais prudente é deixar para a justiça Divina. Hoje assiste-se a um fenómeno curioso no mundo que é a emancipação de particularismos contra aquilo que é universal e por isso racional, e nas leis é a mesma coisa, reconhece-se hoje a homossexualidade, contra a universalidade da heterossexualidade, reconhece-se hoje um terceiro sexo que não se sabe bem o que é, contra a universalidade do sexo masculino e feminino, reconhece-se valores de minorias contra os valores da maioria, ainda por mais bizarros que sejam, mas lutam contra uma cultura, cuja razão tem pouco a dizer.. O Papa deve ser prudente, não pode tropeçar, nem pode deixar que a Igreja tropece, deve fixar o mundo com os olhos de Deus, que contemplou a sua obra, e viu que tudo era Bom, e legislar consoante a lei de Deus e da Criação, com toda a autoridade que Deus lhe deu, nos locais próprios e com todos os símbolos inerentes ao seu Poder!

Nota: A minha tentativa de defesa do Papa na postagem anterior tem falhas, e isso deve-se, pela particularidade e subjectividade do caso. Ou seja, no caso do infractor, ter sida e não conseguir evitar o pecado homossexual, o uso de preservativo como um acto de protecção dele e do parceiro por incrível que pareça é bom, porque como já disse a malignidade do preservativo neste caso não se põe, ainda que o acto homossexual seja intrinsecamente mau, mas se o homossexual usa o preservativo como um instrumento de seguro para uma maior promiscuidade, é óbvio que é mau e agrava o pecado, porque o deixa mais preso a este! Por isso lamento ter sido o Papa o primeiro a opinar sobre este caso particular, quando ele têm é que fortalecer as leis Universais e Verdadeiras da Igreja.

O pecado do preservativo

Pelas almas do Purgatório. Amén

As polémicas palavras do Papa Bento XVI, sobre o uso do preservativo em casos excepcionais por parte de prostitutos, levantaram um clamor de indignação por parte das pessoas tradicionais, no qual também me defino, no entanto, acho que o exemplo dos homossexuais dado pelo Papa, foi um bom exemplo, porque as relações homossexuais por si só já estão fechadas à vida, o que as torna indiferentes ao uso de preservativos, porque a principal causa para a condenação de contraceptivos, é por estes negarem o potencial dom da vida. Mas numa relação homossexual, não existe esse dom de vida, por isso o uso do preservativo não vai agravar o dito pecado, porque nesse aspecto não faz diferença!
Então porque os homossexuais usam preservativos? Os homossexuais usam preservativos, para se protegerem de doenças sexualmente transmissíveis, aquilo que o Papa chama: "a consciência de que nem tudo é permitido", e será isso um pequeno passo, para terem consciência que o acto homossexual é intrinsecamente mau? A resposta parece-me que sim.. no entanto quem está no terreno, e lida com essas pessoas, é quem conhece melhor a realidade, e infelizmente os seres humanos são criaturas fracas, e 'as tais circunstâncias que atenuam o pecado' não ilibam o acto de ser mau, neste caso as relações homossexuais. E estas por serem tão baixas ao negarem a vida, acabam por ilibar o preservativo e torná-lo um instrumento de consciência e protecção, isto porque o preservativo serve para duas coisas, tem duas potências, uma boa e outra má, no qual a má (negação da vida) anula a boa (protecção contra as doenças) devido à sua gravidade.

O que seria impensável numa relação heterossexual, o acto homossexual acaba por tornar indiferente tal é a sua decadência, assim o acto mau do preservativo acaba por ser anulado, e o acto bom vê-se como um primeiro passo, de milhões que têm que ser dados, para uma restituição da dignidade humana.. Infelizmente estas particularidades, não existiriam num mundo perfeito governado por leis universais, e por isso estas concessões parecem à primeira vista uma primeira brecha no muro da doutrina Católica, no entanto nós Católicos temos que baixar-nos muito para não sermos frios na caridade. As portas do Inferno não prevalecerão!

É a opinião de um simples leigo. Ainda assim queria lamentar o espectáculo de perseguição que mais uma vez o mundo católico é confrontado, o espectáculo dos media que só metem o que querem, e o espectáculo do demónio que é quem mais se diverte junto com os amigos...


As respostas de Bento XVI

“Em África, Vossa Santidade afirmou que a doutrina tradicional da Igreja tinha revelado ser o caminho mais seguro para conter a propagação da SIDA/AIDS. Os críticos, provenientes também da Igreja, dizem, pelo contrário, que é uma loucura proibir a utilização de preservativos a uma população ameaçada pela SIDA/AIDS.”


«Em termos jornalísticos, a viagem a África foi totalmente ofuscada por uma única frase. Perguntaram-me porque é que, no domínio da SIDA/AIDS, a Igreja Católica assume uma posição irrealista e sem efeito – uma pergunta que considerei realmente provocatória, porque ela faz mais do que todos os outros. E mantenho o que disse. Faz mais porque é a única instituição que está muito próxima e muito concretamente junto das pessoas, agindo preventivamente, educando, ajudando, aconselhando, acompanhando. Faz mais porque trata como mais ninguém tantos doentes com sida e, em especial, crianças doentes com sida. Pude visitar uma dessas unidades hospitalares e falar com os doentes.

Essa foi a verdadeira resposta: a Igreja faz mais do que os outros porque não se limita a falar da tribuna que é o jornal, mas ajuda as irmãs e os irmãos no terreno. Não tinha, nesse contexto, dado a minha opinião em geral quanto à questão dos preservativos, mas apenas dito – e foi isso que provocou um grande escândalo – que não se pode resolver o problema com a distribuição de preservativos. É preciso fazer muito mais. Temos de estar próximos das pessoas, orientá-las, ajudá-las; e isso quer antes, quer depois de uma doença.

Efectivamente, acontece que, onde quer que alguém queira obter preservativos, eles existem. Só que isso, por si só, não resolve o assunto. Tem de se fazer mais. Desenvolveu-se entretanto, precisamente no domínio secular, a chamada teoria ABC, que defende “Abstinence – Be faithful – Condom” (“Abstinência – Fidelidade – Preservativo”), sendo que o preservativo só deve ser entendido como uma alternativa quando os outros dois não resultam. Ou seja, a mera fixação no preservativo significa uma banalização da sexualidade, e é precisamente esse o motivo perigoso pelo qual tantas pessoas já não encontram na sexualidade a expressão do seu amor, mas antes e apenas uma espécie de droga que administram a si próprias. É por isso que o combate contra a banalização da sexualidade também faz parte da luta para que ela seja valorizada positivamente e o seu efeito positivo se possa desenvolver no todo do ser pessoa.

Pode haver casos pontuais, justificados, como por exemplo a utilização do preservativo por um prostituto, em que a utilização do preservativo possa ser um primeiro passo para a moralização, uma primeira parcela de responsabilidade para voltar a desenvolver a consciência de que nem tudo é permitido e que não se pode fazer tudo o que se quer. Não é, contudo, a forma apropriada para controlar o mal causado pela infecção por VIH/HIV. Essa tem, realmente, de residir na humanização da sexualidade.»

“Quer isso dizer que, em princípio, a Igreja Católica não é contra a utilização de preservativos?”

«É evidente que ela não a considera uma solução verdadeira e moral. Num ou noutro caso, embora seja utilizado para diminuir o risco de contágio, o preservativo pode ser um primeiro passo na direcção de uma sexualidade vivida de outro modo, mais humana.»

In Bento XVI, Luz do Mundo – O Papa, a Igreja e os Sinais dos Tempos – Uma conversa com Peter Seewald, Lucerna, 2010

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Tempos de crise e decadência II

Em acção de graças pelo reinado do Papa Bento XVI, Amén.

A ditadura do relativismo domina todas as instituições, estruturas, ideias, o ser do Ocidente, este estado mental, permanece devido à ausência da novidade, nesta história já tão velha.. Não há coisas novas para acreditar, só temos aquilo que permanece... Mas o Homem, busca sempre o que é novo, para descartá-lo logo a seguir por ser velho, de facto só o infinito, o absoluto, saciará plenamente o Homem. Por isso só as obras intemporais, só as ideias intemporais, as instituições intemporais, é que merecem o louvor dos homens e das sociedades, e é nestes tempos de velhice e decadência, que as coisas intemporais presentes na história até aos nosso dias, é que começam a ganhar importância e a reluzir mais, por conseguirem vencer a lei do tempo provando o seu valor e universalidade. É neste contexto, que a Igreja Católica tem de retirar do seu baú os seus imemoriais tesouros, porque as almas hoje têm sede do que é intemporal, querem se tornar outra vez fortalezas e não ondas agitadas. Nestes tempos sem crescimento, sem nada de novo, o que permanece brilha mais, tal como as estrelas que brilham no céu, quantos mais afastados estamos das luzes do mundo, e hoje o mundo ocidental tem poucas luzes.

Bom, aquilo a que quero chegar, é como chegámos aqui? Nós Católicos cremos que a Igreja Católica como sacrário de Cristo, como mãe que prepara-se para dar à luz, com Mãe da Luz, que tem como missão dar muitos filhos a Deus, será que deixou de iluminar e ficou estéril? É impossível, no entanto hoje, quando o mundo tem fome de Deus, a acção da Igreja é escassa em frutos, a conversão é lenta, a renovação dos espíritos é lenta.. A conclusão é óbvia, a Igreja deixou-se contaminar pela esterilidade do mundo, e hoje tanto a cidade temporal, como a cidade espiritual, padecem da mesma doença, que é o tempo, na primeira é natural, na segunda não, pois Cristo a cabeça da Igreja está fora do tempo junto com a Igreja Triunfante. Por isso mesmo a Igreja Militante sofre de um paradoxo, que é uma doença para qual tem a cura, Jesus Cristo a Verdade que transcende o Tempo, por isso só tem que prestar o verdadeiro culto que recebeu de Cristo pela sucessão apostólica. Será que é difícil?

O próprio relativismo e modernismo já são velhos, parafraseando um génio literário português ainda que herege na doutrina, Fernando Pessoa define o homem pelo seu heterónimo Ricardo Reis, como "sepulcros adiados que procriam", mais relativismo que isto não há! E já morreu há mais de 70 anos, por isso para nós Católicos, ficámos aflitos quando a Igreja tarda em iluminar um mundo tão velho... resta-nos orar e esperar, para que a Igreja volte outra vez a sua cara para Deus e não para os homens!

domingo, 26 de setembro de 2010

Que Direito?

O nosso primeiro-ministro José Sócrates encerrou o seu discurso na abertura da 65ª Assembleia Geral das Nações Unidas com esta pérola “O meu país é um país que acredita no primado do direito". Certamente a noção de direito que ele tem, não é a mesma que a minha, mas o primeiro-ministro que legalizou o aborto, o casamento homossexual e é favor da adopção destes, a favor de uma forma de eutanásia, certamente não acredita no primado da vida, pois decapitou em Portugal o direito à vida, nos momentos mais frágeis desta. E o que adianta defender o primado do direito, quando este direito é logo encapotado na sua origem, e já não falo de Deus, causa primeira da vida, mas na negação da primazia da vida humana, e da sua sacralidade, pois nenhum homem a criou.
O direito fundamenta-se e originou-se na história humana, devido à capacidade do homem de conhecê-lo e ter consciência deste, ao contrário de todos os outros animais que inconscientemente o obedecem, por isso jamais homem algum ou sociedade alguma, têm poder ou autoridade sobre o direito natural, sem se auto-destruir e aniquilar-se como hoje acontece. A vida existe antes de qualquer direito humano, e homem algum tem poder ou autoridade sobre Ela, só Deus que a criou.

Nota: Quando falo aqui em Vida, refiro-me principalmente às vidas humanas dentro do útero, que são sempre inocentes, e por isso uma barbaridade matá-los, ou aos suicidas legais, que escolhem acabar com a sua própria vida, como se fossem proprietárias da vida, e esta não tivesse sido dada. Quanto à questão do direito de uma sociedade poder executar alguém culpado segundo as leis positivas alicerçadas sob o direito natural, isso é outra questão mais complexa.

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Credo quia absurdum

Este texto é de um ateu, que no entanto revela precisamente uma das causas da apostasia da fé, a transformação da essência da fé como Verdade, para uma fé de sentido e utilidade individual, consequência do liberalismo na Igreja, ou seja, a primazia da consciência do individuo sob todas as coisas..
E como o autor diz e dá o título a esta postagem a fé tornou-se um absurdo, mudança que a hierarquia da Igreja tarda em reconhecer para a combater no seu cerne, voltando a Fé à sua essência, aquilo que é próprio dela, a Verdade.

Retirado do livro: Existe Deus? - Ateísmo e Verdade - Paolo Flores DÁrcais

E então, se uma religião já não é verdadeira/falsa, mas válida segundo o sentido-consolação que consegue fornecer à existência, como separar a palha do grão, como distinguir entre uma grande religião e uma mesquinha superstição? Porquê o Cristianismo, e não a astrologia, já que no tocante ao «sentido» esta ( a astrologia), aparentemente, funciona bastante melhor como «fé» de massas, pelo menos a julgar pela facturação do ramo, cujo crescimento é exponencial? O critério do sentido é inexorável, leva ao subjectivismo mais radical, à fé como unguento e bálsamo da alma: a cada qual a sua maquilhagem religiosa, substituível segundo a moda e a necessidade, contando que nesse momento reaja bem com a pele da existência. Uma religião do sentido (e não da verdade) já não é uma religião de pessoas, mas de simples consumidores (de sentido).
Não basta. Se o critério da religião fosse o sentido, a saber, qualquer sentido com a condição de que funcione, prescindindo da verdade, teria razão Freud: a religião é uma ilusão (e inclusive Marx: é ópio dos povos - e, porventura, dos indivíduos). O «respeito»pós-moderno da religião enquanto inconsciência (obscuridade na consciência:obscurantismo!). Quanto mais ilusões tivermos tanto melhor porque de facto, só assim poderá a ilusão funcionar de modo pleno. Mas o niilismo mais radical, que a religião imputa a todo o relativismo moral, declarando-o assim invivível, celebraria assim o seu sabat imparável. Semelhante religião não pode funcionar. Quem aceitaria uma ilusão, sabendo que é tal? Para a aceitar, é necessário tê-la por verdadeira, exigir que pertença ao âmbito que é avaliado segundo as categorias de verdadeiro e falso, e que de facto constitua o seu núcleo. A religião como mero «sentido» está sempre exposta à possibilidade de se desmoronar. Não tem fundamento nem sequer raiz. Como vimos, é por natureza frívola e giróvaga. É a moda elevada a religião. E se consegue fazer um espectáculo maior ou menor do que a religião maior ou menor do que a religião da moda, é todavia só na concorrência entre homólogos.
Toda a religião quer ser verdade, e não pode renunciar a tal pretensão. Deve ser verdade. De outro modo, também o «sentido» se desvanece. o que grande parte da filosofia hermenêutica pode admitir e, inclusive, teorizar a partir de fora, a religião não o pode aceitar a partir de dentro. Portanto, a filosofia que «reconhece» a religião, desprezando as objecções «vetustas» e toscas dirigidas contra as verdades que a religião considera demonstráveis, toma a religião por aquilo que ele não pode, de forma alguma, admitir o que é. Não a honra, mas pisa-a, interpreta-a no abismo do equívoco consigo mesma, na absoluta opacidade, torpeza e inconsciência de si mesma. E a religião, ao favorecer esta filosofia como interlocutor privilegiado, como o pensamento com que estabelece um diálogo, aceita ser precisamente o que na essência deve recusar ser, se ambiciona continuar a ser.
Tanto mais que o sentido-consolação só tem razão de ser como resgate da dor terrena na vida eterna. Mas esta só tem sentido se for indubitável. Se a dúvida conseguir instalar-se de modo razoável, qualquer distracção terrena, qualquer divertissemente, se aperceberá facilmente dessa incerteza. Só é possível mudar de vida, em relação às quimeras do mundo, se o finito se encarar perante o certo eterno, não se pode pôr a circular a suspeita de que também a religião é incerteza, divertissemente - e, porventura, o mais sublime - para se distrair dos horrores do mundo. De outra forma, as quimeras do mundo cobrarão juros, porque o finito é, por agora, a «totalidade» certa que o homem experimenta. Por isso, se a filosofa convencesse os crentes de que o valor da religião reside no sentido, e não na verdade, eles deixariam de acreditar e, desta forma, desapareceria a fé, cujo sentido a filosofia pretende interpretar. Se não desejar perder este seu «objecto», a filosofia deve, pois, interpretar a fé nos termos da sua pretensão de verdade. Em suma, que os conteúdos de verdade de uma religião sejam verdadeiros ou falsos continua a ser essencial. Por isso, há que demonstrá-los, e o ónus da prova - incontrovertível, porquanto está em causa a existência no seu conjunto - cabe a quem os enuncia.
A não ser que se opte pelo caminho rigoroso da fé como pura fé, da fé que se esquiva radicalmente à argumentação racional. Mas que renuncia, assim, a todo o saber e, inclusive, a toda a comunicação discursiva. uma fé absolutamente vertical, singular, ilógica. Que talvez só a teologia de Barth, no século XX, tentou tomar a sério. Uma fé que, no sentido mais amplo, nada tem a dizer à razão e que, por isso, nada pretende raciocinar para converter. Que se expressa (e comunica) porventura nos comportamentos e nos gestos, e no rigoroso silêncio do logos. Com uma consequência óbvia: nenhuma pretensão de impor nada seja a quem for, utilizando Deus - e os «argumentos» da fé - como argumento em qualquer deliberação pública. Mais uma vez: credo quia absurdum.

terça-feira, 6 de julho de 2010

O único futuro

por Anselmo Borges

O casamento é a realização mais espantosa da humanidade. A mais utilizada forma de transmitir a existência e a única eficaz de transmitir a civilização. Que duas pessoas tão diferentes encontrem uma complementaridade fecunda para a vida e, através da sua união, dêem substância e continuidade à comunidade humana é sublime. Mais ainda, uma descrição objectiva do que está implicado na vida quotidiana de um casal mostra a qualquer observador perspicaz que ele é formalmente impossível. As núpcias que permanecem não são as fáceis e sem problemas, porque essas não há. Todos os casamentos são impossíveis. Alguns simplesmente existem e persistem. Os casamentos que duram constituem a realização mais espantosa da humanidade.

O nosso tempo adicionou aqui uma dimensão. Em vez de o considerar como ele é, um bem precioso, frágil e essencial, decidiu procurar formas alternativas de transmitir a existência e a civilização. Sempre houve promiscuidade, adultério, divórcio, união de facto, consequências directas da impossibilidade do casamento. Esta é a primeira época que admira e promove esses comportamentos, enquanto inova furiosamente em contraceptivos e procriação artificial. Além disso, desconfiando da capacidade dos pais para ensinar os valores básicos, entrega ao Estado ou ao mercado essa função. A doutrinação ideológica, mascarada ou não de educação, e os desenhos animados são as formas contemporâneas de transmitir a civilização.

A consequência disto, outra novidade, é a aparente derrocada conjugal. No caso português, a taxa bruta de casamento em 2008 foi de 4,1 por mil habitantes, metade da taxa de 1979 e pouco acima da taxa de divórcios, 2,5 por mil, que quadruplicou nestes 30 anos. Os nascimentos fora do casamento subiram de 8,2% em 1979 e 14,7% em 1990 para 36,2% hoje. Muitos interpretam estes números como a obsolescência do casamento. Pelo contrário, o espantoso não é serem tão negativos, mas ainda serem significativos.

Considerando a campanha cruel, esmagadora e obsessiva que as últimas décadas moveram contra o casamento, o que surpreende é que tenha resistido como resistiu, e continue a ser a mais utilizada forma de transmitir a existência e a única eficaz de transmitir a civilização. A maior parte das instituições assim atacadas desapareceu.

Filmes, revistas, séries e jornais, junto com leis, políticas, discursos e programas, todos se uniram para evidenciar o que sempre se soube: o casamento é impossível. Não notam que, ao fazê-lo, serram o tronco onde se sentam. Esta louca insistência nas óbvias dificuldades matrimoniais, sem alternativas válidas, só pode ter um resultado: a decadência social. Não só a fertilidade atingiu na Europa níveis de extinção da espécie, mas a solidão, depressão, traumas infantis, agressividade, suicídio chegaram a níveis patológicos. Os esforços do nosso tempo para abandonar o casamento só conseguiram destruir-nos.

Esta atitude tem as suas razões. Nasce da reacção a um erro dos séculos anteriores, que por vezes desequilibrou as duas dimensões do casamento. Nas gerações precedentes, o elemento romântico e emocional da união dos esposos foi frequentemente secundarizado em favor da estrutura social. Os pais combinavam os noivos porque casamento era, antes de mais, futuro do clã, alianças genealógicas, interesses de herança. Paixão, amor e sexo eram exteriores ao vínculo nupcial. Não se deve exagerar esta situação, porque a maioria dos casamentos sempre foi normal, mas certos estratos enviesaram neste sentido.

As gerações actuais caíram no extremo oposto. Repudiam justa e fortemente este modelo mas absolutizam a liberdade e emoções conjugais. Desprezando o casamento de conveniência e as alianças de clã acabam por abandonar o próprio casamento. O fundamentalismo erótico anula a relação ao primeiro obstáculo e chega a ridicularizar a procriação. Este modelo é tão desequilibrado quanto o anterior, mas, ao contrário dele, implica a extinção da sociedade. Porque o casamento, mesmo impossível, é o nosso único futuro.

naohaalmocosgratis@fcee.ucp.pt

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Bento XVI

Excerto de entrevista, traduzida pelo site Montfort!

III- Sobre o Motu Proprio Summorum Pontificum:

Padre Aulagnier: “Esse Motu Proprio talvez produzirá lentamente todos os seus frutos. Talvez serão necessárias várias gerações, mas o movimento foi lançado, e ele é inelutável. Não se voltará atrás. Quando ouço o Papa denunciar, discurso atrás de discurso, o relativismo do pensamento moderno, e afirmar contra isso que a inteligência foi feita para a verdade e que o verdadeiro – Deus é a verdade – é a única fonte do equilíbrio moral, quando ouço o Papa conclamar que se volte ao estudo do ser, que é a nobreza da razão e fonte do realismo que só ele permite de fugir do subjectivismo e do pensamento cartesiano, assim como quando ele fez seu discurso em Ratisbona, eu me alegro.

Quando, nesse mesmo discurso, eu ouço o Papa dizer, na cara de todos os agnósticos presentes ou ausentes que «uma razão surda ao divino e que repele as religiões ao domínio das sub-culturas, é inapto ao diálogo das culturas», eu me alegro com isso. Não condenou ele assim todo o laicismo contemporâneo que inspira tão fortemente nossos políticos? Esse é um aspecto essencial da Modernidade. Não condenou ele também por suas palavras esta edificação da Europa cujos responsáveis recusam colocar Deus e a religião cristã, tão essencial à Europa, no coração da constituição europeia? Quando vejo que todas essas ideias têm um eco tão forte na igreja ortodoxa de Moscovo e que as relações estão melhorando a ponto que se ouve dizer que haverá um provável encontro, e mesmo iminente entre Bento XVI e o Patriarca de Moscovo, eu me alegro. Compreendo quanto as críticas de Hans Küng contra Bento XVI são injustas e miseráveis. O próximo encontro de Roma e Moscovo mostrará quão pouco fundamento tinha a sua crítica. Ele se desonra. Quando ouço o Papa tão corajosamente condenar qualquer aborto e falar tão altamente em favor da vida desde o nascimento até a morte natural, eu me alegro. Tudo isso me faz compreender porque o «mundo « se desencadeia em ódio contra Bento XVI. Como dizia recentemente um pensador:compreendo essa oposição, porque Bento XVI é talvez o único « contestador» da «Modernidade», não do progresso material, mas do relativismo contemporâneo.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Homossexualismo

De nação Católica, estamos em alta velocidade a liderar o plutão dos países mais progressistas do mundo, e tudo, dizem os 'iluminados' em nome do direitos humanos! A recente promulgação por parte do presidente.... do casamento Homossexual, ao contrário do que os progressistas afirmam, não fortalece os direito humanos, muito pelo contrário, acerta em cheio na destruição destes! Se as Leis Universais assim são chamadas, é porque são inerentes à própria realidade, e no caso dos direitos humanos, à natureza do homem! Assim o direito positivista alia-se ao direito Natural, para o homem viver em sociedades Justas e Verdadeiras, protegendo a dignidade de todo Universo, de todos os povos, de todas as pessoas! O Homossexualismo não é natural, destrói o corpo de quem é sodomizado, mas hoje impera a "ditadura do Relativismo", ditadura que vai destruir toda a verdade, todo o bem, os próprios direitos humanos! Se o lobby marxista que apoia a causa gay, sair vitorioso na sua 'modernização' dos direitos humanos, estes acabarão por transformar-se numa 'figura jurídica' artificial ao serviço do mais forte, ao sabor das modas impostas pelo poder, tal como aconteceu na Alemanha de Hitler, que legalizou o extermínio!

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Bento XVI e o relativismo

José Manuel Fernandes - Onde me encontro com Bento XVI

Na altura em que Bento XVI foi eleito, em Abril de 2005, previ que "dificilmente" o seu papado seria o de um mero continuador de João Paulo II. Cinco anos depois, e quando se prepara para visitar pela primeira vez Portugal como chefe da Igreja de Roma, é claro para todos que o Papa alemão não procurou ser o que não era - um líder carismático, à imagem do seu antecessor -, antes não descurou a reorganização da Igreja, centrando-a nos combates mais importantes da actual pós-modernidade.

Horas antes de se iniciar o Conclave que o escolheria como sucessor de Pedro, o então cardeal Ratzinger proferiu, como decano do Colégio dos Cardeais, uma homília que se tem vindo a revelar todo um programa. "Possuir uma fé clara, seguir os ensinamentos da Igreja, é classificado com frequência como fundamentalismo", disse então, perante os 115 cardeais eleitores. "Em contrapartida, o relativismo, isto é, o deixar-se levar "para aqui ou para ali por qualquer vento ou doutrina" parece a única atitude aceitável nos tempos que correm. Toma corpo uma ditadura do relativismo que não reconhece nada como definitivo e que deixa tudo ao critério do próprio ego e dos seus desejos".

Ao definir o relativismo moderno como o maior adversário contemporâneo do humanismo cristão, lembrou que "ser-se adulto" significa ter uma fé que não segue atrás das ondas das modas de hoje ou das últimas novidades". E por isso, apesar das mudanças que tem vindo a introduzir na Igreja - nomeadamente na dolorosa e delicada frente da denúncia e prevenção dos casos de pedofilia, onde tem sido de uma grande pro-actividade -, Bento XVI nunca se deixou levar pelo vento que, a espaços, foi soprando mais forte em diferentes direcções.

Ora o relativismo moderno não é apenas adversário do humanismo cristão - coloca também enormes desafios ao tipo de sociedades em que vivemos, livres e abertas porque baseadas num contrato de confiança entre todos os cidadãos que partilham um corpo de valores civilizacionais. Tal sucede porque o relativismo moderno dissolve esses valores sem deixar qualquer alternativa no seu lugar.

Quando Bento XVI critica, por exemplo, o niilismo ou o multiculturalismo, fá-lo a partir de um terreno que partilha com todos os que se preocupam com o deslaçamento e a inumanidade prevalecentes em muitos aspectos das sociedades contemporâneas.

O multiculturalismo não é uma forma de tornar as nossas sociedades mais plurais, pois não parte da necessária base comum a qualquer convivialidade, antes do esbatimento dos valores preexistentes. Por isso, ao criar um lugar vazio e sem referências, o multiculturalismo nunca poderá ser um ponto de encontro, antes de desencontros e mal-entendidos. E o niilismo anda naturalmente de braço dado com o multiculturalismo, sobretudo se pensarmos que este corresponde, de acordo com a definição de Leo Strauss, a não querer nada, não valorizar nada.

A crítica de Ratzinguer/Bento XVI tanto ao multiculturalismo como ao niilismo, onde as referências teológicas não impedem o recurso a grandes pensadores da liberdade e das sociedades abertas, como Karl Popper ou Isaiah Berlin, centra-se no que designa como a diminuição da "energia moral" nas nossas sociedades. "A segurança, de que necessitamos como pressuposto da nossa liberdade e da nossa dignidade, não pode vir, em última análise, de sistemas técnicos de controlo, mas apenas da força moral do homem: onde esta faltar, ou não for suficiente, o poder que o homem possui cada vez mais se transformará num poder de destruição", pode ler-se num dos seus textos.

Homem que conheceu, na sua Alemanha, o horror de um despotismo ateu - o nazismo - e que enfrentou, na universidade onde ensinou, os excessos do idealismo político dos anos 60 e 70 - que por vezes desembocaram no terrorismo -, Bento XVI defende que o moralismo político contemporâneo é "um moralismo de sentido errado, porque privado de uma serena racionalidade" e porque coloca com frequência "a utopia política acima da dignidade de cada homem".

Depois da derrota das ideologias que proclamavam a existência de um moralismo político absoluto e insusceptível de contestação, a nova fronteira do debate transferiu-se para estes terrenos que, se muitos proclamam vazios e sem referências, são na realidade um terreno propício às ambições políticas mais desenfreadas. Ambições que, como se viu com o nazismo, como se viu com o comunismo, lidam muito mal com uma qualquer autoridade exterior à área da política e do poder. Do "seu" poder.

Uma forma moderna dessa intolerância é o laicismo radical, "adversarial", isto é, aquela forma de olhar para a separação entre o Estado e a Igreja que não é neutra em relação aos diferentes credos, antes procura ocupar o seu espaço e, por isso, os combate. É um laicismo que, tal como sucedeu durante a I República com a Lei da Separação, não visa separar o que é de César do que é de deus, antes submeter o que é de deus aos desígnios de César.

Naturalmente que a originalidade radical do Cristianismo face a outras religiões monoteístas é incorporar essa separação desde a sua origem e, no caso do catolicismo, de manter um autoridade única, central e separada, capaz de ler os sinais dos tempos sem ser escrava das modas, o que é insuportável para os que cultivam o racionalismo sem concessões. No caso concreto de Bento XVI, as suas encíclicas e a notável lição preparada para ser lida na Universidade de Roma La Sapienza incomodam ainda mais por nelas se defender não só a pacífica coabitação entre fé e razão como - e cito Giorgio Israel, professor de História da Matemática - que "a fé não cresce a partir do ressentimento e da recusa da modernidade". Mais: por se defender que "o perigo do mundo ocidental é que o homem, obcecado pela grandeza do seu saber e do seu poder, esqueça o problema da verdade. E isto significa que a razão, no fim do dia, acabará por vergar-se às pressões dos interesses e do utilitarismo, perdendo a capacidade de reconhecer a verdade como critério único".

Por isso, como notou Ernesto Galli della Loggia no Corriere de la Sera, o gesto dos professores que impediram a ida de Bento XVI à La Sapienza, tal como o dos nossos furiosos "laicos", traduz sobretudo "uma laicidade oportunista, alimentada por um cientismo patético, arrogante na sua radicalidade cega".

O tímido Cardeal Ratzinger, que tímido não deixou de ser depois de ser eleito Papa, não se desviou da linha que, lida à distância, a sua homília pré-conclave traçava. Talvez também por isso, apesar de lidar melhor com as ideias diferentes do que o próprio João Paulo II, não tenha conseguido escapar ao estereótipo que, antes do mais, visa dar dele uma imagem caricatural e preconceituosa. Até porque o que Bento XVI diz incomoda mesmo os teólogos destas "novas" verdades reveladas, pois poucos, num lugar de poder como o dele, diriam humildemente que mesmo um Papa em Roma não existe para "impor a Fé de cima, pois esta é antes do mais um dom da liberdade".

E não há dúvida que é.

Talvez por isso mesmo eu, que não tenho fé, termine lembrando que, pouco tempo antes da morte de João Paulo II, numa conferência na Escola de Cultura Católica de Santa Croce, em Bassano, o ainda cardeal Ratzinger propôs a inversão do axioma dos iluministas de acordo com o qual era possível definir as normas morais essenciais etsi Deus non daretur, como se Deus não existisse, para passar a propor que "mesmo aqueles que não conseguem encontrar o caminho da aceitação de Deus deveriam procurar viver e orientar a sua vida veluti si Deus daretus, como se Deus existisse". Lembrou então que esse fora o conselho de Pascal aos seus amigos não-crentes, considerando que, assim, "ninguém fica limitado na sua liberdade, mas todas as nossas coisas encontram o apoio e o critério de que têm urgente necessidade".

Como alguém que se reconhece nos valores de uma Europa que, como Bento XVI correctamente defende, não é apenas um lugar geográfico mas o produto de uma civilização, e que a matriz dessa civilização é o Cristianismo (sem o qual não teria sido sequer possível o Iluminismo), aceito este desafio. Mais: nesse desafio marco encontro com Bento XVI e com a sua luta civilizacional, que é também minha.

Fonte:http://www.publico.pt/papaemportugal/Noticia/1435984

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Destruição de uma Civilização!

O coincidente panorama da sociedade Portuguesa, governada pelo partido socialista, que pinta Portugal de um rosa já muito avermelhado devido aos seus longos doze anos de governo, interrompidos apenas por 3 pelo PSD nestes últimos 15 anos, e com os estragos perpetuados pelos comunistas em Cabo Verde e em muitos outras nações, transformando as sociedades em aglomerados de coisas e não de pessoas, que buscam o poder totalitário!

Retirado do site Mídia sem Máscara - A "pobreza" e a "desigualdade" são apenas uma tentativa de legitimação, a posteriori, de uma vasta decadência moral e espiritual, incentivada, primeiro, enquanto raison d'État, pelo "materialismo dialéctico" do partido único e, depois, pelo triunfo do relativismo moral no sistema educativo e na imprensa, o que levou, sem uma consistente oposição, à "ditadura do politicamente correcto" e à gradual inversão dos valores, que é, hoje, regra, e não excepção, na sociedade cabo-verdiana. (A "ética da malandragem"1 é o produto de uma lenta desconstrução da alma cabo-verdiana, iniciada nos alvores do "socialismo precário" do pós-independência, cuja grande aposta era o alcançar do "homem novo", um homem light e desprovido do sentido de transcendência, mas fiel à lógica revolucionária e à política subversiva do partido-guia e do seu exército de intelectuais orgânicos, os guardiões do Mito e das maravilhas rutilantes da propaganda; não se pode ignorar os estragos que a "engenharia política" de inspiração totalitária fez no tecido social cabo-verdiano, fragilizando as famílias, a administração pública, a ética do trabalho e a sociedade civil).

1- No caso português, os casos de corrupção sucedem-se, mas somos cada vez mais coisas, prontas para ser engolidas pela besta comunista !

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Liberdade do Homem

Radio Vaticano - (15/4/2010) O primado da obediência a Deus e o significado autentico da penitencia e do perdão, na vida dos cristãos: foi disto que falou Bento XVI na homilia da Missa celebrada na Capela Paulina no Vaticano com os membros da comissão bíblica pontifícia.
A obediência a Deus tem o primado, recordou o Papa, referindo as palavras de São Pedro perante o Sinédrio: “deve obedecer-se antes a Deus do que aos homens”.
A obediência a Deus, dá portanto a Pedro a liberdade de se opor á suprema instituição religiosa. Da mesma maneira Sócrates, diante do Tribunal de Atenas, que lhe oferece a liberdade a pacto de não voltar a procurar Deus, não deve obedecer a estes juízes, comprar a sua vida perdendo a si mesmo , mas deve obedecer a Deus. Obediência A Deus que dá liberdade. Pelo contrario nos tempos modernos – observou Bento XVI – teorizou-se a libertação do homem, também da obediência a Deus: o homem seria livre, autónomo e nada mais.
Mas esta autonomia - salientou o Papa – é uma mentira, uma mentira ontológica, porque o homem não existe para si mesmo e por si mesmo; é uma mentira politica e pratica, porque a colaboração e a partilha das liberdades é necessária e se Deus não existe, se Deus não é uma instancia acessível ao homem, permanece como suprema instancia somente o consenso da maioria. Depois o consenso da maioria torna-se a ultima palavra á qual devemos obedecer e este consenso - sabemo-lo da historia do século passado – pode ser também um consenso no mal. Assim vemos que a chamada autonomia não liberta o homem.
As ditaduras estiveram sempre contra esta obediência a Deus, sublinhou o Papa.
“A ditadura nazista, assim como aquela marxista, não podem aceitar um Deus acima do poder ideológico e a liberdade dos mártires que reconhecem Deus…é sempre o acto da libertação, no qual chega a liberdade de Cristo a nós”.
Hoje, graças a Deus – prosseguiu Bento XVI – não vivemos em ditadura, mas existem formas subtis de ditaduras.
“UM conformismo pelo qual se torna obrigatório pensar como pensam todos, agir como agem todos, e a subtil agressão contra a Igreja, ou também menos subtil, mostram como este conformismo pode realmente ser uma verdadeira ditadura.
Para os cristãos – acrescentou Bento XVI – obedecer antes a Deus do que aos homens, supõe que se conheça verdadeiramente a Deus e querer verdadeiramente obedecer e que Deus não seja pretexto para a própria vontade, mas que seja realmente Deus que convida, em caso necessário, também ao martírio.
“Nós que hoje muitas vezes temos um pouco de medo de falar da vida eterna. Falamos das coisas que são úteis para o mundo, mostramos que o cristianismo ajuda também a melhorar o mundo, mas que a sua meta seja a vida eterna e que da meta venham depois os critérios da vida, não ousamos dize-lo. “
Então – solicitou o Papa – devemos pelo contrario ter a coragem, a alegria, a grande esperança que a vida eterna existe, que é a vida verdadeira e que desta vida verdadeira vem a luz que ilumina também este mundo.

Em tal perspectiva a penitencia é uma graça, graça que nós reconheçamos o nosso pecado, que reconheçamos que precisamos de renovação, de mudança, de uma transformação do nosso ser.
“Devo dizer que nós cristãos, também nos últimos tempos - salientou depois Bento XVI – muitas vezes evitamos a palavra penitencia , que nos chega demasiado dura. Agora, sob os ataques do mundo que nos falam dos nossos pecados, vemos que poder fazer penitencia é graça e vemos como é necessário fazer penitencia, isto é, reconhecer aquilo que está errado na nossa vida. Abrir-se ao perdão, preparar-se para o perdão, deixar-se transformar. A dor da penitencia , isto é da purificação e da transformação, esta dor é graça, porque é renovação, é obra da Misericórdias divina.”
Peçamos, concluiu Bento XVI, que o nosso nome entre no nome de Deus e a nossa vida se torne vida verdadeira, vida eterna, amor e verdade.

sábado, 10 de abril de 2010

O mundo das Aparências

Retirado do blog:http://oinimputavel.blogspot.com/

“ (…)
O Evangelho de São João refere-nos que o Senhor apresentava o “medo dos judeus” como o impedimento fundamental da fé. Para esclarecer a oposição entre fé e medo o evangelista prefere servir-se da ambiguidade da palavra grega doxa, que em geral exprime “aparência”, “esplendor”, etc. Este significado de fundo divide-se em duas direcções opostas. Por um lado designa-se com este termo a mera aparência, aquilo que “parece” mas não é, significando assim a opinião e a aparência de verdade que esta gera. Mas por outro lado a palavra também é usada para referir o real “esplendor”, a glória de Deus, para referir a opinião que Ele tem do homem e do mundo, e esta opinião é verdade, é realidade.
Porém as duas espécies de “aparência” entram em contradição no mundo. A opinião dos homens é poder. Mesmo não concordando com a verdade, exerce o seu poder, tem de se contar com ela. O indivíduo cria, igualmente, uma imagem e si mesmo, uma “aparência” mediante a qual pretende afirmar-se na opinião dos outros; quer guardar a sua “aparência” e para isso deve vergar-se à “aparência” alheia. A própria verdade é longínqua e não mostra o seu poder, mas a opinião dos homens existe e é poder dominante, portanto somos julgados de acordo com ela. O homem teme mais a aparência, que lhe é próxima, do poder humano da opinião que a luz distante e desarmada da verdade. Verga-se assim ao poder da opinião e torna-se ele mesmo seu aliado, um dos seus portadores. Uma vez tendo começado a confiar-se a ela tem de continuar a segui-la passo a passo. Já não pode romper a rede da deformação comum. Nas suas acções já não se orienta em função da realidade mas em função das presumíveis reacções dos outros. Chega-se a um domínio da opinião, do falso. Deste modo, toda a vida duma sociedade, as decisões políticas e as decisões pessoais, se funda numa ditadura do falso, no modo como as coisas são representadas e referidas em vez de na própria realidade. Toda uma sociedade pode assim cair da verdade para o engano comum, para uma escravatura do falso, do não-ser. A redenção que o Logos, a Palavra encarnada de Deus, oferece é em essência libertação da escravatura da aparência, retorno à verdade. Mas a passagem do aparente à luz da verdade dá-se na forma de cruz.
Hoje em dia, na sociedade determinada pelos meios de comunicação social, esta imagem do homem e do seu mundo assumiu uma nova e oprimente realidade. O que é mostrado e “parece” (por exemplo, na televisão) é mais forte que a realidade. A “aparência” do mundo na comunicação social converte-se cada vez mais no autêntico governo do mundo. O medo do aparente torna-se poder universal e paralisa a coragem da verdade.
(…).”

In “Olhar para Cristo – Exercícios de fé, esperança e caridade”, 2006, pelo Cardeal Joseph Ratzinger (Papa Bento XVI), pp. 95-96.